A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter os juros inalterados, mas sinalizar de forma explícita um corte já na próxima reunião, deixou mais dúvidas do que respostas para o mercado. Na avaliação da chefe de macroeconomia para Brasil da UBS Global Wealth Management, Solange Srour, a ausência de mudanças relevantes no comunicado e de condicionantes no uso do “forward guidance” esvaziou a justificativa para o “não corte” na reunião de ontem e tornou a comunicação mais “dovish” (favorável a juros mais baixos) do que o próprio BC talvez pretendesse – abrindo espaço para uma reprecificação de um ciclo de afrouxamento maior.
Valor: O que achou da decisão?
Solange Srour: Eu achei que ele iria manter os juros parados, mas não que deixaria tão claro que já cortaria na próxima reunião. E, se ele fizesse isso, pensava que poderia dar explicações das condicionantes. Mas com esse texto, minha dúvida é saber o motivo de ele não ter cortado agora Ele não mudou o balanço de riscos; não mudou a projeção de inflação; não mudou quase nada do comunicado. Por que não cortou agora? Quando se usa o ‘forward guidance’ para sinalizar uma decisão futura, é natural colocar condicionantes daqui até a próxima reunião. Tudo o mais constante, se nada mudar, o cenário esperado é começar a cortar, ou seja, não tem uma justificativa no texto para não ter cortado agora. Achei um tanto quanto estranho. O BC pode ter optado por não cortar porque não tinha comunicado isso, mas, na coletiva de dezembro, o [presidente Gabriel] Galípolo falou que a porta não estava fechada, mas o mercado precificava só 25% de chance de corte Mas, se foi por isso, o fato de não haver mudança no texto prejudicou a comunicação.
Valor: O mercado pode considerar a decisão como mais suave?
Srour: Deveria ter uma condicionante no uso do ‘forward guidance’. Sem ela, no fundo, o mercado vai ler o comunicado como mais ‘dovish’ [suave] e acho que a discussão não será entre um corte de 0,25 ponto e outro de 0,50 ponto. Vai ser um corte de 0,5 ponto em março e talvez mais se o câmbio apreciar e isso ajudar as expectativas. Se o Copom tinha a intenção de começar a reduzir os juros tentando moderar a precificação do tamanho do ciclo, o comunicado não ajudou em nada. Claro, pode ser que na ata tragam uma mensagem mais ‘hawkish’ [dura], mas o mercado vai ler a decisão como ‘dovish’.
Valor: O Copom usa o termo ‘serenidade’…
Srour: É uma tentativa de segurar a precificação, mas acho que essa tentativa seria fortalecida se houvesse uma mudança maior no comunicado. Poderia ser algo como “esperamos uma desaceleração maior da atividade” para condicionar o corte. Mas não vimos nada disso. Tem o uso do “ainda” na resiliência do mercado de trabalho, mas será que isso significa que eles esperam que não exista resiliência em algum momento? Um próximo número mais forte de emprego vai mudar o Copom? Acho difícil o mercado ler dessa forma. O BC deixou escancarado que não vai ser um número sozinho que vai mudar o cenário. Não acho que o uso da ‘serenidade’ terá o impacto que a intenção desejava. O ‘forward guidance’ foi usado de uma forma não muito justificada.
Valor: O BC não quis ferir a precificação de mercado?
Srour: O motivo para não ter cortado hoje [ontem] foi esse. Lendo o comunicado, não consigo enxergar nenhum outro motivo para não ter cortado agora, já que o texto pouco mudou. Foi mais a questão de não surpreender o mercado em prol da comunicação, mas, no final, isso feriu a própria comunicação. Ficou estranho justificar o ‘não corte’. O mercado não vai ter base para entender o que faria o BC não cortar.
Valor: Sua expectativa, então, é de que pode haver um ciclo maior de redução de juros?
Srour: O mercado tinha mais ou menos de 2,5 a 3 pontos de corte no preço e vai ler esse comunicado como mais ‘dovish’ e precificar um ciclo maior. Claro que não é só o comunicado. Esses últimos dias de apreciação do câmbio e de fluxo relevante para emergentes – que o mercado entende que vai continuar por mais tempo – ajudam a precificar um ciclo maior. A taxa de juro real está muito alta e contracionista, mas não está claro ainda o quão contracionista ela está. Por mais que a taxa esteja muito alta e a inflação corrente, baixa, a meta não é esperada pelo mercado em nenhum horizonte O BC é mais otimista que o mercado no horizonte relevante; a atividade não está dando sinais de muita folga ou de hiato [do produto, medida de ociosidade] abrindo muito Não acho que seja possível fazer um ciclo muito maior que 2,5 a 3 pontos de corte, mas acho que o mercado vai precificar mais do que isso.
Valor: O Copom indica uma redução do nível de aperto…
Srour: Não temos informação de que a taxa de juros esteja muito contracionista. A economia não está desacelerando tanto quanto era esperado e vários participantes do mercado estão aumentando a projeção de crescimento do PIB e botando a projeção de desemprego mais para baixo Eu preferiria começar o ciclo de cortes com mais cautela. E, talvez, essa cautela venha na ata e a serenidade seja explicada. Mas, aos olhos de hoje, essa palavra parece ter sido colocada na comunicação para tentar segurar a precificação do mercado – o que ficou difícil dada a falta de argumentação do Copom.
Fonte: Valor Econômico

