Na próxima segunda-feira, o ecossistema brasileiro de search funds celebra uma década de história em evento no Hotel Renaissance em São Paulo que reunirá os maiores players do mercado. O que começou como um experimento restrito a poucos pioneiros tornou-se uma corrente robusta de investimentos, com impacto crescente sobre o mercado de M&A, o empreendedorismo e a profissionalização de empresas de médio porte no país.
Este artigo examina a evolução do modelo no Brasil à luz desses 10 anos, utilizando números consolidados, evidências empíricas e os casos recentes de desinvestimentos de i4pro, Labsoft e Agger, que marcam a transição do mercado brasileiro para sua fase de maturidade.
De tese à realidade: a década que consolidou o search fund no Brasil
Há dez anos, o modelo era quase desconhecido no país. Hoje, o Brasil tornou-se um dos maiores ecossistemas do mundo fora dos EUA, com dezenas de buscas ativas, diversos fundos especializados, uma rede de investidores experientes e um pipeline sempre crescente que soma mais de 20 operações no período.
Esse amadurecimento ocorre paralelamente à explosão global do modelo. Segundo estudo da Yale School of Management (2025), baseado em dados internacionais, centenas de novos search funds têm sido lançados anualmente, considerando versões tradicionais, self-funded e programas aceleradores. O modelo movimentou, apenas em 2022–2023, US$ 682 milhões em equity em todo o mundo. No Brasil, mais de R$1 bilhão nesses 10 anos. E estima-se que nos próximos 10 anos, o valor chegue a dobrar ou até triplicar.
O Brasil acompanhou essa expansão e hoje se destaca como origem de operações sofisticadas, com governança sólida e investidores cada vez mais profissionais.
Evidências da evolução estrutural do ecossistema brasileiro
- Pipeline mais eficiente e profissionalizado: empreendedores desenvolveram metodologias mais refinadas de originação, priorização e abordagem de targets — incorporando brokers, tecnologia e dados estruturados no processo de busca;
- Operações mais complexas e maior uso de M&A inorgânico: o crescimento inorgânico destaca setores como tecnologia, educação e rental, em que os searchers brasileiros já executam teses reais de buy-and-build, com múltiplas aquisições, integração e sinergias — um avanço significativo em relação aos primeiros anos do modelo no país;
- Profissionalização pós-aquisição: a transição do searcher para CEO tornou-se mais sofisticada, com foco em cultura, retenção de talentos, governança e escalabilidade — temas que ganharam espaço conforme os casos brasileiros avançaram da fase de aquisição para execução.
Todos esses fatores trouxeram, em 2025, após anos de aquisição e gestão, as primeiras grandes saídas do ecossistema brasileiro, consolidando a tese local perante investidores:
- i4pro: a saída mais recente e exitosa até o momento, ocorrida em julho deste ano, após aquisição em 2019, marca uma das primeiras saídas brasileiras via search fund, e completa um ciclo com final feliz;
- Labsoft e Agger: saídas em setores distintos reforçam a diversidade setorial e mostram que o modelo é aplicável a empresas de diferentes tamanhos e segmentos.
Essas transações inauguram o “ciclo completo” do search fund no Brasil — sinal de maturidade estrutural e não apenas de expansão numérica.
O que os dados internacionais nos ensinam — e como o Brasil se compara
O estudo “How Are Search Fund Investors Really Faring?”, publicado em outubro de 2025 pela Yale SOM, traz conclusões que ajudam a contextualizar o momento brasileiro:
- A média global de MOIC (Múltiplo sobre Capital Investido) para investidores está entre duas e três vezes. Embora o estudo de Stanford historicamente reporte MOICs agregados acima de 4,5x, o estudo da Yale — baseado em resultados reais e ponderados por alocação — revela que o investidor típico captura MOIC entre duas e 2,8 vezes. Isso reforça que o modelo cria valor, mas exige disciplina, diversificação e tolerância ao risco.
