Por David Sheppard, Chris Cook e Anastasia Stognei, Financial Times — Londres e Riga
21/09/2023 11h44 Atualizado há 4 dias
A Rússia proibiu a exportação de diesel e gasolina no momento em que os preços do petróleo se aproximam de US$ 100 por barril. A medida marca uma escalada que aumenta os temores de que Moscou use o fornecimento de petróleo e derivados como arma em retaliação às sanções ocidentais.
Os preços do diesel na Europa deram um salto depois do anúncio de ontem e subiram quase 5%, para mais de US$ 1.010 por tonelada. Os preços do petróleo também reagiram em alta, mas devolveram os ganhos até o fim do dia. O petróleo tipo Brent — a referência internacional — fechou a US$ 93,30 por barril, com uma queda de 0,25%, enquanto o WTI, referência do mercado americano, caiu 0,09% e fechou a US$ 89,58 por barril.
A Rússia é um dos maiores fornecedores de diesel do mundo e um dos principais produtores de petróleo. Moscou já tinha reduzido suas exportações de petróleo no âmbito de um acordo com a Arábia Saudita e demais integrantes da Opep+ — que reúne a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados. Isso contribuiu para um salto de 30% nos preços do petróleo desde junho.
Para os participantes do mercado preocupa o fato de a Rússia restringir a oferta de petróleo em um momento que os bancos centrais ao redor do mundo enfrentam dificuldades para controlar a inflação e os preços do petróleo parecem estar no rumo para superar os US$ 100 por barril pela primeira vez em 13 meses.
“A Rússia quer infligir sofrimento à Europa e aos EUA e parece que vai repetir a cartilha que usou para o gás no mercado do petróleo às vésperas dos meses de inverno — ela quer mostrar que não acabou de usar seu poder sobre os mercados de energia”, disse Henning Gloystein, do Eurasia Group.
O Kremlin informou que a proibição era “temporária” e se destinava a lidar com o aumento dos preços da energia na Rússia, mas não deu nenhum prazo para encerrá-la e definiu apenas umas poucas exceções, como suas bases militares no exterior. Mas o timing da medida levantará suspeitas nas capitais ocidentais de que o presidente russo, Vladimir Putin, volta a tirar vantagem do poder da Rússia sobre os mercados de energia.
A partir da invasão da Ucrânia, no ano passado, a Rússia passou a fazer crescentes cortes no fornecimento de gás natural para a Europa. Isso ajudou a desencadear uma crise energética mundial que alimentou a inflação e prejudicou indústrias e consumidores em todo o planeta.
“No ano passado a Rússia disse que os cortes no fornecimento de gás eram apenas temporários, mas continuou fechando a torneira”, disse Gloystein. “Com a aproximação do inverno [na Europa], mirar o diesel pode facilmente empurrar o petróleo para mais de US$ 100 por barril, com todas as ramificações desagradáveis que isso traria para a economia mundial.”
O diesel é o principal combustível da economia mundial, com um papel crucial no transporte de carga, no transporte marítimo e na aviação. Os derivados do diesel, como o óleo de calefação, são especialmente suscetíveis a aumentos de preço no inverno. A Alemanha e o nordeste dos EUA têm forte dependência desse combustível para aquecer residências.
Os mercados de combustíveis refinados já estão relativamente apertados por cauda do aumento da demanda e da manutenção das refinarias durante o verão. Os preços nos postos de gasolina estão se tornando um problema cada vez maior para o presidente dos EUA, Joe Biden, e outros governantes.
Os pré-candidatos republicanos para a eleição presidencial dos EUA de 2024 têm atacado o governo Biden por causa do aumento dos preços dos combustíveis, e o favorito, o ex-presidente Donald Trump, o acusa de negligenciar a indústria petrolífera nacional.
Trump já disse que obrigará a Ucrânia a negociar com a Rússia se se voltar à Casa Branca, o que levanta questões sobre a possibilidade de Putin tentar influenciar as eleições do ano que vem.
Helima Croft, da RBC Capital Markets, disse que, embora Moscou possa ter alguns problemas de abastecimento interno de curto prazo, o corte nas exportações aponta para um desejo “de demonstrar a disposição do Kremlin de transformar o fornecimento de petróleo em arma”. “A Rússia ainda quer causar o caos, ainda quer acabar com a determinação do Ocidente de apoiar a Ucrânia. O objetivo [de Putin] parece ser conseguir chegar ao ano que vem e ver o impacto nas eleições presidenciais dos EUA”.
A Agência Internacional de Energia (AIE) informou no ano passado que as refinarias russas produziram “cerca do dobro do diesel necessário para satisfazer a demanda interna e normalmente exportam metade da sua produção anual”.
De acordo com a empresa de análise de dados de transporte de carga Kpler, a Rússia é o segundo maior país exportador de diesel por mar do mundo, depois dos EUA, e antes da invasão da Ucrânia era o maior exportador individual de diesel para a União Europeia.
Desde fevereiro, a UE e os EUA proibiram em grande medida as importações de combustível refinado russo, o que obrigou Moscou a redirecionar suas vendas para a Turquia e países do norte de África e da América Latina.
As economias avançadas do G-7 (grupo das sete maiores economias ricas) também tentaram impor um teto de preço para as vendas do petróleo russo, ao mesmo tempo em que países ocidentais aumentaram as importações de diesel da Índia e do Oriente Médio.
Mas as vendas russas de combustíveis refinados, em especial do diesel, continuam a ser uma parte fundamental do fornecimento de petróleo. Em agosto, a Rússia exportou mais de 30 milhões de barris de diesel e gasóleo — um substituto do diesel — por via marítima, segundo a Kpler.
A Rússia é um exportador menor de gasolina, e exportou só 90 mil barris por dia por via marítima em agosto, acrescentou a Kpler.
Fonte: Valor Econômico
