Por Assis Moreira — De Genebra
11/05/2022 05h00 Atualizado há 6 horas
Grynspan: não há escassez de alimentos, o que há é má distribuição e preços altos — Foto: Europa Press via AP
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Grynspan: não há escassez de alimentos, o que há é má distribuição e preços altos — Foto: Europa Press via AP
Após um mês de guerra na Ucrânia, em março, a Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) emitiu o alerta sobre a baixa no crescimento econômico global e a relação explosiva entre a alta e preços dos alimentos e a instabilidade política e social.
Nesta semana, o Sri Lanka mergulhou no caos, e o governo caiu sob pressão de manifestações. O país asiático não tem mais divisas estrangeiras para importar bens e serviços essenciais. Há escassez de alimentos, medicamentos, gás e gasolina, e a inflação anual atingiu 30% em abril, ante 17,5% em fevereiro. O país também suspendeu o pagamento do serviço da dívida pública externa, de US$ 35 bilhões.
O que está ocorrendo em Sri Lanka é acompanhado com atenção pelo mundo. Ao receber o Valor em seu gabinete, em Genebra, a secretária-geral da Unctad, Rebeca Grynspan, diz que em 2008-09, quando houve uma alta de preços de alimentos, 40 países enfrentaram instabilidade social. Hoje, o índice de preços está maior que naquele período (veja quadro) e, além da instabilidade em Sri Lanka, já houve protestos no Peru e problemas em países da África.
Grynspan diz temer efeitos devastadores nos países em desenvolvimento, na esteira da crise da pandemia de covid-19 e agora do choque da guerra na Ucrânia. “Nos preocupa um efeito dominó de insolvência”, disse. Ela pede que a comunidade internacional haja logo e com flexibilidade para fornecer liquidez, facilitar a reestruturação da dívida e para evitar restrições de países ao comércio de alimentos.
Economista e ex-vice-presidente de Costa Rica (1994-98), Grynspan deixa claro que, sem alguma ação, pode crescer a instabilidade social, econômica e política global. E reitera a urgência de se evitar uma nova década perdida para países em desenvolvimento. Leia os principais trechos da entrevista:
Valor: Com a guerra na Ucrânia, a Unctad cortou em março sua projeção para o crescimento econômico global. A situação piorou mais?
Rebeca Grynspan: Acreditamos que a economia global vai crescer cerca de 2,6%, ante 3,6% que esperávamos sem a guerra. Não estamos mudando a estimativa nesse momento. Muito do que estamos vendo foi levadas em conta na nossa projeção. O certo é que o golpe da guerra, combinado com a pandemia e a mudança climática que muitos países já estão vivendo, tem efeitos devastadores sobre os países em desenvolvimento.
Valor: A Unctad tem cálculos de quanto a guerra já custou no total para a economia mundial?
Grynspan: Não sei exatamente, mas, pelas nossas estimativas, já tirou 1 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB) de crescimento. É o que chamamos de renda perdida [de algumas centenas de bilhões de dólares].
Valor: Políticas dos países ricos podem ampliar a desaceleração?
Grynspan: O que mais nos preocupa nas políticas dos países desenvolvidos é o ‘tapering’ [diminuição das compras de ativos pelos BCs] e o uso da taxa de juro como para abater a inflação. A inflação é um problema mundial e tem sido agravada pela alta dos preços de alimentos e energia por causa da guerra na Ucrânia. Já vimos como o Federal Reserve [BC dos EUA] está elevando as taxas de juros para tratar de controlar o processo inflacionário. Isso gera vários efeitos. Um, o capital toma o rumo de mercados maduros e mais seguros. Dois, obriga os países em desenvolvimento a elevar suas taxas de juros, o que pode pressionar suas perspectivas de crescimento. E três, nos preocupa muito a dívida. À medida que os países têm que rolar sua dívida com juros maiores, será muito mais difícil e caro se financiarem. Os países em desenvolvimento já estão num nível de endividamento muito elevado e vulnerável. E nos preocupa um efeito dominó de insolvência.
Valor: Quais países estão mais ameaçados?