- Saídas acima de 10x (“griffins”) são raríssimas. Apenas 3% das transações analisadas globalmente atingem retornos superiores a 10x — eventos comparados pelos pesquisadores a “griffins”, criaturas míticas quase impossíveis de encontrar. A venda da i4pro se aproxima dessa categoria quando comparada aos benchmarks internacionais.
- 51% dos searchers globalmente obtêm retorno ≥ 1x, ou seja, apenas metade dos empreendedores captura retorno positivo quando consideradas as buscas que não resultam em aquisição (“broken searches”). Esse dado ecoa o aprendizado brasileiro: a busca é um processo de risco elevado, e a resiliência operacional é determinante.
Outro marco relevante do período recente é a atualização do modelo regulatório dos FIPs, que traz maior clareza sobre o searcher como cotista, aprimoramento do sistema de governance, redefinição do carry e incentivos na estrutura e fortalecimento do papel dos boards.
Esses avanços reforçam a institucionalização do ecossistema e tornam o Brasil um ambiente mais previsível para investidores locais e estrangeiros. Esse desenvolvimento todo do ecossistema de search funds gerou impactos diretos e mensuráveis para empresas de médio porte no país como:
- Profissionalização da gestão: searchers introduzem governança, KPIs, controles financeiros e práticas de gestão modernas — elevando o padrão de empresas antes familiares ou pouco estruturadas.
- Expansão acelerada: as empresas adquiridas passam a acessar capital, novos mercados, M&A inorgânico e redes de advisors, ganhando escala.
- Renovação geracional: o modelo oferece uma alternativa eficiente para fundadores em transição, preservando cultura e garantindo continuidade.
- Liquidez em setores pouco atendidos por private equity: search funds ocupam um espaço negligenciado por fundos tradicionais: empresas entre R$ 20 milhões e R$ 150 milhões, onde há abundância de targets e assimetria de informação.
- Transformação tecnológica e digitalização: boa parte das empresas adquiridas opera em software, serviços B2B e segmentos com baixa digitalização — acelerando a modernização do middle market brasileiro.
O que esperar para próxima década
- mais desinvestimentos, confirmando retornos observados em mercados maduros;
- expansão de modelos híbridos, como search funds aceleradores, self-funded e estruturas institucionais;
- maior diversidade de empreendedores, não apenas egressos de MBAs;
- entrada de capital institucional e family offices de maior porte;
- internacionalização, com searchers brasileiros adquirindo empresas fora do país.
Com os primeiros ciclos completos e evidências reais de desempenho, o Brasil avança de “promessa emergente” para protagonista global. O país celebra 10 anos de search funds justamente quando obtém provas concretas de sucesso: múltiplas saídas relevantes, governança mais sólida, processos profissionais de busca e gestão e um número crescente de empreendedores e investidores atraídos pelo modelo.
Se a primeira década foi de estruturação, a próxima promete ser de expansão em escala. Os fundamentos estão lançados: capital, talento, regulação e agora, finalmente, track record. Em 10 anos, o número de operações deve triplicar, a depender do calibre correto dos aprendizados nesse período, do alinhamento de incentivos, do esclarecimento de questões antes duvidosas, da regulamentação (que tem mudado no Brasil), da segurança que o Brasil vai transmitir para investidores estrangeiros, já que temos um ambiente jurídico e político instável.
Ou seja, precisamos estudar os governos que virão a fim de entender se serão propícios ao investimento de capital estrangeiro ou não. Tudo depende do ambiente macroeconômico e político para que o modelo de search funds seja alavancado no País.
O empreendedorismo por aquisição no Brasil deixa de ser uma tese importada para tornar-se uma realidade brasileira — com identidade, nuances e resultados próprios.
*Sócio do MBC Advogados e mestre em Corporate and Finance pelo Kings College London
Fonte: Pipeline


