Por Dani Rodrik
12/05/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
A era de hiperglobalização pós-1990 é, em geral, considerada encerrada hoje em dia. A pandemia de covid-19 e a guerra da Rússia contra a Ucrânia estão relegando os mercados globais a um papel secundário e, no melhor dos casos, de apoio aos objetivos nacionais – em particular, de saúde pública e segurança nacional. Mas todo o discurso sobre desglobalização não deveria nos cegar para a possibilidade de a crise atual poder de fato gerar uma globalização melhor.
Na verdade, a hiperglobalização vem batendo em retirada desde a crise financeira mundial de 2007-2008. A participação do comércio no PIB mundial começou a diminuir após 2007, à medida que a relação exportação-PIB da China despencou notáveis 16 pontos percentuais. Cadeias de valor globais pararam de se expandir. Fluxos de capitais internacionais nunca se recuperaram aos picos de antes de 2007. E políticos populistas abertamente hostis à globalização se tornaram muito mais influentes nas economias desenvolvidas.
O primeiro passo é consertar danos causados pela hiperglobalização. Isso exigirá ressuscitar o espírito de Bretton Woods, quando a economia global trabalhava para objetivos econômicos e sociais domésticos, em vez do contrário
A hiperglobalização implodiu sob o peso de suas várias contradições. Primeiro, existia uma tensão entre os ganhos da especialização e os ganhos da diversificação produtiva. O princípio da vantagem comparativa mantinha que os países deviam se especializar no que eram bons de fato em fabricar. Mas uma longa linha de pensamento de desenvolvimento sugeria que os governos deviam, em vez disso, forçar as economias nacionais a produzir o mesmo que os países mais ricos. O resultado foi o conflito entre as políticas intervencionistas das economias mais bem-sucedidas, notavelmente a China, e os princípios “liberais” encapsulados no sistema mundial de comércio.
Segundo, a hiperglobalização exacerbou os problemas de distribuição em muitas economias. O outro lado inevitável dos ganhos com o comércio foi a redistribuição de renda de seus perdedores para seus vencedores. Economistas e tecnocratas que fizeram pouco caso da lógica central de sua disciplina acabaram minando a confiança do público.
Terceiro, a hiperglobalização abalou a responsabilidade das autoridades públicas diante de seus eleitorados. Os apelos para reescrever as regras da globalização foram recebidos com a réplica de que a globalização era imutável e irresistível – “o equivalente econômico de uma força da natureza, como o vento ou a água”, como disse o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton. Àqueles que questionavam o sistema predominante, o então primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair respondeu que “a gente também pode discutir se o outono deve vir depois do verão”.
Quarto, a lógica de soma zero de segurança nacional e competição geopolítica era contraditória em relação à lógica de soma positiva da cooperação econômica internacional. Com a ascensão da China como rival geopolítico dos Estados Unidos e a invasão da Ucrânia pela Rússia, a competição estratégica se reafirmou sobre a economia.
Com o colapso da hiperglobalização, os cenários para a economia mundial vão de um extremo a outro. O pior resultado, lembrando a década de 1930, seria o recuo dos países (ou grupos de países) para a autossuficiência. Uma possibilidade menos ruim, mas ainda feia, é a supremacia da geopolítica significar que as guerras comerciais e as sanções econômicas se tornarão uma característica permanente do comércio e das finanças internacionais. O primeiro cenário parece improvável – a economia mundial está mais interdependente e os custos econômicos seriam enormes -, mas com certeza não podemos descartar o segundo.
No entanto, também é possível prever um cenário positivo em que conseguimos um equilíbrio melhor entre as prerrogativas do Estado-nação e as exigências de uma economia aberta. Tal reequilíbrio pode permitir prosperidade inclusiva internamente e paz e segurança no exterior.
O primeiro passo é os formuladores de políticas consertarem os danos causados às economias e sociedades pela hiperglobalização. Isso exigirá ressuscitar o espírito da era Bretton Woods, quando a economia global trabalhava para objetivos econômicos e sociais domésticos – emprego pleno, prosperidade e justiça -, em vez do contrário. Sob a hiperglobalização, os formuladores de políticas inverteram essa lógica, com a economia global se tornando o fim e a sociedade os meios.
Há quem tema que enfatizar a economia interna e objetivos sociais possa enfraquecer a abertura econômica. Na realidade, a prosperidade compartilhada torna as sociedades mais seguras e mais propensas a aceitar a abertura ao mundo. Uma lição fundamental da teoria econômica é que o comércio beneficia um país como um todo, mas somente à medida que os receios distributivos são abordados. É do autointeresse de países bem administrados e bem ordenados a abertura. Essa é a lição também da experiência atual sob o sistema Bretton Woods, quando o comércio e o investimento de longo prazo aumentaram de modo significativo.
Um segundo prerrequisito importante para o cenário positivo é os países não transformarem uma busca legítima por segurança nacional em agressão contra os outros. Pode até ser que a Rússia tivesse preocupações razoáveis quanto à ampliação da Otan, mas sua guerra na Ucrânia é uma resposta completamente desproporcional que provavelmente deixará a Rússia menos segura e menos próspera no longo prazo.
Para as grandes potências, e os EUA em particular, isso significa reconhecer a multipolaridade e abandonar a busca pela supremacia global. Os EUA tendem a considerar a predominância americana nos assuntos globais como o estado natural das coisas. Nesta visão, os avanços econômicos e tecnológicos da China são inerentemente e evidentemente uma ameaça, e a relação bilateral é reduzida a um jogo de soma zero.
Deixando de lado a pergunta sobre se os EUA podem de fato impedir a relativa ascensão da China, este modo de pensar é tanto perigoso quanto contraproducente. Por um lado, ele exacerba o dilema da segurança: É provável que as políticas americanas destinadas a enfraquecer empresas chinesas, como a Huawei, façam com que a China se sinta ameaçada e reaja de maneiras que justifiquem os temores americanos de expansionismo chinês.
Uma perspectiva de soma zero também torna mais difícil colher os ganhos mútuos da colaboração em áreas como mudanças climáticas e saúde pública global, ao mesmo tempo que reconhece que haverá necessariamente concorrência em muitos outros domínios.
Em resumo, nosso mundo futuro não precisa ser um em que a geopolítica atropela todo o resto e em que os países (ou blocos regionais) minimizam suas interações econômicas com os outros. Se esse cenário distópico de fato se concretizar, não será graças a forças sistêmicas fora do nosso controle. Assim como com a hiperglobalização, será porque nós fizemos as escolhas erradas. (Tradução de Fabrício Calado Moreira)
Dani Rodrik, professor de economia política internacional na Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, é presidente da International Economic Association. Copyright: Project Syndicate, 2022.
Fonte: Valor Econômico


