02/08/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
A China exonerou o comandante de sua força de mísseis, numa medida que, segundo analistas, tem como objetivo garantir a lealdade ao presidente Xi Jinping no braço militar que controla os projéteis com ogivas nucleares apontados para os EUA – destinados a desempenhar um papel fundamental em qualquer tentativa de tomada à força de Taiwan.
A remoção de Li Yuchao, um veterano da Força de Foguetes do Exército de Libertação do Povo, representou o fim abrupto de uma passagem excepcionalmente curta em um dos postos militares considerados um dos mais importantes do país. Ela ocorreu também depois de a China ter substituído de forma inesperada seu ministro das Relações Exteriores, Qin Gang, e dias após uma reunião de Xi com mandantes do Exército de Libertação do Povo (PLA, na sigla em inglês) na qual os militares foram convocados a “defender o status de Xi como ‘núcleo’ da liderança do Partido Comunista e a persistir nos esforços para impor a disciplina e combater a corrupção nas forças armadas”, segundo fontes oficiais.
Li, que foi nomeado comandante em janeiro do ano passado, não era visto em público há vários meses. Sua remoção foi confirmada em uma cerimônia um dia antes de a China celebrar o 96º aniversário de fundação do PLA, ontem.
Na segunda-feira, Xi promoveu oficialmente o novo comandante da Força de Foguetes do PLA, Wang Houbin, e seu novo comissário político, Xu Xisheng, ao posto de generais, e os presenteou com suas novas insígnias, segundo a agência de notícias estatal “Xinhua”. As nomeações de Wang e Xu, que têm experiência na Marinha e na Força Aérea, respectivamente, se desviaram da prática de longa data de colocar a força de mísseis estratégicos da China sob o comando de oficiais com experiência específica nessa função.
Taylor Fravel, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e especialista sobre os militares chineses, disse que a decisão de nomear oficiais de fora da Força de Foguetes sugere que os problemas identificados com Li foram graves e reflete a importância da força à medida que ela passa por uma ampliação significativa em meio à deterioração dos laços com os EUA.
Sob o controle ao estilo soviético que a China exerce sobre os militares, o PLA mantém um sistema de liderança duplo em que unidades militares são comandadas por dois oficiais normalmente de graduação equivalente: um comandante com autoridade formal sobre as decisões de combate e um comissário político que faz cumprir as diretivas do partido.
A reportagem da “Xinhua” não menciona o comandante anterior, Li, ou o comissário político anterior, que ocupava o cargo desde julho de 2020. O Ministério da Defesa da China não respondeu a perguntas sobre a substituição de Li.
Em um movimento que se deu pouco tempo depois da remoção do chanceler Qin, “o expurgo do chefe da Força de Foguetes, Li Yuchao, um confidente de Xi que supervisionava o programa de armas nucleares, marca uma das maiores mudanças de liderança na China em anos”, diz Craig Singleton, pesquisador da Foundation for the Defense os Democracies, um centro de estudos de tendências conservadoras de Washington.
Xi comandou uma ampla repressão anticorrupção nas forças armadas chinesas depois que assumiu o poder no fim de 2012, expurgando vários comandantes de alta patente – incluindo o ex-chefe do Departamento do Estado-Maior Conjunto Fang Fenghui, sentenciado à prisão perpétua em 2019. Especialistas militares descreveram os expurgos como essenciais para o esforço de Xi de transformar o PLA em uma força de combate moderna, embora as revelações de investigações contra oficiais superiores tenham diminuído nos últimos anos.
Singleton disse que o recente e breve levante armado na Rússia provavelmente serviu de lembrete da necessidade de manter os militares sob rédea curta. “A rebelião fracassada do [grupo paramilitar] Wagner reforçou a fixação de Xi no controle ideológico, mesmo que à custa do crescimento econômico e da modernização militar da China em curso”, afirmou.
A Força de Foguetes do PLA controla os programas de mísseis terrestres convencionais e nucleares da China, incluindo mísseis balísticos intercontinentais capazes de alcançar o território dos EUA. Nos últimos anos, Pequim acelerou o desenvolvimento de armas nucleares e caminha para ter cerca de 1,5 mil ogivas nucleares operacionais até 2035, em comparação às atuais 400, informou um relatório do Pentágono no ano passado.
A China construiu vastos campos de silos de mísseis em sua região desértica ocidental para mísseis balísticos intercontinentais e hoje possui mais lançadores desses mísseis do que os EUA, segundo relatório encaminhado por militares americanos ao Congresso.
Pequim dobrou seu número de brigadas de mísseis de combate na última década, de acordo com um estudo recente.
Fonte: Valor Econômico