Grynspan: Sri Lanka… É muito difícil citar países específicos, porque você acaba afetando os países, e tenho muito cuidado com isso. Mas, com relação à guerra na Ucrânia, os países do Oriente Médio e da África estão numa situação complicada. Primeiro, importavam muito da Ucrânia. Antes da guerra e da alta dos juros pelo Fed, os países em desenvolvimento dedicavam 16% em média da receita de exportações para pagar a dívida. E os pequenos países-ilhas, o dobro, 32%. Isso é insustentável. Após a Segunda Guerra, considerava-se que o máximo que a Alemanha deveria pagar em serviço da dívida para se recuperar era de 3,5% das suas exportações. Hoje estamos num nível de dívida muito perigoso. O Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que 60% dos países de baixa renda têm um nível de endividamento insustentável.
Valor: E mais as outras crises…
Grynspan: Temos dois grupos de países que pesquisamos, e concluímos que 69 países [25 na África, 25 na Ásia e Pacífico e 19 na América Latina e Caribe] têm uma exposição severa aos três canais globais desta crise: aumentos de preços dos alimentos e da energia e aperto das condições financeiras. E 107 países [41 na África, 38 na Ásia e Pacífico e 28 na América Latina e Caribe] têm uma exposição severa a ao menos um deles. No Sri Lanka, por exemplo, a crise entrou pelas finanças, mas logo se tornou uma crise de alimentos e combustíveis, porque não há dinheiro para importar. Assim, a exposição dos países a uma crise alimentar é muito elevada, estamos falando quase de uma crise global. É certo também que alguns países se beneficiam, dos altos preços das commodities. Países exportadores de petróleo, de grãos, como o Brasil. O problema que tem o Brasil é a inflação e a taxa de juros, que subiram muitíssimo e serão um problema para a recuperação brasileira e da região.
Valor: A situação no Brasil afeta por tabela o resto da região?
Gryspan: Sim, o Brasil é uma força muito importante na América Latina e vai afetar a região. Mas como o Brasil está se beneficiando na parte comercial, pode ter um espaço para contrabalançar o problema dos altos preços para as famílias pobres, que poderiam receber apoio do Estado. Há países que não têm essa possibilidade, porque são afetados pela inflação, mas não se beneficiam dos preços altos.
Valor: E a América Latina?
Gryspan: A região tem mais resiliência com relação à crise de alimentos porque tem exportadores. Mas o Caribe e a América Central preocupam, pelos problemas de dívida, energia e a maioria é importador de alimentos.
Valor: Como a sra. vê o futuro da economia mundial nesse novo cenário geopolítico?
Grynspan: Estamos vendo tendências no comércio internacional para mais regionalismo, cadeias de valor mais curtas e mais diversificação das fontes de insumos. A pergunta é se vamos a um maior regionalismo aberto ou fechado [mais protecionista]. Espero que seja para o primeiro, mas não descarto o segundo. Por causa da guerra na Ucrânia, 18 países adotaram restrições ao comércio de fertilizantes ou grãos, segundo o International Food Policy Research Institute. Segundo a Organização Mundial do Comércio, 15 países já relataram restrição a exportações.
Nosso apelo é para que os países mantenham o comércio aberto. É como as vacinas. Se houver restrições às exportações ou importações, o que ocorre é que as disrupções em nível mundial serão muito piores. Não coloquem restrições ao comércio internacional porque isso faz subir ainda mais os preços
Outro apelo é para que países com grandes reservas de alimentos e petróleo liberem parte desses estoques. Os EUA liberaram parte de suas reservas estratégicas de petróleo. Terceiro ponto é que apoiem os pequenos e médios produtores com fertilizantes e sementes, porque precisamos de uma próxima colheita muito boa, para evitar uma crise mundial.
Valor: Mas muito do fertilizante está na Rússia e há as sanções.
Grynspan: Vocês [Brasil] importam 85% dos fertilizantes, e os fertilizantes não estão sob sanção. Mas é verdade que as sanções prejudicam, pois o sistema de pagamentos [para produtos russos] é um problema. E Rússia e Belarus restringiram exportações. Já a Ucrânia teve a melhor colheita de sua história no ano passado e acumulou grandes estoques para exportar, mas tem o problema logístico.
Valor: Cresce o risco de uma crise do custo de vida?
Grynspan: Sim, se não fizermos algo. Isso pode ser evitado. Primeiro, o que há é uma má distribuição de alimentos, problemas de preço e logístico, mas não há escassez. Segundo, o mundo tem instrumentos nas instituições financeiras internacionais para ajudar os países a ter mais liquidez para poder ajudar as famílias mais pobres, através do Banco Mundial e do FMI com ações de emergência. Isso já foi feito no caso das vacinas, e devemos fazer com os alimentos.
