Por Edward Luce — Financial Times
20/07/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
É fácil esquecer que logo no começo do mandato Joe Biden fez um aceno a Vladimir Putin, tentando construir pontes. Durante a campanha eleitoral de 2020, Biden mal mencionou a Rússia como um rival geopolítico dos EUA. A China monopolizou todas as atenções. Em junho de 2021, na reunião de cúpula em Genebra com seu homólogo russo, o presidente dos EUA se empenhou em massagear o ego de Putin, chegando a chamar a Rússia de grande potência.
Poucas semanas depois, Biden retirou as forças dos EUA que ainda restavam no Afeganistão, uma debacle que ameaçou definir sua Presidência.
Olhando em retrospecto, fica claro que os dois eventos aparentemente não relacionados – o tom positivo de Biden sobre a Rússia e a saída do Afeganistão – reforçaram a decisão de Putin de invadir a Ucrânia. Na visão dele, o Ocidente provavelmente não reagiria de forma muito mais incisiva a seu plano de anexar a Ucrânia do que reagiu à tomada da Crimeia em 2014.
Mal-entendidos deste tipo têm caracterizado a geopolítica ao longo dos tempos.
Neste caso, as consequências do erro crasso da Rússia na Ucrânia – e a inesperada resposta unificada do Ocidente – provavelmente terão repercussões por anos, se não décadas. Passados 16 meses da “operação militar especial” da Rússia, o mundo corre o maior risco de conflito entre grandes potências desde a época da Guerra Fria em seus momentos mais perigosos.
A discussão sobre ressuscitar a ordem internacional liberal – uma condição de “ser global” que nunca foi exatamente o que os nostálgicos por ela afirmam ter sido – soa cada vez mais quixotesca. O mundo está entrando em um novo tipo de rivalidade entre grandes potências. Mas as comparações com a situação anterior de rivalidade, do século 19, são, na melhor das hipóteses, enganosas. Aquela longa era da chamada “Pax Britannica” terminou na tragédia da 1ª Guerra Mundial. O mundo de hoje não pode se dar o luxo de um conflito direto entre EUA e China, os dois gigantes concorrentes.
O desafio enfrentado pelos EUA e seus aliados ocidentais é triplo.
O primeiro é manter a unidade do Ocidente contra Putin. Isso fica mais evidente com as eleições nos EUA em 2024. Trata-se de uma eleição presidencial americana excepcional, cujos possíveis resultados muito divergentes para a situação do mundo. Se Biden for reeleito, pode-se esperar alguma continuidade na política externa dos EUA até 2028. Se Donald Trump, provável candidato republicano, retornar ao poder em 2025, isso poderia destruir a unidade ocidental.
Trump prometeu encerrar a guerra na Ucrânia em 24 horas após retomar o cargo. Só essa perspectiva já é motivação suficiente para Putin sustentar sua guerra na Ucrânia pelos próximos 18 meses na esperança de que Trump venha em seu socorro.
É quase impossível para os aliados europeus dos EUA prepararem algum tipo de proteção preventiva contra o espectro dessa possibilidade. O destino deles – e da Ucrânia – está nas mãos dos eleitores americanos.
O segundo desafio para o Ocidente é formar uma frente comum em relação à China sem que isso resulte em confronto direto. Ao contrário da guerra na Ucrânia, que eventualmente precisará chegar a alguma forma de conclusão caótica, a rivalidade entre EUA e China é um projeto sem fim. Para os propósitos dos responsáveis por planejamentos estratégicos, essa rivalidade não oferece a opção de uma conclusão natural.
Aqui é onde a história deixa de oferecer muita orientação. A não ser que aconteça um armagedon, não há cenário em que EUA ou China possam emergir como única potência hegemônica mundial.
Isso apresenta um desafio novo para o Ocidente, que só aprendeu sobre conflitos maniqueístas que resultam em uma das partes reivindicando vitória. Será necessário uma paciência e habilidade estratégica incomuns. Parafraseando Deng Xiaoping, ex-líder supremo da China, o Ocidente precisará atravessar o rio sentindo as pedras, só que a margem do outro lado nunca estará totalmente visível.
Neste ano, o presidente das China, Xi Jinping, acusou os EUA de tentarem “suprimir, conter e cercar” a China. Biden insiste em dizer que seu objetivo é cooperar com Pequim quando possível, competir quando necessário e confrontar se não lhe restar outra escolha.
Gerenciar a ameaça da China é um desafio colossal. É evidente que uma vitória de Trump em 2024 poderia desestabilizar o equilíbrio EUA-China de Biden.
O terceiro desafio do Ocidente é encontrar soluções para as ameaças existenciais enfrentadas pela humanidade, a começar pelo aquecimento climático mundial. Mesmo sem a vingança da geopolítica, isso seria uma ladeira bem íngreme a subir. Com a guerra na Ucrânia e a tensão cada vez maior com a China a situação se torna muitíssimo mais complicada.
O Sul Global é uma região-chave de competição entre os EUA e a China por influência. Também é a principal vítima das consequências da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. A inflação nos preços de energia e dos alimentos desencadeada pela guerra e as sanções subsequentes do Ocidente à Rússia se combinaram com o aumento das taxas básicas de juros dos EUA para levar o Sul Global à beira de uma nova crise da dívida.
Somados, esses desafios podem parecer insuperáveis. No entanto, o Ocidente pode se sair bem se fizer o certo. Quanto mais ajuda puder oferecer ao Sul Global – na forma de financiamento para as energias verdes, alívio das dívidas e resistência à pandemia -, melhor o Ocidente se sairá no cenário geopolítico.
O chamado “novo grande jogo” com a China é uma competição de soma zero. A melhor maneira de limitar a influência da China é o Ocidente oferecer soluções para os problemas cada vez maiores enfrentados pelo restante do mundo. No papel, o caminho a seguir parece óbvio. Na prática, será que o Ocidente conseguirá segui-lo?
Fonte: Valor Econômico
