O choque de oferta provocado pela guerra do Irã deve afastar a hipótese de aceleração dos cortes na Selic no curto prazo, mas a cautela do BC com os riscos de uma desaceleração mais forte da economia por conta da longa restrição da política monetária deve manter vivo o ciclo de ajustes dos juros nos próximos meses. Assim, em revisão de cenário, o Santander elevou sua projeção de Selic para 13,25% no fim do ano, de 12,5% da estimativa anterior.
A linha mestra da revisão, segundo o economista Marco Antonio Caruso, é contemplar um preço de petróleo mais alto nos próximos meses, que deve, em média, se manter na faixa dos US$ 90 até o fim do ano.
Do ponto de vista macro, na projeção do Santander, a economia deve se manter aquecida, seja pelo setor exportador mais robusto, com os preços mais altos de commodities, seja pelo mercado de trabalho ainda resiliente. O PIB de 2026 foi revisado de 1,5% para 1,8%, embora o de 2027 tenha se mantido em 1%.
Deste modo, o cenário do banco passou também a incorporar um choque inflacionário, tanto pelo efeito direto do petróleo quanto pelo mercado de trabalho mais apertado.
“A projeção de inflação para este ano subiu para 5,1%, ante 4,5% na revisão anterior. Para o próximo ano, a expectativa ficou em 4%”, aponta Caruso, fazendo a ressalva de que, ainda que a projeção para 2027 tenha se mantido inalterada, sua composição deve se tornar mais complicada para a condução da política monetária pelo Banco Central.
“A inflação de serviços segue elevada, em torno de 4,5%, o que mantém a dinâmica inflacionária mais resistente. Por outro lado, os bens industriais tendem a ser favorecidos por efeitos de base, ajudando parcialmente na composição do índice”, afirma.
A deterioração só não deve ser maior, segundo Caruso, porque o câmbio foi revisado para um nível mais apreciado em 2026, com a estimativa para o dólar no fim do ano passando de R$ 5,60 para R$ 5,40. ”Apesar da ajuda vinda do setor externo, o câmbio ainda deve permanecer pressionado pelos riscos idiossincráticos do Brasil no segundo semestre.”
Neste ambiente, há uma discussão legítima sobre se o BC deveria ou não interromper o ciclo de cortes na Selic. “Nosso entendimento é o de que ele vai continuar se apoiando bastante nos próprios modelos, mesmo com as discrepâncias em relação ao que o mercado projeta”, avalia.
Com a visão de que os cortes devem continuar, mas em menor velocidade, o Santander elevou sua projeção de Selic no fim deste ano de 12,5% para 13,25%. “Tiramos a hipótese de cortes de 0,5 ponto e passamos a considerar reduções de 0,25 ponto”, afirma Caruso.
Na visão do economista, caso a taxa básica ficasse parada em 14,5% por muito tempo, é provável que a discussão sobre riscos maiores de crédito no ano que vem passassem a ganhar ainda mais força.
”Existe uma abordagem balanceada do Copom nesta história, olhando com mais cuidado para cenários alternativos e para riscos menos desejáveis. O BC entende que ainda há uma gordura relevante de juro real e, por isso, poderia seguir reduzindo juros em ritmo gradual, condicionado à evolução do choque de petróleo e ao risco de propagação para as expectativas e para a inflação de serviços”, afirma Caruso.
Fonte: Valor Econômico