Os mercados globais chegam a esta quarta-feira de decisão sobre juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) com a sombra de uma recessão nos Estados Unidos, o que possivelmente pesará nos rumos da política monetária. Mas para Nannette Hechler-Fayd’herbe, executiva-chefe de investimentos (CIO) e de estratégia para mercados emergentes do grupo suíço de gestão de fortunas Lombard Odier, não há risco de a maior economia do planeta perder muito ímpeto por mais de um trimestre.
Com a nova administração do presidente Donald Trump, ela reconhece ser difícil ignorar os ruídos de curto prazo, com as ameaças de taxação de bens importados podendo escalar para uma guerra comercial mais severa. “O mercado, certamente, reagiu de forma que agora espera que os Estados Unidos paguem um preço alto por essa incerteza que foi criada, e pode muito bem ser o caso para um trimestre”, diz Hechler-Fayd’herbe, numa conversa com o Valor em breve passagem pelo Brasil.
A executiva afirma que alguns modelos de projeções indicam certa fraqueza da atividade porque o sentimento empresarial entrou numa fase de simplesmente não saber as consequências das políticas de Trump. “Mas os EUA são, na verdade, predominantemente uma economia de consumo, 60% vêm do consumidor e o seu comportamento está muito relacionado ao mercado de trabalho. Se houver emprego, se a renda em termos reais estiver aumentando, se o poder de compra estiver sendo suportado, temos uma chance muito justa de que o impacto final dessa incerteza seja bastante limitado.”
Para Hechler-Fayd’herbe, o objetivo político da Casa Branca é garantir que o consumidor tenha mais dinheiro no bolso, com medidas no sentido de baratear certas categorias como os preços de energia, incluindo a gasolina na bomba, moradias e assistência médica.
“Mantivemos nossa visão de que o crescimento nos EUA para 2025 não estará muito longe do potencial da economia”, afirma. “Não vemos os riscos de recessão como elevados no momento. O fato de que a imigração será mais contida deve ser pensado mais do lado inflacionário do que do lado do crescimento.”
O grupo suíço, que globalmente reúne 327 bilhões de francos suíços (ou cerca de US$ 360 bilhões, conforme dados do fim de 2024), trabalha com dois cortes de juros pelo Fed neste ano, levando as taxas referenciais para a casa dos 4%.
Hechler-Fayd’herbe diz ver o dólar com um desempenho “mais negativo do que deveria”, refletindo justamente a quebra de expectativa do mercado em torno da política econômica de Trump nos seus primeiros meses de governo.
Este é um preço diretamente relacionado às tarifas comerciais. Hechler-Fayd’herbe diz que tem sido difícil se guiar em meio aos ruídos e aos vaivéns do presidente americano sobre os anúncios. “Um dia estamos ouvindo falar de tarifas de 25% e no dia seguinte elas são ampliadas. Também fomos informados de que haverá uma série de tarifas dos EUA no dia 2 de abril, mas não há muitos detalhes disponíveis”, afirma. “O que tentamos fazer é colocar um pouco de racionalidade nisso, para entender sobre o que estamos falando realmente no comércio internacional.”
Entre os parceiros comerciais dos Estados Unidos, ela aponta que os países mais afetados pela taxação serão aqueles que têm um grande déficit comercial e uma grande diferença de tarifas em relação à economia americana, como China, México e Índia. “Para esses países, acreditamos que o risco é relativamente elevado de que possamos começar, pelo menos, com uma tarifa alta, sendo imposta. Pelo que ouvimos até agora, pensamos em 20% ou 25%.”
Já os países que não têm muito déficit comercial com os EUA, nem grandes diferenciais de tarifas, como Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, provavelmente terão taxas baixas ou até mesmo nenhuma mudança.
[No Brasil], o BC está acalmando as coisas para que a inflação se comporte bem”
Para um outro grupo que está no meio do caminho, no qual se encaixa o Brasil, a equipe de investimentos do Lombard Odier pondera que as tarifas tendem a ser menos agressivas. “Podemos muito bem imaginar que acabemos com uma tarifa média, com algo entre 10% e 15%, que poderia ser um cenário realista”, diz Hechler-Fayd’herbe. “Os EUA têm um superávit em relação ao Brasil, pelo menos no comércio de bens, mas há uma diferença tarifária que é relativamente grande em comparação com outros países.”
Na visão dela, o impacto das tarifas americanas sobre a economia brasileira deve ser então “relativamente pequeno”. Mas os investidores têm questões locais com as quais lidar. “No Brasil há algumas condições domésticas. Por exemplo, a inflação que veio da fraqueza da moeda é que está realmente levando o Banco Central aqui a apertar a política monetária. Então, também não estamos esperando um crescimento superforte em 2025 porque o BC está acalmando as coisas para que a inflação se comporte bem.”
De qualquer forma, a executiva avalia que o ambiente econômico é bom no Brasil, apesar de o setor corporativo sempre estar às voltas com um custo de capital elevado. Por isso, ela não vê a bolsa atrair fluxo novo, pelo menos localmente. “Para um investidor brasileiro, que está olhando apenas para esse espectro, é muito difícil superar algumas dessas excelentes taxas de juros que está recebendo. Em termos reais, ele está sendo muito bem compensado para manter alguma renda fixa em moeda local.”
Nos Estados Unidos, depois de o fenômeno chinês DeepSeek balançar a tese da inteligência artificial dominada pelas gigantes americanas de tecnologia, a CIO afirma que as ações do setor podem não apresentar o forte desempenho dos últimos anos, mas é de se esperar ainda resultados atrativos nas temporadas de balanços. A tendência, agora, é a inovação se tornar mais acessível e se espalhar outras companhias.
“Achamos que agora essa fase de aplicação [da inteligência artificial] vai ser acelerada. Essa é uma maneira longa e sinuosa de dizer que continuamos a pensar que o setor de tecnologia é um setor a ser mantido como parte das principais participações acionárias [na carteira].”
Para os demais setores, Hechler-Fayd’herbe diz que algumas das novas políticas de Trump, combinando as restrições comerciais com incentivos tributários e o fiscal, acabarão tendo impacto tanto nas margens quanto nos lucros das companhias.
“Gostamos de ter uma exposição acionária muito bem diversificada. Exatamente pelo que estamos vivenciando agora nos EUA, pode haver um mercado muito bom por algum tempo. Está havendo novos impulsos políticos que estão mudando completamente o cenário para alguns setores.”
Fonte: Valor Econômico
