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Após surpreender com crescimento de 1,4% no segundo trimestre, a economia brasileira dá sinais de perda de ritmo no terceiro trimestre. Enquanto indicadores setoriais do IBGE para varejo, serviços e indústria trouxeram leituras majoritariamente negativas em julho e agosto, indicadores antecedentes apontam cenário misto em setembro, com queda principalmente nos serviços prestados às famílias.
As pesquisas setoriais do IBGE mostram indicam perda de tração até agosto. O varejo restrito emendou quedas de 0,6% em julho e 0,3% em agosto. Já o volume de serviços prestados no país caiu 0,4% em agosto, ao passo que a alta de julho foi revisada de 1,2% para 0,2%. A indústria, por sua vez, subiu 0,1%, após cair 1,4% em julho.
Conhecido como prévia do PIB, o Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br) apontou alta de 0,23% em agosto, após contração de 0,59% em julho. O resultado de agosto veio acima da mediana das estimativas colhidas pelo Valor Data, de elevação de 0,10%. Mesmo assim, economistas entrevistados pelo Valor consideram que o resultado sinaliza um crescimento mais suave a partir de agora.
No trimestre encerrado em agosto, a alta foi de 1,5% em relação ao trimestre anterior. No acumulado do ano, a alta foi de 2,9%. Em 12 meses, o indicador apresentou avanço de 2,5%. Em relação ao mesmo mês do ano passado, por sua vez, houve alta de 3,1%. Devido às constantes revisões, o indicador acumulado em 12 meses é mais estável do que a medição mensal.
Para setembro, os indicadores antecedentes não dão direção clara. O indicador proprietário do Itaú Unibanco para atividade (Idat) mostra alta de 0,7% no segmento de bens, mas com desempenho melhor entre os sensíveis a crédito (1,6%) na comparação com os sensíveis à renda (0,4%).
A abertura de serviços prestados às famílias, por sua vez, avançou 1,1% na margem. Traduzindo esses números para as pesquisas setoriais do IBGE, no entanto, o banco projeta alta de 1,2% do varejo restrito na Pesquisa Mensal do Comércio e contração de 0,4% dos serviços prestados às famílias na Pesquisa Mensal dos Serviços.
Para a economista Julia Gottlieb, do Itaú, os indicadores apontam crescimento em setembro na comparação ano contra ano, ainda que em ritmo menor. “É algo que aparece em outros indicadores antecedentes, especialmente a confiança da indústria, que segue em patamares altos e é importante para prever o desempenho do setor e também do varejo”, diz.
Em sua avaliação, a desaceleração está relacionada à perda de força do impulso fiscal, o grande e responsável pelo desempenho melhor que o esperado do primeiro semestre, diz. “São coisas que não se repetem, como o pagamento de precatórios, aumento real do salário mínimo e antecipação de alguns desembolsos, com o 13º do INSS”, diz. “Ainda assim, vale salientar, não estamos falando de contração, mas perda de ritmo. Não está no radar termos leituras negativas do PIB”, diz. O Itaú vê alta do PIB de 0,4% no terceiro trimestre e 0,3% no quarto, levando o ano a fechar com expansão de 3,2%.
Outro indicador em alta frequência da atividade, o Iget, do Santander, aponta contração em setembro de 0,8% do IGet ampliado, equivalente ao varejo ampliado, e alta de 0,6% no conceito restrito. Já o indicador relativo aos serviços prestados apontou queda de 2,1% no mês.
Em relatórios recentes, o banco comenta sobre outros indícios de perda de ímpeto da economia. Um deles é a o indicador de confiança empresarial da FGV, que recuou 0,8% em setembro, a primeira queda desde fevereiro. Paralelamente, o saldo de US$ 5,4 bilhões da balança comercial no mês foi impulsionado não apenas por uma receita maior das exportações, como importações menores. “Pode ser uma indicação de que a atividade econômica está (finalmente) perdendo tração”, escreve Jankiel Santos, economista da instituição.
Para Rafaela Vitória, economista-chefe o Banco Inter, os dados do trimestre até agosto mostram alguma acomodação, em especial da demanda das famílias. “De certa forma, é algo positivo no debate atual. Os analistas ficaram muito preocupados sobre o sobreaquecimento da economia e os potenciais impactos sobre a inflação após os dados do segundo trimestre. Esse tema ganhou força depois que o Banco Central revisou para positivo a projeção atual sobre o hiato do produto”, observa. “Uma atividade rodando em níveis mais moderados pode ajudar a conter as expectativa de inflação e juros.”
