O estresse elevado visto nas mesas de operação após a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro se tornar pública deu lugar à calmaria na sessão de ontem, o que causou estranhamento em boa parte do mercado. Para além de uma correção natural, o investidor estrangeiro, ao que tudo indica, enxergou o episódio como oportunidade e aproveitou o desconto oferecido pela política local, trazendo ares de normalidade a um pregão que prometia ser tenso. Os agentes locais, no entanto, permanecem bastante cautelosos e apontam que a trajetória dos ativos no curto prazo pode se pautar pelo desempenho de Flávio nas próximas pesquisas eleitorais. “Se ele piorar pouco, é ruim; se piorar muito, é ótimo”, resume um gestor.
Não é segredo que Flávio nunca foi o nome preferido da Faria Lima para a disputa pelo Planalto. A reação dos preços dos ativos brasileiros no dia em que o primogênito do ex-presidente anunciou que concorreria às eleições, em dezembro do ano passado, abre pouca margem para interpretações divergentes. Desde que sua candidatura surgiu, no entanto, outros nomes da oposição se tornaram inviáveis eleitoralmente e Flávio parecia ter se tornado a única opção para derrotar o atual governo e, na esperança de profissionais do mercado, corrigir os rumos da trajetória da dívida pública.
Assim, o episódio de anteontem, no qual a imagem de Flávio Bolsonaro sai fortemente arranhada, mas não de forma suficiente para enterrar sua candidatura, é considerado o pior dos cenários por grande parte do mercado local. Na mesa da tesouraria de um grande banco, a interpretação do evento político é de que ali se dava o início do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Os sites de apostas ilustram bem o cenário considerado mais negativo pelo mercado. Flávio saiu de 43% de probabilidade de vitória para 23% nos menores patamares da quarta-feira. Ontem, recuperou apenas metade do tombo e se manteve nos 33%, enquanto Lula saiu de 38% e se manteve estável nos 43% ao longo da quinta-feira. Em resumo, Flávio não se tornou inviável, mas tampouco parece ter força para vencer Lula no segundo turno.
É nesse contexto que as próximas pesquisas eleitorais devem ganhar imensa relevância para o mercado. Se os números apontarem um desgaste muito grande às pretensões de Flávio, aumentam, na interpretação de interlocutores, as chances de desistência de sua candidatura e, assim, cresce a possibilidade de outro nome do campo da oposição ocupar o seu lugar no segundo turno.
Essa, inclusive, é uma interpretação dada por agentes sobre o motivo do estresse de quarta-feira não ter se estendido para a sessão seguinte. “Uma piora do Flávio não necessariamente levaria a uma piora do mercado. Se uma terceira via subir, por exemplo, o mercado vai melhorar”, aponta o tesoureiro de outra instituição financeira, citando os nomes de Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).
O gestor de uma importante asset local avalia que parece difícil, neste momento, vislumbrar uma recuperação de Flávio Bolsonaro que o permita vencer Lula nas eleições. “O pior não é só esse evento. É a quebra de confiança de que ele não parece ter se preparado em nada para ser presidente. Conversar sobre dinheiro com Vorcaro no fim do ano passado não é algo que uma pessoa ilibada faça. Fica a desconfiança: se ele é imprudente assim, o que mais deve ter feito? E, se for presidente, o que vai fazer?”, questiona.
O tempo ainda passa a se tornar um novo desafio às pretensões de Flávio e das perspectivas de alternância de poder. “Lula deve aumentar sua vantagem em relação ao Flávio e, quanto mais perto da eleição isso se cristaliza, mais provável é a vitória do Lula”, completa.
Apesar das questões domésticas terem voltado ao centro da pauta após meses de discussões sobre a guerra do Irã e os preços do petróleo, o investidor estrangeiro ainda se mostra muito menos preocupado com o desfecho das eleições brasileiras do que o local. Em relatos colhidos pela reportagem ao longo dos últimos meses, um quarto mandato de Lula é considerado como algo “totalmente conhecido”, ainda que reconheçam que o Brasil tem um problema fiscal que precisa ser sanado.
Fonte: Valor Econômico