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Lucas Assis: próximos presidentes enfrentarão dificuldades para andamento de agenda econômica — Foto: Claudio Belli/Valor
A massa de renda total dos domicílios brasileiros e a renda disponível para consumo devem crescer de forma contínua em um horizonte de dez anos, até 2034, mostra um estudo da Tendências Consultoria. O ritmo, no entanto, deve ser diferente daquele observado nos últimos anos, impulsionado pelo aumento das transferências sociais na pandemia – que se mantiveram em patamar elevado – e pelo juro alto, que favorece os rendimentos financeiros.
A expectativa da consultoria é que o consumo no país acompanhe essa trajetória de expansão, com destaque para algumas tendências de longo prazo, como aumento menor em regiões de maior presença do setor público, seja o Distrito Federal, seja em cidades de pequeno e médio porte; e continuidade da importância do varejo eletrônico.
O estudo reflete o cenário básico da consultoria, com 65% de chances de realização, e é parte de um acompanhamento regular da renda dos domicílios brasileiros como base para análises de consumo, desigualdades e diferenças regionais. A edição mais recente do estudo Classes de Renda e Consumo no Brasil se refere ao período de 2024 a 2034.
O economista e associado sênior da Tendências Lucas Assis explica que este cenário considera desaceleração das principais economias mundiais nos próximos anos, com ciclo gradual de redução de juros. Há também impactos moderados das tensões geopolíticas e de medidas protecionistas no Brasil.
No Brasil, a leitura é de uma dificuldade de andamento da agenda econômica, pela dificuldade de popularidade da Presidência, seja de qual for o espectro político: “Nossa visão é de que não haverá popularidade presidencial ilimitada nos próximos anos, o que inibe o grau de coesão do governo e dificulta o andamento da agenda econômica. Isso sem relação direta com um ou outro candidato”.
As projeções da consultoria são de alta de 4% por ano da massa de renda total no país entre 2024 e 2028, puxada pelo desempenho de 2024 (6,7%). Entre 2029 e 2034, esse ritmo cai para 3,5%. No caso da renda disponível, o aumento médio esperado é de 4,4% entre 2024 e 2028 e de 3,9% entre 2029 e 2034.
A massa de renda total dos domicílios inclui recursos do trabalho, mas também de outras origens, como programas sociais, Previdência e ativos financeiros. O peso de cada uma dessas fontes depende principalmente da classe de renda dessas famílias.
A renda disponível, por sua vez, é a parcela do orçamento médio das famílias que sobra para consumo de bens, após os gastos com os itens essenciais, como alimentação, habitação, transporte e saúde.
Economista-chefe do G5 Partners, Luis Otávio Leal vê com cautela uma perspectiva de crescimento contínuo da economia e, por consequência, do consumo nos próximos anos. Na sua avaliação, o Brasil ainda não fez “o dever de casa de forma suficiente” para garantir crescimento de 2,5% a 3% de forma contínua e o “crescimento tende a ser mais acidentado”.
“A probabilidade maior é que o país continue com voos de galinha, o crescimento bate na parede em algum momento. Quando se tenta uma marcha forçada na economia brasileira, vem uma ressaca”, afirma.
A dinâmica política, diz Leal, permanece como uma influência negativa para a economia e as reformas estruturantes em geral “só são feitas a fórceps”: “Enquanto a gente não resolver algumas idiossincrasias, como 90% do Orçamento público ser engessado e termos R$ 50 bilhões em emendas parlamentares… Enquanto não tiver reforma fiscal e política, a economia vai continuar no rame-rame”.
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Conselheiro de empresas e fundador da Varese Retail, Alberto Serrentino afirma que o Brasil vive hoje uma retomada de consumo mais estruturada e consistente do consumo, mas que ainda não se pode avaliar que será sustentável para os próximos anos:
“Os juros se tornaram o maior obstáculo de uma retomada mais consistente do consumo e do varejo como um todo. E é essa a variável que precisa voltar a convergir com outras para ter crescimento mais sustentável”.
Hoje, diz Serrentino, é a única das quatro principais alavancas para o comportamento do consumo que destoa. “Os fundamentos macroeconômicos são importantíssimos, há discussão forte sobre a situação fiscal. Mas o consumo é mais pautado por curto que por longo prazo. É preciso, basicamente, evolução consistente de renda, massa salarial, confiança e crédito. O que está faltando é o crédito.”
Como contraponto ao cenário básico, a Tendências Consultoria vê 25% de um cenário pessimista e 10% de uma perspectiva mais positiva para o longo prazo. No panorama pessimista, há uma piora mais abrupta das grandes economias, inclusive a americana, além do pouso forçado da China e taxas de juros de juros mais elevadas no médio prazo. No Brasil, permanecem os principais gatilhos: aumento da percepção de risco pelo insucesso do governo na agenda fiscal, mas há “mudanças mais dramáticas na política econômica”.
Fonte: Valor Econômico

