A valorização forte das bolsas americanas em 2026 pode dar a impressão de que o mercado apenas retomou o entusiasmo com as gigantes da tecnologia. Mas, para a diretora-executiva e estrategista de mercados globais do J.P. Morgan Asset Management, Gabriela Santos, a inteligência artificial entrou em uma nova fase. Se nos últimos anos a atenção esteve concentrada em empresas que lideraram a corrida pela tecnologia, agora os investidores buscam identificar quais companhias efetivamente capturam seus ganhos econômicos, com destaque para empresas de semicondutores ligadas a memória e a unidades centrais de processamento (CPUs).
“Não são só as Sete Magníficas que ganham [nessa nova fase]. Várias outras companhias podem ganhar, incluindo uma participação relevante de empresas de semicondutores da Ásia, especialmente Coreia do Sul e Taiwan”, resume Santos, em entrevista ao Valor.
Embora o tema da inteligência artificial continue a impulsionar os mercados globais, a diretora avalia que investidores poderão buscar alguma diversificação em regiões como a América Latina. O movimento, diz, não representa uma disputa direta por fluxo entre Brasil e Estados Unidos, mas reflete a necessidade de equilibrar os portfólios.
Valor: A alta recente das bolsas americanas deixou os preços das ações excessivamente esticados ou os múltiplos retornaram a níveis mais razoáveis?
Gabriela Santos: É interessante pensar que, no acumulado do ano, a bolsa americana está com alta forte, porém o preço sobre o lucro está inferior em relação ao início de 2026: agora está 21 vezes, versus 22 vezes no começo do ano. O que aconteceu? A expectativa de lucro cresceu mais do que o preço das ações subiu. É absolutamente extraordinário ver quão forte está o crescimento de lucro das companhias americanas. Por isso teve esse aumento para cima das expectativas de lucro, especialmente impulsionadas por tudo relacionado ao tema de inteligência artificial. Então, não só está barato, como ficou mais barato do que o nível visto no começo do ano.
É preciso também ter outros temas, ações e mercados para fazer um contrapeso quando houver uma correção em IA”
Valor: O que o mercado precisa ver para que um balanço seja efetivamente interpretado como positivo?
Santos: Estamos claramente numa nova temporada. Não é mais sobre quem está ganhando com o tema de inteligência artificial, agora é sobre quais companhias e setores estão se beneficiando. Em termos de retornos, um dos grandes temas deste ano são os semicondutores. Mas é muito interessante ver, abaixo da superfície, que tipo de semicondutores: memórias e CPUs, por exemplo, estão fazendo o lucro crescer 450%. Ou seja, são companhias que os investidores não têm tanto e que estão sendo beneficiadas nessa nova temporada de inteligência artificial. Eu acho que não é o resultado em si de algumas companhias, mas quanto já é esperado delas. Claramente, esse tema de IA vai passar por muitas fases diferentes. É importante que os investidores olhem para frente e não fiquem só investindo em companhias que ganharam muito nos últimos anos.
Valor: As empresas de software americanas podem ser provedoras de liquidez para outros investimentos, como ações de semicondutores?
Santos: Nos primeiros anos do lançamento do ChatGPT, quanto maior o uso de inteligência artificial, melhor. Cada companhia que adotava o tema se beneficiava. Agora não é mais assim. Estamos numa nova fase do tema. Os investidores estão pensando não só nos benefícios, como também no potencial disruptivo da tecnologia. As companhias de software estão sofrendo. Elas têm um tipo de modelo econômico que pode ser desafiado por novos modelos de inteligência artificial que facilitam muito a linguagem de programação e a criação de softwares internamente. Então, os investidores têm questionado as margens dessas companhias de software, mesmo com o lucro muito sólido. Olhando para frente, os investidores estão pensando não só em quem ganha, mas em quem pode ser desafiado pelo tema da inteligência artificial.
