A Shell tenta trazer mais uma empresa para compor o aporte na Raízen em conjunto com a Cosan, de acordo com fontes. A companhia já conversou com potenciais interessados, entre eles o grupo japonês Mitsui, que preferiu não avançar com as conversas.
A razão para a busca de um novo participante é que a Shell não quer ter mais de 50% do capital da Raízen, o que obrigaria o grupo anglo-holandês a consolidar a dívida bilionária da companhia em seu balanço internacional. Por isso, com um sócio, haveria uma diluição. Hoje a Raízen é dividida entre Shell com 44% e a Cosan com 44%, mas esta última não tem os recursos necessários para um aporte mais firme. O restante das ações está distribuído no mercado.
A Shell tem dito a interlocutores que não quer o pior cenário para a Raízen, como um calote ou uma recuperação judicial. Como mostrou a Broadcast, a empresa estaria disposta a fazer uma injeção de R$ 3,5 bilhões no negócio. O aporte, porém, está vinculado à capitalização por parte do parceiro brasileiro: a previsão é de que a Cosan injetaria R$ 1 bilhão e o fundador do grupo, Rubens Ometto, colocaria mais R$ 500 milhões.
Ambiente de negociação piorou
O clima ficou mais tenso entre os credores nos últimos dias. Bancos, locais e estrangeiros, e detentores de bônus dizem que não vêm sendo chamados para participar das negociações sobre a capitalização em conjunto com os controladores. “Há uma conversa para capitalizar a empresa, mas os bancos não estão sendo chamados para sentar nessa mesa”, diz uma fonte.
Cresceu entre os bancos credores o temor de que a Cosan fosse anunciar alguma estrutura de capitalização sem que eles estivessem sendo chamados para as rodadas de conversas. “A sensação era de estar sendo deixado de lado”, disso o diretor de um banco. Bancos estrangeiros, por exemplo, precisam mandar informações para suas matrizes, mas sem participar das negociações, as notícias estavam desencontradas.
Por isso, os bancos, primeiro os locais, depois os estrangeiros, resolveram mandar cartas para a Cosan e a Shell falando da necessidade urgente de capitalização, em um montante estimado de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões. De acordo com fontes, a última carta foi enviada domingo, 22, e até agora não houve uma resposta formal do grupo ao documento. A Raízen vem marcando algumas reuniões bilaterais com os bancos credores, mas não ainda como um grupo. “Essa não é a situação ideal”, afirmou um banqueiro.
Divisão da companhia pode até ser aceita
“Os bancos querem uma solução negociada”, disse uma fonte. Esta fonte ressalta que a ideia de dividir a Raízen em duas pode até ser aceita pelos credores, mas desde que seja negociada.
O BTG Pactual, que se tornou sócio da Cosan no ano passado, tem conduzido as iniciativas em torno de uma solução para o grupo e Raízen. Pelo plano que foi inicialmente ventilado na mídia, a cisão da Raízen levaria o banco de André Esteves a ficar com os negócios de distribuição. Entre os bancos e os detentores de títulos de dívida, essa proposta causou desconforto.
Até o fechamento do segundo trimestre do ano-safra 2025/2026, a dívida líquida da Raízen somava R$ 53,4 bilhões, dos quais cerca de R$ 27 bilhões em bonds, títulos de dívida emitidos no exterior, com vencimentos entre 2027 e 2054.
Procurados, Cosan e Shell não comentaram.
Fonte: Estadão