Os dois terremotos na Turquia nesta semana abalaram os mercados financeiros locais e geraram temores a respeito da frágil economia do país, que já passa por dificuldades com a alta inflação e a dependência do capital estrangeiro.
O Bolsa turca suspendeu ontem as suas operações por cinco dias, até a noite de 14 de fevereiro. O índice de referência Borsa Istanbul 100 caiu 16% nesta semana, e quase metade disso ocorreu ontem, antes de as operações serem interrompidas. A taxa básica de juro do país aumentou cerca de meio ponto porcentual desde os terremotos que atingiram a Turquia e o norte da Síria na segunda-feira.
O número de mortos nos dois países já passa de 12 mil e a contagem ainda não acabou, já que as operações de resgate continuam. O impacto na economia turco deve ser considerável e, dependendo da extensão dos danos, pode abalar a capacidade de reconstrução.
Milhares de edifícios e empresas foram destruídos. Um incêndio queimou centenas de contêineres no porto de Iskenderun.
Economistas e investidores acreditam que o custo de reconstrução pode chegar a dezenas ou até centenas de bilhões de dólares, embora ressalvem que ainda é cedo para ter números precisos. É pouco provável que o governo consiga reunir esses recursos internamente, o que o deixará na dependência de ajuda externa ou de investimento estrangeiro, num momento em que os investidores já estão incomodados com as últimas medidas do governo nas áreas de política econômica e externa.
A Turquia, que é um dos 20 membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental), tem uma economia de cerca de US$ 1 trilhão, a 19º maior do mundo, equivalente em tamanho à da Arábia Saudita ou da Holanda.
A devastação também ocorre num momento crítico para a Turquia, às vésperas das eleições nacionais previstas para o meio do ano, que decidirão o destino do presidente Recep Tayyip Erdogan.
As dez províncias afetadas pelos terremotos são responsáveis por cerca de 15% da produção agrícola da Turquia e 9% de sua produção industrial, de acordo com Liam Peach, economista sênior para mercados emergentes da Capital Economics. Para analistas, turistas estrangeiros podem desistir de viajar para a Turquia, embora a região atingida pelos terremotos esteja distante dos principais centros turísticos no sudoeste do país.
O economista turco Mustafa Sönmez disse que as exportações turcas serão prejudicadas, já que as regiões atingidas pelos terremotos produziam mercadorias para o mercado externo. E que investidores estrangeiros podem cobrar um prêmio maior para contabilizar o aumento do risco, o que provavelmente alimentará a inflação. “A Turquia tem um problema de capital estrangeiro”, disse Sönmez.
A economia da Turquia cresceu de forma robusta desde a pandemia, 5,5% só no ano passado, ritmo que superou de longe outras grandes economias, como EUA e China. Isso foi resultado, em parte, do aumento das exportações, com os fabricantes turcos se beneficiando de uma moeda fraca e dos transtornos nas cadeias de suprimentos asiáticas, assim como da recuperação do setor essencial do turismo.
Apesar disso, a economia turca é extremamente vulnerável a choques e depende muito de fluxos de capital estrangeiro e de reservas cambiais que estão baixas, diz relatório de novembro da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O governo de Ancara tem grandes déficits fiscais e em conta corrente, e o desemprego está em torno de 10%. O déficit em conta corrente pode aumentar enquanto o país reconstrói as áreas atingidas e o crescimento se recupera, o que deve redirecionar a atenção dos investidores para as políticas do governo. O banco central tem irritado investidores estrangeiros nos últimos anos ao cortar as taxas de juros, uma política que o pôs na contramão de quase todos os outros grandes bancos centrais no ano passado, que elevaram suas taxas para conter a alta da inflação.
O apoio financeiro de países do Golfo, como Emirados Árabes Unidos e Catar, ajudou a proteger a Turquia da debandada que atingiu os mercados emergentes no ano passado. Para analistas, o dinheiro que entra no país vindo da Rússia, após as sanções cortarem o acesso de Moscou ao sistema financeiro ocidental, também ajudou a estabilizar a economia turca.
O aumento dos gastos com reconstrução, juntamente com a escassez de oferta, deverá dar força à inflação, que caiu para cerca de 60% em janeiro, em relação a mais de 80% no ano passado. A inflação elevada do país é produto de uma mistura inflamável de políticas econômicas heterodoxas e do aumento dos preços da energia e dos alimentos, desencadeado pela invasão da Ucrânia pela Rússia.
O governo recorreu às reservas internacionais para estabilizar o câmbio nos últimos meses, contendo os custos de importação e a inflação. Mas investidores dizem que essa política é insustentável.
A lira, cujo valor é fortemente regulado pelo banco central, ficou relativamente estável nesta semana, mas perto do mínimo recorde em relação ao dólar. Alguns analistas preveem que a moeda terá que ser desvalorizada para levar em conta os desafios econômicos do país. A Turquia sofreu várias crises cambiais nos últimos anos.
“É preciso um grande ajuste cambial”, provavelmente depois das eleições, disse Timothy Ash, estrategista sênior de mercados emergentes da BlueBay Asset Management, em Londres. O governo turco tem cerca de US$ 125 bilhões em reservas internacionais, mas necessidades de financiamento externo que somam mais ou menos o dobro desse valor, afirmou.
Os investidores externos fugiram dos mercados da Turquia nos últimos anos pois os juros baixos e a inflação corroeram o valor real de seus retornos. Muitos temem ainda que as políticas de Erdogan, incluindo a crença de que juros altos causam inflação, estejam alimentando desequilíbrios que em algum momento forçarão o governo a desvalorizar fortemente a lira.
Dezenas de países prometeram ajuda à Turquia, mas é cedo para dizer como essas promessas se traduzirão em dinheiro.
É improvável que os problemas do sistema financeiro turco se espalhem para outros países. Embora seus setores industrial e de turismo estejam integrados aos de vizinhos europeus, os bancos e investidores europeus se afastaram dos mercados turcos nos últimos anos.
Apesar da queda das ações nesta semana, o índice acionário local ainda tem valorização de 110% nos últimos 12 meses. Investidores locais vêm aplicando em ações para se proteger da inflação alta.
Fonte: Valor Econômico
