Por Marsílea Gombata e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio
15/09/2023 05h01 Atualizado há uma hora
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O volume de serviços prestados no país avançou mais do que o esperado em julho, com expansão na maior parte dos segmentos. O resultado pode levar a revisões para cima das projeções de Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre e acende alerta sobre o ritmo de queda de juros, segundo economistas.
Pelo terceiro mês seguido o volume de serviços prestados no país avançou, com uma alta de 0,5% em julho, ante junho, acima da mediana estimada pelo mercado de 0,4%, segundo o Valor Data.
Na comparação com julho de 2022, o indicador teve alta de 3,5%, segundo os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No resultado acumulado em 12 meses até julho, houve aumento de 6%. Nos primeiros sete meses de 2023, a expansão foi de 4,5%.
Três das cinco atividades acompanhadas pela PMS tiveram alta: transportes, serviços prestados às famílias e outros serviços.
Por outro lado, serviços profissionais, administrativos e complementares, e informação e comunicação registraram retração.
Uma das leituras mais surpreendentes foi a de transporte de cargas, que subiu 1,4% em julho, ante junho, e puxou a alta do setor de serviços no mês. A atividade se encontra em patamar 44,1% superior ao fevereiro de 2020, marco do pré-pandemia. Dentro do transporte de cargas, o destaque foi o rodoviário.
Continuamos vendo sinais de desaceleração para a atividade à frente”
— Gabriel Couto
Puxados pelas férias escolares, os serviços prestados às famílias cresceram 1% em julho, em relação a junho. Foi o quarto mês seguido de expansão, com alta acumulada de 4,9% no período. Com isso, se aproximaram do patamar pré-pandemia, embora ainda estejam 1,7% abaixo do nível de fevereiro de 2020.
Os serviços prestados às famílias são o único segmento entre os cinco acompanhados pelo IBGE que não ultrapassou o patamar pré-pandemia.
Segundo Rodrigo Lobo, gerente do IBGE, o setor de serviços opera no segundo ponto mais alto de sua série histórica, abaixo apenas de dezembro de 2022. Em julho, o patamar da atividade de serviços estava 0,9% abaixo de dezembro de 2022, auge da série histórica iniciada em janeiro de 2011.
O resultado de julho surpreendeu economistas. Marcela Rocha, economista-chefe da Principal Claritas, esperava alta de 0,3% do volume de serviços prestados em julho e não descarta que a projeção de queda de 0,1% para o PIB do terceiro trimestre seja revista pra alta de 0,2%. O mesmo vale para o PIB de 2023. A projeção de alta de 2,9% da Principal Claritas pode passar para alta de 3,1%.
Esse cenário, afirma Rocha, mostra um mercado de trabalho robusto, com criação de vagas e aumento do salário real, e acende alerta sobre excesso de otimismo quanto aos rumos da politica monetária.
“O Banco Central deveria ter cautela com essa desinflação de serviços, afinal a atividade está resiliente e, na composição do PIB, a demanda doméstica aparece com um desempenho bom que não deve arrefecer tanto”, diz. “Isso não muda a expectativa de corte de 0,5 ponto da taxa de juros Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na semana que vem. Mas não abre a porta para possível aceleração do ritmo de queda [da taxa de juros].”
Nos próximos meses, as atividades de agropecuária e a renda das famílias determinarão a dinâmica de serviços, afirma Thiago Xavier, economista da Tendências Consultoria.
“A produção agrícola tem puxado transportes, mas há também uma mudança de paradigma [do consumo de bens], com o comércio eletrônico e as entregas a domicílio impulsionando isso”, argumenta Xavier.
Apesar dos dados melhores que o previsto em julho, a expectativa é de desaceleração no segundo semestre, afirma Rodolfo Margato, economista da XP, em relatório enviado a clientes.
“De acordo com as nossas estimativas, o PIB de serviços subirá 0,4% no terceiro trimestre e 0,1% no quarto trimestre, arrefecendo ante o crescimento médio de 0,6% nos dois primeiros trimestres do ano”, escreveu Margato.
Apesar dos dados de serviços e da surpresa positiva com o PIB do segundo trimestre, o economista do Santander Gabriel Couto segue cauteloso.
“Continuamos vendo sinais de desaceleração para a atividade ampla à frente, especialmente para segmentos mais cíclicos, devido a condições financeiras altamente restritivas”, escreveu a clientes em nota.