Por Anaïs Fernandes – De São Paulo
10/03/2025 05h00 Atualizado há 2 horas
O ano de 2024 viveu uma “tempestade perfeita” para a atividade, que cresceu 3,4% com estímulos fiscais e monetários que não devem se repetir em 2025, diz Fernando
Genta, economista-chefe da XP Asset.
“Historicamente, o modelo do Banco Central, ou o modelo que todo mundo do mercado utiliza, tem o impacto da política monetária na atividade. E eu não tenho uma boa razão para achar que isso mudou”, afirma.
Neste ano, a economia deve desacelerar, mas não colapsar, diz Genta, projetando um PIB entre 1,5% e 2% em 2025. Ainda assim, sua principal dúvida é sobre os estímulos à atividade que podem ser dados pelo governo federal ao longo do ano.
“De um lado, isso pode apertar as condições financeiras, pelo estresse que gera no mercado – e uma parte disso já aconteceu -, de outro, teria um estímulo, um efeito de medidas que a gente já vê sendo anunciadas”, afirma.
Embora a queda de 1% no consumo das famílias no quarto trimestre, ante o terceiro, tenha sido um dos destaques do PIB no período – que subiu 0,2% no total -, ela não surpreendeu a XP Asset, que já esperava uma contração. Mais surpreendentes, diz Genta, foram os desempenhos aquém do esperado da Formação Bruta de Capital Fixo (medida para os investimentos no PIB), que avançou 0,4%, e da agropecuária, que teve retração de 2,3%.
Ao Valor Genta diz que o Banco Central, provavelmente, foi surpreendido pelo PIB do quarto trimestre, mas a autoridade monetária precisa se guiar por suas projeções de inflação e pelas expectativas. Nesse cenário, a XP Asset vê a Selic indo a 15% ao fim deste ciclo e sem espaço para cortes até 12,5% no fim do ano que vem, como indica a mediana das projeções de mercado no boletim Focus.
“A gente não vê espaço para o BC anunciar isso. Então, mesmo essa pausa seria uma pausa bem desconfortável, pois as expectativas de inflação estariam desancoradas”, afirma Genta.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
Valor: O que surpreendeu mais vocês no resultado do PIB do quarto trimestre de 2024?
Fernando Genta: A queda no consumo das famílias foi um destaque, mas nós já tínhamos previsão de retração. O IBGE não divulga a abertura do consumo, mas, tentando replicar sua metodologia, estávamos com queda de 0,8%, com foco em serviços. Do lado da demanda, mais do que o consumo das famílias, fomos surpreendidos com o investimento, que foi um pouco mais fraco do que a gente tinha, mesmo com a construção civil indo bem. Tivemos surpresa para baixo também na indústria de transformação, em relação ao que a gente projetava, e isso, possivelmente, pode ter gerado essa diferença em investimentos. Mas o que foi mesmo uma grande surpresa, no número agregado, foi a queda na agricultura. Vimos que safras importantes no quarto trimestre tiveram uma queda grande, não só na produção, mas na produtividade, porque a produção caiu muito mais do que a área plantada.
Valor: Qual o balanço que fazem da economia em 2024?
Genta: Foi um ano de atividade forte, com uma política fiscal ainda expansionista, potencializada pela questão dos precatórios. A política fiscal se destaca não só pelo governo federal, mas também pelos governos locais, Estados e municípios. O consumo das famílias foi potencializado tanto pelo fiscal quanto por um expansionismo monetário, já que a gente vinha de um ciclo de corte de juros, mesmo considerando que a Selic ainda estava em ritmo restritivo. Quando você afrouxa a política monetária, gera um escape para a atividade. Teve todo o ruído no fim de 2024, mas foi um ano forte de investimentos, parte disso vindo de uma construção civil forte, parte de máquinas e equipamentos, com uma importância grande de caminhões, que passaram por mudança na regulação. O investimento em máquinas em 2023 caiu 9% e subiu 9,7% em 2024, então, a gente teve também uma devolução da “ressaca” de 2023.
