O mercado de juros teve uma rodada importante de alívio nos últimos dias, com as taxas de médio prazo — que, no início do ano, se aproximavam de 16% — chegando a patamares abaixo de 13% na sessão de ontem. Aos poucos, os investidores voltam a demonstrar otimismo com a perspectiva de redução dos juros de mercado, em um movimento sustentado por sinais mais consistentes de desinflação e pela queda contínua das expectativas inflacionárias no Boletim Focus. Esse cenário tem reforçado as apostas em cortes da Selic a partir do início do próximo ano, enquanto os juros reais — sobretudo os de longo prazo — permanecem em níveis elevados.
Foi bastante relevante a queda observada nos juros futuros nos últimos dias. Em 7 de outubro, a taxa do DI para janeiro de 2029 — um contrato de prazo intermediário — estava em 13,46% e, ontem, ficou em 13,045%. Na mínima do dia, chegou a 12,97%, no menor nível desde novembro de 2024, em um movimento que não se sustentou até o fim da sessão. Ainda assim, há ingredientes sobre a mesa que podem apontar para um alívio sustentado no mercado de juros, ao menos no curto prazo.

O processo de desinflação é um deles. Já na semana passada, depois que a Petrobras reduziu o preço da gasolina, o mercado voltou a trabalhar com a possibilidade de uma inflação mais branda à frente. Além disso, o câmbio voltou a ficar “comportado” e as expectativas de inflação no Boletim Focus apresentaram recuo relevante, até mesmo em prazos mais longos — uma dinâmica que se repetiu ontem.
Desde o início do mês, o ponto-médio das projeções dos economistas de mercado para o IPCA de 2026 recuou de 4,29% para 4,20%; a mediana das estimativas para a inflação de 2027 saiu de 3,90% para 3,82%; e, de forma ainda mais relevante, o ponto-médio das projeções para o IPCA de 2028 caiu de 3,70% para 3,54%. “Isso pode ser um sinal de que o trabalho do Banco Central está ganhando mais credibilidade”, comenta o trader de renda fixa de um grande banco local.
“O mercado estava dando menos peso para a inflação corrente”, observa o gestor Marcelo Bacelar, da Azimut Brasil Wealth Management, ao notar o movimento dos juros futuros entre os meses de julho e setembro. “Mas, dada a surpresa para baixo no IPCA de setembro, a surpresa no IPCA-15 de outubro e as revisões do Focus para baixo nos horizontes mais longos, isso tem ajudado a curva de juros.”
Além disso, Bacelar observa que a postura mais “hawkish” (dura) do BC tem apoiado uma menor inclinação da curva de juros, ou seja, as taxas de médio e longo prazo acabam tendo uma queda mais intensa do que as de curto prazo, ao se observar os movimentos mais recentes. “Quanto mais o BC fica parado, mais a curva perde inclinação. E esse deveria, de fato, ser o correto, embora tenhamos incertezas pela frente”, diz o gestor, ao lembrar que o próximo ano será eleitoral e que há dúvidas no mercado a respeito da postura da política fiscal. “São vários poréns.”
Ao menos no curto prazo, participantes do mercado têm mantido apostas aplicadas no mercado de juros, ou seja, que ganham com a queda das taxas futuras. É o caso do J.P. Morgan, que, recentemente, alongou o “duration” e, agora, mantém aberta uma posição que ganha com a queda da taxa do DI para janeiro de 2030. O banco mira o nível de 12,25% — ontem, essa taxa fechou o dia cotada a 13,18%.
A melhora do quadro inflacionário “destravou” um potencial de queda dos juros futuros, no momento em que boa parte dos agentes — especialmente os investidores locais — elegeu o mercado de juros nominais como o melhor “cavalo” para se estar otimista no Brasil no curto prazo. O mercado de juros reais segue com taxas longas elevadas, embora tenham se afastado das máximas. A NTN-B 2050 fechou o dia negociada a 7,199%.
Para o estrategista e economista-chefe da AZ Quest, André Muller, o recuo das expectativas de inflação no Focus e das medidas de inflação “implícita” do mercado dará mais conforto para que o BC inicie um ciclo de flexibilização monetária na primeira reunião do próximo ano, em janeiro. Essa aposta, inclusive, voltou a ganhar força na semana passada, justamente na esteira da melhora do Focus e dos números de inflação corrente.
“A continuidade do que temos visto nos últimos meses deveria dar condições para o BC cortar de maneira crível, sem colocar em risco a ancoragem das expectativas”, enfatiza. Para Muller, a autoridade monetária “tem sido muito competente” em, por meio de uma postura conservadora, ancorar as expectativas de inflação de longo prazo do mercado para níveis um pouco mais próximos da meta de 3%.
Muller, assim, não espera uma mudança brusca na comunicação do BC, ainda que a expectativa da AZ Quest seja de que a Selic caia a 10,50% até o fim do próximo ano — nível bem abaixo do consenso do mercado (entre 12% e 12,5%).
O gestor de renda fixa e multimercados Guilherme Baran, da SulAmérica Investimentos, também destaca a comunicação dura do BC e diz que, para o mercado “furar” a barreira atual de 3 pontos percentuais de cortes precificados na curva, será necessária uma desaceleração mais forte da atividade, em especial do mercado de trabalho.
Apesar da melhora das expectativas do Focus, ainda há uma diferença grande entre o que os economistas projetam para o IPCA e o que o mercado precifica em termos de inflação “implícita” — medida extraída da diferença entre o juro nominal e a taxa real da NTN-B.
Ao utilizar a inflação “implícita” da NTN-B com vencimento em agosto de 2026 e as projeções mais conservadoras do Top 5 do Focus para o restante dos meses que o título não cobre, Baran estima que o mercado projeta uma alta de 3,75% para o IPCA do ano que vem, bem abaixo dos 4,20% do Focus. Para ele, essa diferença não se deve somente a uma leitura mais otimista dos investidores, mas também à expectativa de que o ano eleitoral reservará medidas do governo para reduzir os preços de maneira artificial.
“Geralmente, o prêmio de inflação se opera para cima no Brasil, mas em anos eleitorais esse risco vai para o outro lado”, diz.
Diante do recuo forte das taxas nos últimos pregões, a SulAmérica reduziu o risco alocado nos mercados de juros, segundo Baran. Já a AZ Quest mantém posições aplicadas tanto nas taxas prefixadas de até um ano quanto no juro real de dois a três anos, segundo Muller.
Fonte: Valor Econômico
