Depois de muitos meses de discussão e hesitação, a Câmara dos Deputados dos EUA finalmente agiu. A votação em Washington para fornecer uma nova ajuda militar de US$ 61 bilhões à Ucrânia poderá ser um ponto de inflexão na guerra com a Rússia. No mínimo, manterá a Ucrânia na luta.
Os russos continuarão na expectativa de que se Donald Trump for eleito presidente em novembro, este possa ser o último grande pacote de ajuda militar americana. Mas mesmo isso poderá não ser fatal para a causa ucraniana. As indústrias militares da Europa estão entrando em ação tardiamente e estarão numa posição melhor para ajudar a Ucrânia em 2025.
A votação para o fornecimento de dinheiro extra para a Ucrânia passou pela Câmara, juntamente com votações separadas que resultarão em uma ajuda substancial para Israel e Taiwan. Juntas, oferecem uma noção clara de como os EUA – e seus aliados na Europa e Ásia – agora vêem o mundo.
Coletivamente, todo esse dinheiro destina-se a uma reação contra países que o general Chris Cavoli, o comandante das forças dos EUA na Europa, descreve como um “eixo de adversários”: Rússia, China, Irã e Coreia do Norte.
A menção de um eixo traz de volta lembranças infelizes de 2002 e do “eixo do mal” de George W Bush, que exagerou nas ligações entre Iraque, Irã e Coreia do Norte. Mas, após 20 anos, há evidências muito mais sólidas de uma cooperação militar séria entre Moscou, Pequim, Teerã e Pyongyang.
Os EUA acusam a China de fornecer à Rússia motores para drones, máquinas para mísseis de cruzeiro e outras formas de ajuda militar. Os regimes de Pyongyang e Teerã tornaram-se fornecedores vitais de armamentos para Moscou. Recentemente, a China também proclamou sua “grande amizade” com a Coreia do Norte e enviou um alto funcionário para conversar com Pyongyang.
Com a aproximação dessas quatro autocracias, as democracias aliadas dos EUA também estão estreitando seus laços. Em Washington, EUA e Japão anunciaram recentemente novos acordos que levarão sua parceria de segurança a um novo nível. A Coreia do Sul também é um grande fornecedor de armas para a Ucrânia.
Na verdade, a “aliança ocidental” é agora uma rede global de aliados que se vê envolvida em uma série de conflitos regionais interligados. A Rússia é o principal adversário na Europa. O Irã é a potência perturbadora do Oriente Médio. A Coreia do Norte é um perigo constante na Ásia. O comportamento e a retórica da China estão mais agressivos e ela pode mobilizar recursos que não estão disponíveis para Moscou ou Teerã.
É claro que continuam existindo distinções importantes entre esses países. Rússia, Irã e Coreia do Norte são tratados como nações párias pelos EUA e seus aliados. Já a China continua sendo um grande parceiro comercial de todos os países do “Ocidente global”.
Mas em Washington e Tóquio o pressuposto atual é de que no longo prazo Xi Jinping está tão determinado quanto Vladimir Putin ou o aiatolá Ali Khamenei a subverter a ordem mundial. Os japoneses, assim como os americanos, acreditam que o que acontece na Ucrânia terá uma influência vital sobre o que acontece no Indo-Pacífico.
Desse modo, os EUA e seus aliados acreditam que estão jogando na defensiva ao apoiarem países que estão na linha de fogo do eixo de adversários – acima de tudo a Ucrânia, Israel e Taiwan.
O reforço da ajuda militar a esses países vem despertando críticas em todo o espectro político. A direita isolacionista dos EUA se opõe com veemência à ajuda à Ucrânia. A esquerda progressista acusa os EUA de apoiarem o “genocídio” de Israel em Gaza.
Mesmo os que apoiam a aspiração de defender a atual estrutura de poder global se preocupam com a estratégia. O falecido Henry Kissinger estava preocupado com a possibilidade do apoio americano à Ucrânia jogar a Rússia nos braços da China. Outros acreditam que os EUA simplesmente carecem de recursos militares e econômicos para liderar a reação contra adversários na Ásia, Europa e Oriente Médio simultaneamente.
Pode haver alguma verdade nisso. Um alto funcionário do governo Biden admite que “estamos no limite no momento”. Mas os americanos e seus aliados também sabem que seus adversários têm dificuldades enormes. A Rússia já sofreu centenas de milhares de baixas em sua guerra com a Ucrânia. A economia chinesa está com problemas. O Irã enfrenta turbulências internas e a Coreia do Norte é um caso perdido com armas nucleares.
Washington também tenta encontrar uma maneira de reforçar a dissuasão sem envolver diretamente os EUA em uma guerra com qualquer um dos adversários do eixo. Na prática, muitas vezes isso já significou fornecer aos aliados na linha de frente nova ajuda militar, ao mesmo tempo em que Washington tentava limitar as ações desses aliados.
Ao longo da guerra na Ucrânia, os EUA vêm tentando desencorajar os ucranianos de atacar profundamente o território russo. Depois que o Irã disparou uma barragem de mísseis contra Israel este mês, os EUA também se movimentaram para impedir uma escalada do conflito.
E mesmo fornecendo apoio político e militar extra a Taiwan, os EUA vêm insistindo que Taiwan não deve provocar Pequim, adotando medidas abertas no sentido de buscar uma independência política formal da China.
Os EUA estão envolvidos em um jogo psicológico potencialmente mortal com seus adversários, empregando força militar de forma seletiva, na esperança de evitar a eclosão de uma guerra mais ampla. A Ucrânia luta pela sua liberdade e independência. Mas também está na linha de frente de um conflito potencialmente muito maior.
fonte: valor econômico
