18/04/2022 – Jornalista: JENNE ANDRADE
O temido e volátil ano eleitoral brasileiro começou de forma diferente em 2022. Somente no primeiro trimestre, o Ibovespa acumulou uma alta de 14,5% ? uma subida que pareceu não ser abalada pelos resultados de pesquisas de intenção de voto ou ruídos mais estridentes de Brasília.
Erich Decat, analista de risco político da DKPG, avalia que as eleições só devem realmente causar efeitos a partir de meados de junho. Para o analista de risco político, não se deve descartar que uma terceira via ganhe tração, mas o cenário mais provável continua a ser o de polarização entre Lula (PT) e o atual presidente Jair Bolsonaro (PL).
Quais são os cenários mais plausíveis para as eleições de 2022? Achamos que o cenário eleitoral vai esquentar a partir de junho ou julho. Virada essa página de junho e julho, teremos as convenções. E nessas convenções, teremos definição. Só ali vamos entender o que vem de terceira via. O mercado tem certa expectativa com a terceira via, por mais que ela esteja truncada.
Quem tem mais apelo como opção de terceira via? A expectativa do mercado é com Eduardo Leite. Vencendo o Doria nas convenções (do PSDB, previstas para julho), a minha visão é que o mercado irá abraçar o ex-governador.
Só que o mercado também vai ter em mãos as pesquisas. Se o Eduardo Leite não romper o teto de 12% ou 15%, ele não vai para frente. Porque ele representa o centro, que detém 30% dos eleitores. Se ele não romper essa faixa, significa que os outros 15% foram para outro lado e que ele não irá avançar.
Qual cenário é o mais provável: o avanço de uma terceira via ou a polarização? Ainda acredito que a polarização é o que veremos no final.
Por mais que não possamos descartar a terceira via e o voto do eleitor do centro seja pendular, Lula tem um ponto de partida alto, de cerca de 20%.
Nós nunca podemos subestimar o Lula. Mesmo com ele preso em 2018, e todo movimento do Judiciário, ele colocou Fernando Haddad no segundo turno. No mundo político, a visão é o seguinte: é o Lula e mais um.
E quando falamos das perspectivas do presidente Bolsonaro? Bolsonaro ainda tem muito capital para crescer. As pesquisas de hoje não captaram esse eleitor de centro, porque esse eleitor é silencioso e só vai se posicionar na reta final. Devemos ver um pêndulo, e a tendência é que ele vá para o lado Bolsonaro. Ele tem muitas ferramentas de Orçamento, benefícios que podem ser expandidos nesse semestre e ajudá-lo no segundo turno.
O senhor afirmou em palestra, no Gramado Summit, que Lula ?não assusta mais o mercado?. O que isso quer dizer? Há casas de análise que já colocam Lula como vencedor.
Isso quer dizer que eles estão precificando a vitória do petista. Logo, o Lula não assusta. E, se Lula não assusta, já está entrando no preço.
Tem um ponto importante: não houve ruptura de contrato durante a gestão do Lula. É isso que o investidor tem acompanhado.
Uma reeleição do Bolsonaro assusta os investidores? Há uma grande dúvida sobre o que seria o Bolsonaro 2. Bolsonaro venceu com o Paulo Guedes debaixo do braço dele. Por isso, voltam as dúvidas: qual será a agenda econômica em um segundo mandato? O Paulo Guedes terá qual papel? Isso não está claro.
A percepção é de que o ministro deve seguir com Bolsonaro, mesmo que enfraquecido? A permanência de Paulo Guedes também é uma incógnita.
Com relação a uma possível saída dele, hoje o mercado já não vê como o fim do mundo. Teremos ali um impacto no dia, qualquer decisão que sai de Brasília impacta, mas não será algo como a gente viu na PEC dos Precatórios.
Sem Guedes, qual o apelo Bolsonaro poderia ter com o mercado? Bolsonaro não deixou clara a agenda dele, mas ele ainda conversa muito com a manutenção do teto de gastos.
Por mais que o teto de gastos tenha sido mudado, ele não fala que vai acabar com isso ? como Lula acaba dizendo.
Hoje, o mercado financeiro vê o Bolsonaro como positivo. Não o abraça, mas vê como positivo. Isso porque ele ainda não disse que vai implodir toda a agenda do Paulo Guedes e migrar para o populismo.
Então hoje Bolsonaro está melhor cotado? A vitória do Lula não assusta, devemos ter um impacto no curto prazo e depois uma acomodação. A vitória de Bolsonaro vai ser absorvida de uma forma positiva.
Isso se ele não vier com propostas populistas.
Fonte: O Estado de S.Paulo