Na onda do enfraquecimento do dólar e da realocação de parcela de capitais dos EUA, a bolsa brasileira já corrigiu 45%, mas não foi um movimento local e baseado em fundamentos, e sim um fenômeno que favoreceu diversos emergentes. À frente, contudo, há “espaço muito grande para a queda de juros” e o custo de capital baratear, beneficiando o crescimento e a atividade de mercado de capitais, o “valor do equity”, segundo Alexandre Bettamio, cochairman global do banco de investimentos do Bank of America (BofA).
Ao participar de painel de evento da G4 Educação, em São Paulo, na sexta-feira, o banqueiro disse que a sua visão é que os juros “vão cair significativamente no ano que vem”, numa economia relativamente saudável. Como país emergente, deveria crescer mais, mas pelo menos não está desacelerando. E dado alguns benefícios tributários, talvez a população consuma mais, diz. “Isso ajuda um pouco, mas é momentâneo. Você só resolve e destrava valor se enfrentar problemas estruturais. A eleição vai gerar debate, oportunidade para ouvirmos e pensarmos quem queremos que faça as mudanças que são necessárias. E pode ser o governo atual, pode ser outro governo, mas temos uma crise financeira soberana por conta do endividamento.”
Bettamio citou que, com dívida da ordem de R$ 8 trilhões a R$ 9 trilhões e déficit nominal na casa dos 9%, não é a relação dívida/PIB, em cerca de 80%, que assusta. “O problema não é o tamanho em si, embora não seja saudável, o problema é o custo do carregamento. Se o país tem uma dívida que cresce a 15% por ano e a economia 3%, você está lascado, não precisa fazer muita matemática para saber que essa conta acaba não se pagando.”
O executivo afirmou que se o governo, qualquer que seja, adotar medidas que enderecem as questões primárias desse déficit, o mercado rapidamente corrige, “precifica lá na frente, ainda nas expectativas, não na realidade porque antecipa o que vai acontecer. Então, fruto dos debates [entre os candidatos à presidência], pode haver um momento muito interessante para o Brasil no ano que vem”.
Com mais de 200 ofertas públicas de ações (IPOs) na bagagem, Bettamio lembrou o período em que o Brasil ganhou a nota de “grau de investimento”, um selo de qualidade das agências de classificação de risco de crédito, em 2008. Foi uma fase de real forte e bolsa para cima, até o choque da crise de 2015, com o país voltando a ser grau especulativo. O custo de financiamento ficou mais caro e o país perdeu investimentos.
Segundo o executivo, se alguém tivesse investido US$ 1 milhão na bolsa local em 2010 e a mesma quantia na americana, passados 15 anos esse capital valeria cerca de US$ 500 mil no Brasil e se multiplicado a US$ 9 milhões, US$ 10 milhões nos EUA. “O grande motivo foi a inflação da nossa moeda, esse foi o grande destruidor de valor.” Para ele, as eleições de 2026 serão uma grande oportunidade para enfrentar o dilema fiscal.
“É uma oportunidade fantástica para os candidatos discutirem seus planos econômicos. Para você ter uma empresa de sucesso, a primeira situação que precisa ter é um ambiente propício”, disse. “Nós precisamos ter o equilíbrio fiscal, buscar esse selo de qualidade e de preferência um governo mais enxuto, porque isso facilita a vida do empreendedor, sobra mais dinheiro para investir.”
Bettamio, que estava na estrutura do antigo Merrill Lynch no Brasil na época da crise das hipotecas de alto risco (“subprime”) nos EUA, em 2008, acabou indo fazer parte do BofA com a união dos dois grupos financeiros. Após a quebra do Lehman Brothers, o Tesouro dos EUA e o Federal Reserve promoveram uma série de associações para evitar um colapso sistêmico no coração da maior economia do mundo. A partir dali, o executivo foi um dos nomes que desenvolveram a operação do BofA localmente. “Foi uma experiência de vida extraordinária aquela fusão”, afirmou. “Vocês podem imaginar o desafio que foi naquele momento, dada a complexidade de ausência de liquidez. Eu estava focado na Merrill Lynch no Brasil, que era uma corretora muito boa, mas relativamente pequena, principalmente depois de uma crise financeira.”
O BofA, conta, em meio à venda das operações do BankBoston no Uruguai, Chile e Brasil, transferiu o banco local para o Itaú, em 2006, e também tinha se tornado acionista do banco brasileiro. Havia um claro conflito de interesse ali e a expectativa do time brasileiro da Merrill Lynch era que a corretora fosse encerrada.
“Nós fizemos uma apresentação demonstrando o que seria possível executar no Brasil, que a gente não precisava que o banco nos salvasse, pelo contrário, queríamos ser uma das alternativas de solução de crescimento. Fiz uma apresentação em Nova York, conseguimos naturalmente o apoio, e ali deslanchamos a nossa estratégia de crescimento, que começou com o pedido de uma licença bancária para sermos banco comercial no Brasil”, disse. “A lição que ficou é que na crise você não vai ter resposta para todas as perguntas. Vai ter dias que não sabe o que vai fazer. Mas tem que ter uma meta clara, uma visão, porque essa visão contagia as pessoas, mobiliza recursos.”
Nessa construção, uma corretora pequena se tornou um dos bancos mais atuantes do mercado financeiro brasileiro, com mais de mil pessoas, ativo tanto em operações de empréstimo quanto em mercado de capitais, em ofertas públicas de ações e dívida, assessoria a fusões e aquisições, além de também ser um “dealer” do Banco Central, uma ponte com as demais instituições locais nas negociações com títulos do Tesouro. O faturamento chega a mais de US$ 1 bilhão, “com uma margem enorme”, segundo Bettamio.
A ascensão do executivo, que conquistou o cargo mais alto por um brasileiro na estrutura do BofA, é reflexo dessa trajetória. Ele recebeu uma nova promoção em agosto para ser o copresidente do conselho global do banco de investimento do conglomerado, ao lado de Thomas Sheedan, reportando-se a Mattew Koder. Antes de assumir o comando do banco de investimento na América Latina, em 2013, Bettamio comandava a operação brasileira.
Fonte: Valor Econômico
