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Os impactos da guerra no Oriente Médio, que há algumas semanas eram uma expectativa, já começam a afetar de forma concreta empresas brasileiras em diferentes segmentos. Os principais reflexos são fruto da disparada de preço do petróleo, que tem elevado custos em diferentes atividades, e problemas na cadeia de suprimentos.
Companhias já observam um encarecimento das passagens aéreas no país, devido ao aumento do petróleo. O CEO da CVC Corp, Fabio Mader, apontou um salto de 17% nos valores de março, na comparação com o ano passado – o dado considera a venda de março da empresa de turismo, ou seja, o cliente pagou 17% a mais para voar do que em igual período do ano anterior.
“O aumento está diretamente ligado à alta e à incerteza com o preço do combustível, que faz as aéreas serem mais agressivas na precificação”, disse Mader, ao Valor. Desde o dia 28 de fevereiro, quando o conflito se agravou, as aéreas já repassaram quatro aumentos, cada um de 10%. “Mas toda vez que aumentam, recuam uma parte [via promoções ou ajuste]. No fim, a alta nunca é 10%, é 3%, 4%”, explicou.
O setor aéreo e o governo federal tentam costurar uma saída para mitigar o aumento do preço do combustível, disse Juliano Noman, presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). Pessoas do setor estimam que poderá haver uma alta de até 50% nos preços do querosene de aviação (QAV) no próximo dia 23, quando a PetrobrasCotação de Petrobras deverá atualizar a tabela, em meio à volatilidade da cotação do petróleo nas bolsas.
Procurado, o Ministério de Portos e Aeroportos disse ter enviado uma proposta ao Ministério da Fazenda, com sugestões como a “redução temporária de tributos incidentes sobre o querosene de aviação, redução do IOF sobre operações financeiras das empresas aéreas e do Imposto de Renda sobre operações de leasing de aeronaves”, disse.
Grandes operadores logísticos também já notam alta dos preços do diesel, percepção que se acentuou nos últimos dias. O aumento observado, na média nacional, foi de 20% em relação à semana passada, segundo pesquisa interna da Abol (Associação Brasileira de Operadores Logísticos), feita entre segunda (17) e terça (18).
“Observamos uma alta substancial em todas as regiões do Brasil. Nossa percepção é que tem postos de combustível que não estão repassando a desoneração de PIS/Cofins [isenção tributária concedida pelo governo federal para amenizar os efeitos da guerra]”, afirmou Marcella Cunha, diretora-presidente da entidade.
O levantamento apontou aumentos maiores no Rio de Janeiro (com altas de até 50%), em Santa Catarina (35%) e na Bahia (30%). Além disso, foram identificados casos em Santa Catarina de desabastecimento de diesel em postos – o motivo, na avaliação da Abol, são empresas que estão estocando diesel, com medo da escalada de preços. “Se a guerra permanecer, e o barril tiver novos incrementos, a tendência é piorar o abastecimento. Mas o governo está tentando amortecer o efeito.”
Este aumento no custo logístico acaba sendo repassado também para as empresas de diferentes segmentos. O setor de restaurantes, por exemplo, afirma que já é possível observar uma pressão no custo de insumos devido ao transporte.
“Para um segmento que historicamente opera com margens apertadas, qualquer variação relevante de custo tem efeito direto na operação”, afirma Fernando Blower, presidente-executivo da Associação Nacional de Restaurantes (ANR). Ele destaca a dificuldade das companhias de repassar a inflação ao consumidor final, em um contexto econômico já sensível.
Para a Associação Brasileira dos Fabricantes de Material de Construção (Abramat), o maior impacto da guerra deverá ser com logística, já que a aquisição e a distribuição de insumos dependem do transporte rodoviário, o que faz o combustível ter “peso relevante” na formação de preços, afirmou a entidade. “Embora ainda não haja um cálculo preciso sobre o reflexo da alta, é esperado um aumento nos custos de produção e de comercialização”, com repasse ao consumidor.
Para além dos efeitos dos fretes, diversas indústrias que utilizam outros insumos do petróleo devem ser duplamente afetadas, como é o caso do agronegócio e do setor petroquímico.
Frederico Fernandes, responsável pela área de precificação de petroquímica da Argus, diz que como o Brasil depende da importação de cerca de 85% da ureia e amônia, para produção de fertilizantes, qualquer restrição às exportações do Irã aumenta o preço global e pressiona esses setores.
“A Associação Petroquímica e Química Latinoamericana (Apla) vem falando que a indústria petroquímica na região já operava sob margens comprimidas e forte dependência de importações”, disse Fernandes. “Em um cenário de energia mais cara e maior volatilidade, países latino-americanos, que são majoritariamente ‘price takers’ [sem poder de influenciar os preços], enfrentam custos mais altos e perda de competitividade global.”
A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) também aponta que o preço da nafta, um dos principais insumos para produção de plásticos e borrachas, subiu 44% desde 28 de fevereiro, no início da guerra, até ontem (19), para US$ 845,3 por tonelada. Para Eder da Silva, gerente de economia e comércio exterior da entidade, em um cenário extremo de escalada da guerra, pode ser necessário um redesenho das cadeias globais de suprimento da indústria.
No caso das cimenteiras, as empresas também são impactadas pelo aumento no preço do coque, usado como combustível em seus fornos. A Votorantim, maior fabricante no país, já substitui hoje um terço do coque por combustíveis alternativos, como biomassa, mas poderá fazer reajustes de preços no Brasil por causa do aumento de custos. “Estamos avaliando região a região, e de alguma forma vamos tentar também uma recomposição desses valores”, disse o CEO global Oswaldo Ayres Filho, que reforçou que a situação ainda é “muito volátil e fluída”.
Em alguns setores, além do encarecimento dos custos, a guerra no Irã também tem gerado problemas na cadeia de suprimentos global. No caso do plástico, por exemplo, o setor enxerga um impacto na disponibilidade de insumos petroquímicos.
Um dos pontos de maior atenção, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), é o abastecimento de resinas com grades especiais, usadas em aplicações de maior valor agregado e com exigências técnicas específicas. Para Luciana Pellegrino, presidente-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), é cedo para estimar impactos relevantes na produção de embalagens de plástico, mas ela destaca a dificuldade de substituir o material.
Cleantho Leite, especialista da indústria petroquímica, avalia que amônia, ureia (bases para fertilizantes) e enxofre (que é base para ácido sulfúrico), produzidos na área do conflito, também podem passar por um período de escassez. “Ainda não sabemos se será por muito tempo ou não. Mas o aumento de preços pode afetar a produção agrícola nas regiões que dependem de importação do Oriente Médio”, disse.
Empresas que exportam para a Ásia ou Oriente Médio também têm sofrido com disrupções logísticas geradas pela guerra. A Fic Company, que fornece insumos para pesquisas clínicas em outros países, já teve que redirecionar pelo menos dois embarques com destino à Índia que antes passavam por Dubai, nos Emirados Árabes, por meio de rotas alternativas na Europa.
“Agora, embarcamos para a Europa para depois seguir ao Oriente Médio, ou para a Ásia, como foi nesses casos da Índia”, disse Pedro Camargo, coordenador logístico internacional da Fic. Segundo ele, as mudanças aumentam entre 15% e 20% os custos com o transporte e em cerca de 30 horas o tempo de trânsito nas rotas.
Fonte: Valor Econômico