Por Adriana Cotias — De São Paulo
19/09/2023 05h03 Atualizado há 6 horas
Com o equivalente a US$ 300 bilhões em recursos de milionários, o suíço Lombard Odier pretende fazer do Brasil um mercado relevante. Isso significa atingir, numa primeira etapa, ao menos 1% a 2% do volume que tem sob seu guarda-chuva globalmente. “Está perto, mas dá para ser ainda mais relevante”, diz Marc Braendlin, chefe para América Latina do grupo que se posiciona como uma butique de gestão de riqueza independente, sem vínculo com corretoras ou bancos.
Se em 2022 o investidor saiu machucado nas alocações que mantinha no exterior, 2023 mostra uma dinâmica diferente, e a captação líquida tem sido uma das melhores dos últimos anos. “Tem mais interesse do brasileiro de aplicar recursos lá fora, diversificar, e muita demanda de cliente em geral pela gestão profissional”, prossegue.
A Lombard Odier pavimentou o caminho para ter um escritório local na virada de 2021 para 2022, quando os juros estavam no chão, a 2% ao ano, sob os efeitos da pandemia. Havia um fluxo crescente para classes alternativas em diferentes moedas e geografias.
Só que, na esteira da guerra entre Rússia e Ucrânia e uma espiral inflacionária global que forçou os bancos centrais a inverterem a rota monetária, nem bolsa nem renda fixa trouxeram frutos. No Brasil, ainda houve eleições para completar o caldeirão de incertezas – e de volatilidade. O velho CDI voltou a ser rei com a Selic chegando ao pico de 13,75% em agosto de 2022, só começando a cair no mês passado, em 0,50 ponto percentual.
“Isso nos ajuda e o que não mudou é o interesse estratégico em Brasil, o principal mercado para nós na América Latina”, diz Braendlin. “A gente quer crescer e estar fortemente com uma equipe local. A gente tem respeito pelos competidores, mas não tem medo no sentido de achar que a Lombard tem uma oferta boa, interessante.”
No início do ano, a Lombard Odier nomeou para o comando local o ex-Julius Baer Rogério Zanin, que foi do grupo original da GPS, e que na junção com a Reliance (ambas operações adquiridas pelo rival suíço) passou a ser uma das lideranças do Julius Baer Family Office no Brasil, integrando o comitê executivo. De lá também veio Juliana Lage, para assumir como chefe de operações.
“Os mercados emergentes são importantes, têm a sua função tática, mas o propósito da diversificação global em mercados desenvolvidos mostra ser hoje muito mais atrativo do que anos atrás, quando as taxas de juros reais eram negativas. Agora, o mundo desenvolvido, os EUA, a Europa têm juros altos e inflação cedendo”, diz Zanin.
Se aqui o investidor consegue retorno de IPCA mais 5,3% a 5,7% ao ano numa NTN-B, lá fora é possível capturar rentabilidade de dólar mais 5% ao ano, compara Zanin. “E o câmbio ficou mais interessante para construir uma posição internacional. O brasileiro é muito sensível a isso, qualquer variação de um ponto para cima ou para baixo tem um efeito psicológico.”
A escassez de eventos de liquidez que tradicionalmente engordam o bolo de fortunas das famílias, como ofertas secundárias de ações ou operações de fusões e aquisições de empresas, não enfraquece o plano da Lombard para a operação local, prossegue Zanin. “Quando se fala em investimentos internacionais tem uma avenida grande para explorar, porque muitas famílias sequer têm exposição fora do Brasil, nesse campo a concorrência é menor.”
Braendlin reitera que o forte crescimento que observa neste ano não vem de novos movimentos de geração de riqueza, mas de ativos que os investidores tinham em outras partes. “O cliente brasileiro tem bons bancos que se ocupam deles, mas a tendência é que [as instituições] foquem em seus mercados principais”, diz. “No Brasil, acho que vai ter consolidação de mercado. Tem várias casas que não têm tamanho crítico para sobreviver no futuro.” A estratégia da Lombard Odier é, contudo, crescer pela via orgânica, contratando pessoas que ao longo de sua trajetória construíram relacionamentos.
A chegada de Zanin, que acumulou 13 anos entre GPS e Julius Baer, é um desses exemplos. “Há todo um repertório para capturar tendências pouco exploradas pelos investidores brasileiros, como a transição energética que o mundo está vivendo e como aloca capital e aproveita a tendência da classe com retornos interessantes”, diz o diretor local da Lombard Odier. Até o fim do ano, a casa deve somar mais quatro contratações às seis já realizadas até aqui de executivos seniores na frente comercial.
O executivo vê o movimento de grandes competidores na direção de uma oferta de investimentos internacionais como positivo, uma forma de desmitificar a diversificação de moedas e geografias independentemente da faixa patrimonial. Exemplos dessa tendência foram a compra da Avenue, corretora criada por brasileiros nos EUA, pelo Itaú e o Bradesco inaugurando sua plataforma internacional a partir da compra do BAC Florida. “Quanto mais bem informado o cliente final estiver, não importa o tamanho, melhor para ele e para os prestadores de serviços. Aquela internacionalização que estava restrita ao topo da pirâmide começa a descer.”
Fonte: Valor Econômico