Valor: Diante do “boom” de inteligência artificial, a América Latina pode ganhar relevância como forma de diversificação?
Santos: Tudo está superconcentrado no tema da inteligência artificial. Os mercados de ações americanas e asiáticas, por exemplo, possuem uma correlação positiva e alta hoje em dia. Então, acho que os investidores podem procurar também outros mercados para ajudar a diversificar uma carteira. Em fevereiro deste ano, tivemos uma grande correção em tudo o que estava relacionado à inteligência artificial. Em janeiro do ano passado, vimos o mesmo movimento. Ou seja, é preciso ter outros temas, ações e mercados para fazer um contrapeso quando houver uma correção no tema de inteligência artificial. Vemos os investidores olhando para a América Latina, Europa e Japão como outras regiões que podem ajudar a fazer uma diversificação em relação ao tema da inteligência artificial. Mas, como sempre, temos que levar os temas locais em conta.
Valor: A pausa nos fluxos para o Brasil, com a migração de recursos para EUA e Ásia nas últimas semanas, pode ser pontual?
Santos: Só para deixar claro, não vejo competição de fluxo entre Estados Unidos e Brasil. São coisas completamente diferentes. Se houver uma competição, é entre Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan, porque é uma maneira direta de investir no tema de inteligência artificial. O Brasil compete com outros emergentes e tem um certo “teto” em termos de fluxo, já que o seu tamanho, infelizmente, é pequeno nos índices e nas carteiras.
Valor: E atingimos esse teto?
Santos: A alocação de muitos investidores emergentes ainda está “underweight” [subalocado] em América Latina. Então, é possível ter ainda um “extrazinho” antes de chegar nesse teto em termos de alocação para investidores emergentes.
Valor: Para voltar a ter esse “extra” de alocações, quais seriam os gatilhos?
Santos: Em termos macroeconômicos, seria preciso ter uma certa correção no entusiasmo e nos fluxos voltados para o tema da inteligência artificial. Também seria bom nós termos um pouco mais de visibilidade sobre a eleição presidencial. O resultado da eleição é interessante para os investidores. Em termos de política monetária, um resultado lido como mais ortodoxo é mais bem-visto pelo mercado.
Valor: E como está a visão local?
Santos: O que vemos é que o Brasil teve um desempenho extraordinário. Estamos saindo de um ponto de partida muito diferente do resto do mundo, em que o brasileiro já tem muito alocado em temas domésticos, especialmente em renda fixa, mas bolsa também. A nossa conversa com os investidores brasileiros continua sendo como nós podemos realocar esse investimento brasileiro em bolsas estrangeiras. E o tema principal ainda é, na nossa opinião, inteligência artificial. Agora, esse ano realmente reforçou a nossa confiança de que esse é um tema global, não é unicamente um tema para acessar na bolsa americana, especialmente agora que estamos nessa nova fase. Não são só as Sete Magníficas que ganham. Várias outras companhias podem ganhar, incluindo uma participação relevante de empresas de semicondutores da Ásia, especificamente Coreia do Sul e Taiwan.
Valor: Como a guerra no Irã alterou a visão da casa sobre o cenário global e alocação de recursos?
Santos: Para o mercado acionário é como se não tivesse um conflito, especialmente o americano e o asiático. O tema da inteligência artificial continua sem uma grande disrupção baseada na guerra. Mudou muito mais no cenário de renda fixa, em que temos visto o mercado precificar uma trajetória de inflação mais alta e uma resposta de bancos centrais diferente. No início do ano, os investidores estavam precificando três cortes de juros pelo Fed [Federal Reserve, o banco central americano] e agora estão precificando uma alta de juros, e o mercado já incorporou muito dessa mudança de inflação e de juros. No caso de uma resolução do conflito, vemos oportunidades na renda fixa americana, especialmente na parte curta da curva, porque haveria um alívio na inflação.
Fonte: Valor Econômico