O destino do dólar – como o de muitas outras coisas – depende do resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos em novembro. Sobre isso, todos concordam. O que simplesmente nem todos concordam é sobre o sentido de uma eventual mudança no câmbio americano.
A implicação de uma vitória dos democratas é relativamente óbvia. O dólar manteve-se forte nos últimos anos porque o presidente Joe Biden defendeu uma forte dose de estímulo fiscal, ao mesmo tempo que liberou o Federal Reserve (Fed, banco central americano) para aumentar as taxas de juros em resposta à inflação. Essa mistura de política fiscal flexível e política monetária restritiva resultou numa moeda forte, como preveem os manuais.
Mas com o déficit orçamentário já elevado e a dívida pública subindo para níveis que muitos americanos acham alarmantes, uma reeleição de Biden – ou uma vitória de um substituto dos democratas se ele desistir da candidatura após o debate da semana passada – teria menos espaço fiscal para manobras.
Enquanto isso, o Fed seria capaz de reduzir sua taxa básica de juro à medida que a inflação recua ainda mais, como supostamente acontecerá. Assim, a combinação de políticas seria muito menos favorável ao dólar em um segundo mandato de Biden. Isso de forma alguma sugere uma crise do dólar, mas é um cenário que poderia resultar na moeda americana um pouco mais fraca.
Finalmente, o governo Biden tem tido o cuidado de cooperar com os aliados ao impor sanções financeiras à Rússia. Consequentemente, a transformação do dólar em arma não levou a uma diversificação generalizada de reservas que pudesse enfraquecer a moeda. A cooperação significa que outros países potencialmente alvos de sanções não tiveram para onde ir.
As consequências cambiais de um segundo mandato de Donald Trump são mais difíceis de serem previstas. É tentador extrapolar a partir do passado, como uma equipe de analistas do Citigroup fez anteriormente este ano. Eles observam que o dólar teve uma valorização de cerca de 5% depois da vitória surpreendente de Trump nas eleições de 2016. Ele caiu em medida parecida por volta de sua derrota nas eleições de 2020. Com base nesses fundamentos, é tentador pensar que uma vitória de Trump em 2024 voltaria a resultar no dólar mais forte.
De fato, Trump pode muito bem estar planejando cortar os impostos para as empresas e os ricos. É menos provável que ele critique dívidas e déficits quando ele os cria. E já vimos que uma política fiscal expansionista pode beneficiar o dólar.
Da mesma forma, novas tarifas às importações, apesar de seus custos, provavelmente também ajudariam o dólar. As tarifas tornam as importações mais caras. Elas induzem os consumidores a mudar seus gastos para produtos nacionais, elevando também seus preços.
O Fed está apto a responder à inflação resultante aumentando novamente as taxas de juros, o que fortaleceria o dólar. Uma taxa de câmbio do dólar mais forte faria recuar os preços dos produtos importados, pelo menos em parte, ajudando o banco central a alcançar seu objetivo de reduzir a inflação.
Mas também podemos imaginar outros cenários. Como um homem que se declara favorável aos juros baixos, Trump poderia pressionar o Fed a não responder dessa maneira. O resultado, uma inflação sustentada, seria negativo para o dólar. Os assessores de Trump já sugeriram mudar a posição legal, o mandato ou os procedimentos do Fed para exigir que ele consulte ou até mesmo siga ordens diretas do presidente.
Em todo caso, em maio de 2026, Trump, como presidente, teria a opção simples de nomear um presidente do Fed mais complacente. Ele supostamente faria isso, tendo aprendido com o que ele descreve como seu “erro” ao escolher Jerome Powell, que foi empossado em 2018.
Além disso, correm rumores de que assessores influentes de Trump estão conspirando para um dólar mais fraco. Eles viram como a força da moeda compensou o impacto sobre a balança comercial das tarifas impostas no primeiro mandato de Trump. Eles parecem empenhados em evitar que o mesmo aconteça novamente.
É provável que eles defendam sanções adicionais contra países que não impedem suas moedas de cair em relação ao dólar. Eles podem apontar para o Acordo do Plaza de 1985 como exemplo de como os governos estrangeiros podem ser pressionados pelos EUA a adotar políticas de fortalecimento da taxa de câmbio. Outra ideia seria um imposto sobre as compras estrangeiras de ativos dos EUA para evitar que esses investimentos estrangeiros apoiem o dólar em níveis mais altos.
É questionável se essas medidas duvidosas alcançariam de fato seu objetivo de reforçar a posição competitiva da indústria transformadora dos EUA. Um imposto sobre o capital estrangeiro que desencoraje os investimentos nos EUA não contribuiria para uma economia americana mais competitiva. Ameaçar países com mais tarifas se suas moedas não caírem, pode ter apenas o efeito indesejado de fortalecer ainda mais o dólar. Mas, discutíveis ou não, essas medidas não podem ser descartadas.
Barry Eichengreen é professor de economia e ciência política na Universidade da Califórnia em Berkeley
Fonte: Valor Econômico

