O ciclo de aumento de juros no Brasil e a alta do dólar, cuja instabilidade se agravou diante das incertezas geradas pelo “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vão levar a um recrudescimento das dificuldades financeiras das empresas neste ano. Relatório do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras da Fipe (Cefeb-Fipe) mostra que, com a taxa de câmbio a R$ 5,90, somente 40% das empresas terão lucratividade suficiente para fazer frente a suas dívidas. Para efeito de comparação, no terceiro trimestre do ano passado essa fatia correspondia a 61%.
A projeção do Cefeb-Fipe considera a taxa de retorno do capital total investido (ROIC) e o nível de endividamento informado nas demonstrações financeiras das empresas abertas no terceiro trimestre de 2024. Carlos Antonio Rocca, coordenador da instituição, afirma que a alternativa de se refinanciar por meio do mercado de capitais amenizaria o quadro negativo, mas, justamente por causa dos altos juros, ela está menos em pauta. Ele destaca, porém, que, dependendo do desenrolar das negociações comerciais com o governo Trump, o comportamento de juros e câmbio pode mudar significativamente. “Com as fortes elevações de tarifas por Trump, China e União Europeia podem escoar o excesso de produção no resto do mundo, o que levaria a um impacto no câmbio. Por outro lado, os preços dos importados podem causar uma pressão deflacionária, o que implicaria vantagem no esforço brasileiro. Tudo ainda é prematuro.”
Segundo o estudo do Cefeb, com base na relação histórica com a Selic, o chamado impulso de crédito – diferença entre novas concessões e resgates de crédito bancário e mercado de dívida – para os 12 meses encerrados em setembro de 2025 será negativo em 0,16% do PIB. Em setembro de 2023, em meio à crise gerada pela fraude no balanço da Americanas, o indicador foi de -0,11%. A projeção é que o saldo de crédito bancário, que conforme dados do Banco Central (BC) cresceu 9,9% em 2024, deve desacelerar para avanço de 7,2% neste ano.
As empresas mais atingidas nesse cenário serão especialmente as menor porte. Rocca diz que os índices de inadimplência já vêm crescendo, depois de apresentarem tendência de queda em 2024. Devem subir de 2,51% em dezembro do ano passado para 3,77% em setembro deste ano, assim como os pedidos de recuperação judicial (RJ).
A recuperação judicial cresce aceleradamente entre as empresas menores. O crescimento anual no número de micro e pequenas empresas nessa situação chegou a 44,7% no último trimestre de 2024 – superior ao das médias (24,4%), enquanto nas grandes a taxa é negativa (-17,1%).
O coordenador do Cefeb destaca ainda que haverá forte elevação do custo da dívida das empresas de médio e grande portes – de uma média de 15,5%, em setembro de 2024, para 19,3% no mesmo mês deste ano. Para as companhias médias e pequenas, que têm acesso mais difícil ao mercado de capitais e percepção de maior risco de crédito, o cenário tem deterioração ainda maior: o custo para levantar recursos estará, em setembro deste ano, em 21,73% ao ano, ou 4,66 pontos percentuais acima do cobrado das grandes.
Agrava ainda o quadro o fato de que o mercado acionário brasileiro vem de um longo período de fraqueza, e 2025 possivelmente será o quarto ano sem ofertas de abertura de capital na bolsa. Ou seja, menos uma opção de captação de recursos a custo mais baixo. Rocca explica que as dívidas de empresas no mercado doméstico com bancos correspondem a 21,1% do PIB e, com o mercado de capitais, a 17,6%, em dezembro de 2024.
Caso o dólar se enfraqueça e volte a R$ 5,70, ele ressalta que o cenário no terceiro trimestre deste ano será menos negativo em relação ao de câmbio a R$ 5,90 (em que somente 40% das empresas teriam lucratividade suficiente para pagar suas dívidas). O percentual com lucratividade suficiente para cobrir seu custo de dívida incluiria 51% das empresas.
Na falta de um mercado de capitais pujante, companhias serão empurradas a renegociar para comprar tempo”
No escritórios de advocacia e consultoria especializados em reestruturar dívidas, o movimento em busca de assessoria continua forte. Ricardo Knoepfelmacher, da RK Partners, que tem histórico de atuação em grandes recuperações, lembra que, com a Selic perto de 15%, o custo do dinheiro está em 20% ao ano até para as empresas grandes. “Mesmo com o tarifaço de Trump continuaremos tendo juros altos, já que temos desafios em relação à política fiscal e às pressões inflacionárias que ela gera. Mais empresas vão ter dificuldades.”
Giuliano Colombo, sócio da área de reestruturação do escritório Pinheiro Neto Advogados, reforça que é muito difícil que empresas gerem resultado suficiente para pagar dívidas e investir para incrementar sua atividade. “O ciclo virtuoso de consumo, produção e renda está travado. Na falta de um mercado de capitais mais pujante, as companhias serão empurradas a algum tipo de renegociação para comprar tempo, no mínimo, até que juros voltem a cair. As linhas de crédito dependem de garantias e nem todas as empresas têm boas para oferecer, o que torna transação ainda mais cara. A grande maioria não vai poder esperar.”
De acordo com ele, isso inclui negociar com credores em busca de carência de pagamento de juros ou maior prazo de vencimento e, em casos mais agudos, recorrer a uma recuperação judicial. Geralmente a alternativa é usada quando é preciso proteger ativos de credores, receber injeção de dinheiro novo ou se desfazer de ativos, o que, comenta Colombo, geralmente fica mais fácil no ambiente judicial. “Temos sido muito consultados, desde empresas médias a grandes, sobre opções estratégicas num cenário como esse de juros e câmbio altos, uma conjunção de fatores difíceis.”
Knoepfelmacher destaca o aumento no número de processos de recuperação extrajudicial, o que vem fazendo com que os índices de recuperação judicial deixem de refletir a realidade em sua totalidade. “A recuperação extrajudicial é mais rápida e barata quando o número de credores é limitado. A RJ é muito cara e os processos estão cada vez mais circunscritos às grandes.”
Ele também ressalta que os bancos estão mais preparados, depois do caso Americanas. “Nosso mercado de crédito é muito concentrado em bancos, e todos criaram suas áreas de reestruturação. Isso ajuda em negociações bilaterais.” Além disso, acrescenta, as instituições estão com alto índice de lucratividade, espaço para provisionar recursos e grandes riscos mapeados.” Ele explica que uma RJ chega entre 10% e 20% do valor da dívida, enquanto uma extrajudicial fica em 3% a 6%.
Segundo Gabriela Martines, sócia na área de reestruturação de empresas de TozziniFreire Advogados, as empresas chegam estranguladas ao escritório, mas está aumentando o número das que adotam medidas logo que percebem dificuldades. Diversos instrumentos vêm sendo utilizados, como medidas cautelares focando em determinado grupo de credores. “Antes só as grandes empresas usavam, mas agora as menores já buscam esses mecanismos. Estamos também atendendo mais credores que se antecipam e abrem negociação.”
Fonte: Valor Econômico