Autoridades afirmam que os participantes foram convocados pelas redes sociais e o ministro de Segurança de Buenos Aires, Sergio Berni, disse que os atos de vandalismo “ocorreram de maneira coordenada”. Supermercados e lojas foram atacados nas províncias de Buenos Aires — em Moreno, um supermercado foi incendiado —, Córdoba, Mendoza, Río Negro e Neuquém.
Segundo o ministro, os detidos serão acusados de furto em bando, que prevê pena de até 15 anos de prisão.
“Um saque sempre é um sinal de estresse social. Neste caso, em razão da inflação alta e do desarranjo monetário”, disse a analista de Argentina da agência de análises de risco Control Risks, Marina Pera. “Mas os incidentes dos últimos dias não têm a mesma característica dos vistos em outras ocasiões, que foram espontâneos e movidos por desespero.”
A pobreza argentina é alimentada pelo baixo crescimento econômico e uma inflação que ultrapassou os 113% ao ano em julho.
A porta-voz da presidência Gabriela Cerruti acusou partidários do candidato ultradireitista Javier Milei — o mais votado nas primárias do dia 13 — de incitarem os saques. “Governadores em todas as províncias advertiram que se trataram de ações políticas e criminosas, instigadas desde aquele setor [de Milei]. A democracia é um bem de todos e vamos defende-la”, afirmou na rede X (antigo Twitter).
A candidata da coalizão do ex-presidente Mauricio Macri, Juntos por el Cambio (JxC), Patricia Bullrich, disse ser preciso manter a “ordem e restabelecer a autoridade”.
O candidato peronista e ministro da Economia, Sergio Massa, estava em Washington negociando com o Fundo Monetário Internacional (FMI). De lá, ele anunciou compensações econômicas “de até 7 milhões de pesos” para os comerciantes. Para receber o benefício, é preciso ter realizado uma denúncia e um levantamento das perdas.
Milei negou envolvimento e lamentou os atos. “É trágico voltar a ver, depois de 20 anos, as mesmas imagens de saques que víamos em 2001. Pobreza e saques são duas faces da mesma moeda”, afirmou o candidato nas suas redes sociais.
“Estão mais parecidos com roubos organizados; saques têm outras características, com pessoas desesperadas, querendo comida”, disse o analista político Roberto Bacman, diretor-executivo do Instituto Ceop, um centro de estudos políticos. “Vemos agora grupos organizados, usando motos e ferramentas para levantar portas. Levar roupas não é saque, levar caixas de cerveja não é saque, incendiar um mercado não é saque.”
O ministro da Segurança da Argentina, Aníbal Fernández, ressaltou que os ataques não foram espontâneos. “Não é casual. Mas não temos dados confiáveis para dizer quem pode ter sido o responsável. Não posso afirmar isso”.
Nesta quarta, o presidente Alberto Fernández reapareceu em público pela primeira vez desde as primárias e disse que “é preciso cuidar da convivência democrática”. Após críticas por não ter se posicionado antes, ele respondeu: “Não falo porque não sou candidato”.
Para os analistas, esse comportamento reforça a percepção de que o governo está cumprindo o que lhe resta do mandato, de forma enfraquecida, até as eleições.
De acordo com análises da Control Risks, os ataques não devem impactar imediatamente a dinâmica eleitoral, mas serão usados para a retórica de cada candidato. “O governo acusa Milei e seus partidários de orquestrar roubos para plantar distúrbios e enfraquecer ainda mais sua situação. Bullrich e Milei vão capitalizar, dizendo que o governo está sem controle da segurança”, diz Pera.
Um líder social obscuro, de um movimento piquetero de tendência nacionalista de direita, Raúl Castells, se apresentou nesta quarta como um dos articuladores dos atos. Para Bacman, ele “é responsável por instigar e aproveitar a circunstância, mas pode haver alguém mais importante [envolvido].”
Bacman, do Instituto Ceop, explica que as pessoas detidas são apenas a parte visível de um movimento que precisa ser investigado. “Quem pode estar por trás disso? Está sendo investigado. Quem aparece são os ‘soldadinhos’, mas por trás deles existe uma cabeça pensante, um autor intelectual, que ainda não sabemos quem é.”
Além da violência, mensagens com ameaças de saques circulam desde domingo, levando medo a comerciantes. Alguns fecharam as portas mais cedo. Um grupo de comando unificado de forças federais foi criado ontem para evitar e responder aos ataques.
Fonte: Valor Econômico