Ajudam nesse cenário dois fatores, diz Rafaela. O primeiro é alguma desaceleração na ponta do crédito para às famílias, em meio sinais de crescimento da inadimplência. O segundo é a desaceleração do impulso fiscal: em agosto, mesmo levando em consideração gastos extraordinários como os R$ 4,9 bilhões, a despesa cresceu 2% acima da inflação, contra uma média de 7% no ano. “Quando projetamos os últimos meses do ano, considerando o cumprimento do arcabouço, o gasto pode ser até 8% menor que no mesmo período do ano passado”, ressalta.
Após a forte expansão do segundo trimestre, esperava-se alguma desaceleração maior dos indicadores na margem. O que se viu, no entanto, foi uma economia que, aparentemente, conseguiu manter a atividade rodando perto dos altos níveis vistos em junho, diz o economista do BTG Pactual Bruno Martins. “Mas acho que já existem aí os primeiros sinais, leituras consecutivas mostrando que não houve aceleração preparando o caminho para um quarto trimestre negativo”, afirma.
O banco vê alta de 0,7% no terceiro trimestre e contração de 0,4% no quarto trimestre, número que volta ao positivo já no primeiro trimestre de 2025. “Não vejo discussão sobre recessão técnica”, enfatiza.
Parte da explicação para o bom momento da economia perdurar, diz, vem do mercado de trabalho. Via de regra, os economistas consideram que o emprego é uma variável que reage com maior defasagem ao ciclo econômico – é a última a melhorar e também a piorar. Com a manutenção do desemprego baixo e do crescimento dos salários, a massa de renda deve sustentar o consumo ainda que outros fatores comecem a retrair.
No trimestre encerrado em agosto, a taxa de desemprego caiu a 6,6%, a menor para o período na série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, do IBGE. Já o rendimento médio real cresceu 5,1% na comparação com o mesmo período do ano passado.
Para setembro, o indicador de emprego do Itaú (Idat-Emprego) aponta alta de 3,1% da variação interanual do estoque de emprego formal no setor privado. Já o crescimento interanual do salário nominal médio dos novos contratados desacelerou de 6,4% para 5%.
“O Idat-Emprego segue mostrando resiliência do emprego formal com leve aceleração do crescimento na ponta, corroborando nossa expectativa de que a taxa de desemprego deve se manter em patamares historicamente baixos nos próximos meses. Os salários em patamar mais baixo do que os observados no início do ano, mesmo com o avanço em setembro, mas ainda com reajustes acima da inflação”, diz o banco em relatório.
Martins avalia, no entanto, que a trajetória de desaceleração da economia não significa que o Banco Central terá alívio maior no combate à inflação. “O que podemos notar é que boa parte do desaquecimento da economia vem mais de uma restrição de oferta do que propriamente da falta de demanda. Com um hiato positivo, é natural que se cresça menos na margem”, salienta.
A abertura dos serviços em agosto foi bem esclarecedora nesse sentido, diz. Embora o setor como um todo tenha registrado contração, os serviços prestados às famílias – setor que reflete melhor a demanda – aceleraram 0,8%.
Nesse contexto, o economista alerta para o risco de que uma piora da economia na reta final do ano ligue um alerta e leve o governo federal a pisar novamente no acelerador dos gastos. Essa seria um desenvolvimento negativo, dado que, em um contexto de restrição de oferta, uma aceleração no impulso fiscal se traduz cada vez menos em crescimento e cada vez mais inflação, ressalta.
“A grande dúvida do mercado é qual a reação do governo diante dessa provável desaceleração. Vale notar que não estamos em trajetória de pouso forçado, mas de pouso suave. Prevemos 2% de alta do PIB ano que vem, o que é um resultado notável, dado o nível de piora das condições financeiras até aqui”, diz. “O que precisamos agora é de ações do outro lado, que reduzam o risco fiscal e o juro longo. Isso gera expectativa de PIB potencial e de crescimento lá na frente.”
Propostas que circulam no noticiário, como a isenção para Imposto de Renda de pessoas com renda até R$ 5 mil, não ajudam nesse sentido. Nas contas de Rafaela Vitória, a medida pode liberar R$ 90 bilhões no orçamento das famílias. “Não é somente perda de receita para o governo, mas aumento imediato de renda que pode impulsionar atividade”, diz.
Para ela, preocupações como essa são, no momento, especulativas. “O que temos hoje é um impulso fiscal muito mais contido em 2024 e também no projeto para o Orçamento de 2025. Um crescimento real de 2,5% a 3% das despesas será muito menor que o observado em 2023 e 2024”, pontua. (Colaborou Gabriel Shinohara, de Brasília)
Fonte: Valor Econômico