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A curva de juros americana sofreu uma inclinação ontem, à medida que o mercado precifica um cenário de vitória confortável do Partido Republicano nas eleições presidenciais e legislativas de novembro nos Estados Unidos. O mau desempenho do democrata Joe Biden no primeiro debate contra seu adversário Donald Trump e a vantagem dos republicanos em pesquisas eleitorais fez com que importantes bancos passassem a apostar no aumento dos rendimentos de Treasuries de longo prazo diante de perspectivas piores para a inflação e o déficit fiscal dos Estados Unidos.
A taxa da T-note de 10 anos subiu a 4,467%, de 4,402% no fechamento anterior, e a do T-bond de 30 anos avançou de 4,566% a 4,632%, ambas em seus maiores níveis de fechamento desde 31 de maio. O estresse na ponta longa ocorreu a despeito de um movimento comportado nos Treasuries de curto prazo. O rendimento da T-note de 2 anos exibiu leve queda de 4,768% a 4,756% no fim da sessão.
Apesar do estresse nos Treasuries, as bolsas de Nova York conseguiram se segurar em território positivo, sob apoio de ações do setor de tecnologia. O índice Dow Jones teve alta modesta de 0,13%, o S&P 500 subiu 0,27% e o Nasdaq avançou 0,83%.
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O principal temor do mercado em relação às eleições americanas é que os partidos Democrata ou Republicano consigam, além da presidência, o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado. Tal resultado criaria um cenário sem travas para a agenda de maior gastos do presidente Joe Biden ou de isenções fiscais e protecionismo defendida por Donald Trump. Em ambos os casos, é esperado uma deterioração fiscal mais acentuada nos Estados Unidos, enquanto as políticas de Trump ainda poderiam trazer uma reaceleração da inflação por meio de tarifas comerciais.
“A possibilidade crescente de uma vitória ampla dos republicanos levaria a uma reavaliação das perspectivas de políticas fiscais, comerciais e de imigração na direção de taxas mais altas. Outros cenários seriam neutros ou otimistas para o longo prazo”, diz o time de estrategistas de renda fixa do Barclays em relatório.
Em suas últimas projeções, o Escritório de Orçamento do Congresso americano (CBO) projetou um déficit fiscal de US$ 2 trilhões nos Estados Unidos no fim de 2024, com crescimento da dívida a US$ 2,8 trilhões (ou 122% do PIB) até 2034. Segundo o Barclays, a estimativa, embora alarmante, ainda parece muito otimista, já que assume o término completo das isenções fiscais de Trump e um relaxamento agressivo da política monetária pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano). “De modo geral, vemos poucos motivos para mudar nossa opinião de que os rendimentos em toda a curva estão muito baixos e mantemos nosso viés de ‘duration’ curto”, concluem os estrategistas do Barclays.
“Após termos adotado uma postura neutra em relação à curva de juros dos Estados Unidos durante grande parte do ano passado, acreditamos que agora é o momento de apostar na inclinação da curva de Treasuries”, avalia o time de estrategistas do Morgan Stanley. “O aumento dos riscos e da incerteza durante a temporada eleitoral, juntamente com os cortes de juros do Federal Reserve (Fed), devem ajudar a curva a se inclinar de forma definitiva e convincente”.
A curva de rendimentos dos Treasuries está invertida desde julho de 2022, maior período da história. Para o Morgan Stanley, a possibilidade de uma vitória republicana tanto no Executivo quanto no Legislativo deve alterar a perspectiva do mercado. “A principal questão é que o mercado agora tem que lidar com o aumento das probabilidades de mudanças nas políticas de imigração e tarifas em uma economia em que o crescimento já está esfriando, tornando o mercado mais propenso a precificar mais cortes de juros. Por outro lado, as perspectivas maiores de uma vitória dos republicanos em meio ao foco crescente no déficit poderiam pressionar para cima os prêmios de longo prazo”, diz o relatório.
Alec Phillips e Tim Krupa, do Goldman Sachs, ponderam em nota que a “vitória” de Trump no primeiro debate não ocasionou uma mudança muito grande nas previsões para as eleições do Congresso americano. Desta forma, a expectativa sobre eventuais mudanças políticas sob uma nova gestão de Trump penderia mais para ações executivas – em assuntos como tarifas comerciais, imigração e regulação – e menos para áreas que precisam de aprovação do Legislativo, como a política fiscal.
“A exceção a isso é a diminuição do risco de aumento de impostos para empresas e pessoas físicas de alta renda em qualquer cenário que não seja o de uma ‘varrida’ dos democratas, cuja probabilidade diminuiu”.
Fonte: Valor Econômico

