O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, assinou um termo de confidencialidade com a Polícia Federal (PF) e com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Trata-se do primeiro passo para negociar um acordo de delação premiada. Ele foi transferido, por ordem de André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para a Superintendência da PF em Brasília.
O objetivo do termo de confidencialidade é garantir o sigilo das tratativas sobre a delação. O procedimento é previsto na Lei 12.850/2013. “O recebimento da proposta para formalização de acordo de colaboração demarca o início das negociações e constitui também marco de confidencialidade”, diz a norma.
Vorcaro foi transferido para a Superintendência da PF na noite desta quinta. Antes, estava na Penitenciária Federal de Brasília, que é uma unidade de segurança máxima. Na mesma decisão que autorizou a transferência, Mendonça rejeitou um pedido de prisão domiciliar feito pelo ex-banqueiro.
A perspectiva de delação passou a ser aventada com mais força desde que Vorcaro foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 4 de março, e com a troca de defesa. Na semana passada, o advogado José Luis Oliveira Lima, conhecido como Juca, passou a defender o ex-banqueiro. Juca já conduziu delações premiadas na Operação Lava-Jato, como a do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro. Além de Mendonça, o advogado tem tratado da possibilidade de delação com investigadores.
A avaliação de Mendonça era que a delação deveria ser firmada conjuntamente com PF e PGR. A participação de mais atores pode diminuir eventuais questionamentos.
Desde o começo das investigações, a posição da Polícia Federal é que uma delação só é possível se ficar claro que o ex-banqueiro tem informações relevantes que podem atingir pessoas “maiores”. Assim, uma delação, se formalizada, indicaria que Vorcaro pode implicar instituições e autoridades.
Mensagens encontradas nos celulares de Vorcaro sugerem relações com diversas autoridades, de políticos a ministros do Supremo.
Ele foi preso no começo do mês por ordem de Mendonça, em meio a investigações para apurar práticas de crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. O empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, também foi preso preventivamente.
De início, ambos ficaram na penitenciária de Potim (SP). Mas a PF apontou “risco à ordem pública” e necessidade de transferência para presídio federal, alegando que o ex-banqueiro detém “significativa capacidade de articulação e influência sobre diversos atores situados em diferentes esferas do poder e do setor privado”.
A investigação que mira o ex-banqueiro apura suspeitas de fraudes praticadas pelo Master na venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB). Também a contratação de influenciadores para que atacassem instituições e autoridades envolvidas na liquidação do banco. Outra investigação apura suspeitas de um esquema em que empresas de capital social considerado “ínfimo” cederam direitos creditórios de valores milionários a fundos de investimentos vinculados ao Banco Master.
Na Superintedência da PF, Vorcaro ficará na mesma cela que era usada por Jair Bolsonaro antes de o ex-presidente ser transferido para a Papudinha. A sala tem 12 metros quadrados, cama de solteiro, frigobar, televisão, ar condicionado e banheiro privativo.
A decisão de Mendonça não foi divulgada até a publicação desta reportagem. Com isso, não se sabe até o momento o que teria motivado a ordem, de quem partiu o pedido ou a fundamentação da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal.
O Valor entrou em contato com a defesa de Vorcaro, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
Fonte: Valor Econômico