O Banco Mundial tem a capacidade de aumentar seus desembolsos de empréstimos para os países dedicarem uma parte à emergência. Portanto, uma liberação mais imediata e uma mudança de alocação nos empréstimos já aprovados podem ser feitos rapidamente.
Além disso, o FMI tomou a importante decisão de criar o fundo ‘Resilience and Sustainability Trust – RST’, prevista para entrar em operação em outubro. O RST é financiado com os Direitos Especiais de Saque [DES, um ativo internacional emitido pelo Fundo] de países desenvolvidos, que não necessitam deles porque têm moedas de reservas. Há US$ 400 bilhões de DES dos países desenvolvidos que não necessitam deles. A promessa deles [para o RST] está ao redor de US$ 50 bilhões, e precisamos de pelo menos o dobro, US$ 100 bilhões.
Estamos assim estimulando os países desenvolvidos a fornecer mais para esse fundo RST, para apoiar os países em suas necessidades de transformação de suas economias, que é algo bom por unir o curto com o longo prazo.
E o G-20 [grupo das principais economias] precisa tomar medidas sobre instrumentos de reestruturação da dívida. A ONU está pedindo para o G20 reativar a Iniciativa multilateral de Suspensão do Serviço da Dívida por dois anos. Essa iniciativa acabou e os países precisam pagar a dívida na metade deste ano, e não podem pagar. Também é necessário flexibilizar a Estrutura Comum do G20 para o Tratamento da Dívida, para incluir mais países e o setor privado. Os países de renda média estão sofrendo tanto quanto aqueles de renda baixa. E o problema da dívida será mais difícil para os de renda média, porque foram ao mercado e os prêmios estão subindo.
Valor: Ou seja, há muito o que fazer num período de pouca cooperação internacional.
Grynspan: São três coisas: medidas para liquidez, para reestruturação da dívida e não colocar restrições ao comércio de alimentos. Tudo isso é possível. Só requer vontade política. Não se trata de nenhum instrumento novo. Estamos dizendo que os instrumentos que temos, se forem flexíveis, podem atender a emergência. Precisamos pressionar por soluções possíveis, que possam funcionar de imediato para evitar uma crise alimentar e uma crise de dívida.
Valor: Ainda mais que há riscos de instabilidade política?
Grysnpan: Sim, quando vemos nossas análises a correlação entre tensão social, instabilidade social e os índices de preços dos alimentos é enorme. Quando você vê os índices de 2008-09 [na crise financeira global], o índice de preços de alimentos sobe e vemos 40 países com instabilidade social. Hoje em dia, o índice de preços de alimentos está mais alto do que em 2008-09. E já tivemos instabilidade no Sri Lanka, demonstrações no Peru, problemas em vários países da África. Ou seja, isso pode ser muito sério e é muito inquietante. Mas podemos ressaltar que o mundo tem os recursos para evitar [essas crises]. Para a questão humanitária, necessitamos da ajuda dos países ricos. Mas o que estou dizendo é que precisamos de vontade política, porque todos esses recursos já estão no sistema financeiro internacional. Se decidimos não usá-los, estamos decidindo não ajudar as pessoas mais vulneráveis e mais pobres do mundo.
Valor: E sem isso, o risco de grande instabilidade…
Grysnpan: Uma grande instabilidade social, econômica e política. Ninguém quer isso. Isso beneficiaria a quem?
Valor: Qual a percepção na Unctad sobre a duração da crise atual com a guerra?
Grysnpan: Vou dizer uma coisa que é muito dura: todas as crises passam. A questão é com quanto sofrimento humano. Podemos fazer algo para que não seja assim [muito duro]. Senão, os países em desenvolvimento terão outra década perdida. Podemos ter outra década perdida e esse sofrimento é muito grande. Globalmente, já tínhamos problemas. Desde a crise de 2008-09 a economia global nunca recuperou o crescimento que tinha. A crise da pandemia de covid-19 e agora da guerra nos encontrou num momento débil, com menos espaço fiscal, mais dívida e menos crescimento. E vai nos afetar duramente. Os países em desenvolvimento, América Latina incluída, não sairão sozinhos dessa situação. Se não houver uma maior ação a nível internacional não sairemos bem dessas crises. Eticamente, é importante que as organizações internacionais reajam. É porque são problemas globais, não é porque um país se comportou mal. A mudança climática, a pandemia são choques externos que afetam todos os países.
Fonte: Valor Econômico
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