O real teve em 2026 um desempenho superior ao de outras moedas emergentes, mas os fatores que sustentaram essa valorização começam a perder força, avalia o Bradesco Private em relatório semanal divulgado nesta sexta-feira (2). Segundo o banco, a combinação de juros domésticos elevados, alta do petróleo e baixa volatilidade nos mercados internacionais, que favoreceu a moeda ao longo do ano, tende a se tornar menos benigna daqui em diante.
Em termos relativos, o real acumula ganho de 7,4% frente a uma cesta de moedas emergentes no ano. O pico da performance relativa foi atingido em maio, com 9,6%, seguido de uma correção até 4,4% em junho, antes da retomada observada a partir do segundo semestre.
No cenário externo, o relatório destaca que a resiliência da atividade econômica americana, aliada a uma inflação persistente, levou o Federal Reserve a elevar os juros em sua última decisão. Juros mais altos nos EUA aumentam a atratividade dos ativos em dólar e reduzem o incentivo para que investidores assumam risco em outros mercados, o que tende a fortalecer a moeda americana globalmente.
De acordo com o Bradesco Private, a baixa volatilidade cambial ao longo do ano beneficiou países com juros elevados, como o Brasil, ao estimular o carry trade — estratégia em que o investidor capta recursos em moedas com juros baixos para aplicá-los em moedas que oferecem rendimentos maiores. A operação é mais atrativa quando as oscilações do câmbio são limitadas, já que uma desvalorização da moeda de destino pode anular o ganho obtido com o diferencial de juros.
Além do diferencial de juros, a valorização do petróleo melhorou os termos de troca do Brasil, ao elevar o valor das exportações em relação às importações. A percepção de risco doméstico, ligada ao cenário eleitoral, também influenciou a intensidade dos movimentos do real, segundo o banco.
Para os próximos meses, porém, o relatório aponta que essa combinação deve se deteriorar. O diferencial de juros tende a diminuir à medida que o Banco Central do Brasil reduz a Selic, enquanto o Fed entrega novas altas. Ao mesmo tempo, a recuperação das rotas de exportação dos países do Golfo pode pressionar os preços do petróleo para baixo. A alta dos juros internacionais também deve elevar a volatilidade, reduzindo o apelo do carry trade.
Diante desse quadro, o Bradesco Private reforça a importância da diversificação internacional. Com o real relativamente valorizado e os juros dos títulos corporativos americanos com grau de investimento (IG) em níveis elevados — próximos de 5,6%, após partirem da casa de 4,2% no início de 2026 —, o banco vê uma combinação muito interessante para ampliar a parcela de ativos em moeda estrangeira nas carteiras. Para a instituição, essa alocação vai além de uma aposta direcional: funciona como proteção contra uma deterioração adicional do ambiente externo e reduz a dependência dos portfólios em relação à percepção de risco local.


Fonte: Bradesco Private — Weekly Highlights, “Real: cenário externo mais desafiador” (2 de outubro de 2026)