Valor: A desaceleração do PIB no quarto trimestre de 2024 diz algo sobre 2025?
Genta: Quando a surpresa vem de um fator pontual, que não gera um carregamento [estatístico], como o PIB agro em um ano de produtividade ruim de algumas safras, é pouco informativo do que esperar para o ano que vem. Essa surpresa afeta menos a nossa projeção do que se fosse um desvio na produção industrial ou no consumo das famílias. Foi um desvio relevante de quase meio ponto percentual, na série dessazonalizada, para o que a gente tinha, mas impacta pouco o nosso cenário para 2025.
Valor: E que cenário é esse?
Genta: A gente não vai crescer no ritmo de 2024. Em 2024, vimos acontecer uma “tempestade perfeita”, os juros foram cortados desde 2023 até meados de 2024 e isso estimulou a atividade, junto com o fiscal expansionista. Não vamos ter isso agora. Para 2025, a gente espera uma desaceleração relevante, com um PIB caminhando para a casa de 1,5%, em função tanto do aperto das condições financeiras quanto de um estímulo fiscal menor da União. Tem também uma acomodação de algumas séries que tiveram devolução, como a questão dos investimentos que eu mencionei. Em 2025, meio que já zerou a queda [de 2023]. A gente vê uma economia desacelerando, mas não em colapso. Temos o PIB do primeiro trimestre crescendo 1% na margem. No ano, deve ser algo entre 1,5% e 2%, nesse intervalo. A nossa dúvida está na questão dos estímulos que podem ser dados pelo governo federal ao longo do ano. De um lado, isso pode apertar as condições financeiras, pelo estresse que gera no mercado – e uma parte disso já aconteceu -, de outro, teria um estímulo [à atividade], um efeito de medidas que a gente já vê sendo anunciadas.
Valor: Como fica o Banco Central nesse contexto?
Genta: O Banco Central tem de se guiar pelas suas projeções de inflação e pelas expectativas. Certamente, o BC também foi surpreendido pelo PIB do quarto trimestre. Agora, a gente precisa ver qual vai ser o impacto dessa surpresa no cenário do BC de curto prazo e na sua estimativa de hiato do produto, que é a principal variável para a projeção de inflação dele. Eu acredito que ele já tinha esse enfraquecimento do consumo pontual para os trimestres. Então, eu acho que muda muito pouco. O nosso cenário para Selic é de uma alta de 1 ponto percentual (p.p.), depois mais 0,5 p.p. e 0,25 p.p., chegando a 15%. Mas é um 15% acompanhado de uma comunicação de “high for long” [juro alto por tempo longo]. Seria uma pausa destacando que não haveria espaço para os cortes no ritmo que o Focus projeta. O Focus coloca uma Selic de 12,5% no fim do ano que vem. A gente não vê espaço para o BC anunciar isso. Então, mesmo essa pausa seria uma pausa bem desconfortável, pois as expectativas de inflação estariam desancoradas.
Valor: Como vê o balanço de riscos para as projeções de atividade em 2025?
Genta: Historicamente, o modelo do Banco Central, ou o modelo que todo mundo do mercado utiliza, tem o impacto da política monetária na atividade. E eu não tenho uma boa razão para achar que isso mudou. Eu acho que a resiliência da atividade, em relação aos juros mais altos, decorre, em parte, do patamar de despesas. Hoje, a gente tem um gasto bem mais alto. Olhando para o estrutural, vimos o quanto o gasto público – de novo, não só federal, mas também de Estados e municípios – cresceu de 2019 para cá. Quando a gente olha para o cenário externo, a gente pode ter um risco baixista [para o PIB do Brasil]. Quando a gente olha para o cenário doméstico, podemos ter novas medidas fiscais do governo, à revelia do Ministério da Fazenda, que, está claro, tem posição contrária a isso. O governo pode acelerar o anúncio de novas medidas, caso haja um estresse com a questão da popularidade. Esse não é o nosso cenário básico, por isso ainda é um risco. Então, vemos os riscos como equilibrados.
Fonte: Valor Econômico
