Depois de ficar bastante pressionado nos últimos dias, o real voltou a engatar uma alta mais consistente na sessão de ontem. Perto do fim do pregão, a divisa brasileira estava entre as quatro moedas com melhor desempenho frente ao dólar, da relação das 33 moedas mais líquidas acompanhadas pelo Valor.
O diferencial das taxas de juros entre Brasil e Estados Unidos se ampliou no pregão de ontem, com o recuo nos rendimentos dos Treasuries (títulos do Tesouro americano) e avanço nos juros locais. A forte subida nos preços do petróleo e a perspectiva de anúncio de medidas fiscais também ajudaram a dar suporte para o desempenho da moeda brasileira frente à divisa americana. O dólar à vista encerrou a sessão em queda de 0,74%, cotado a R$ 5,7469.
A precificação de uma Selic mais elevada ao longo do atual ciclo de aperto monetário do Banco Central fez a curva de juros local fechar em alta, com pressão concentrada nos vértices curtos.
Instituições financeiras como Itaú e banco Daycoval também aderiram à expectativa de nova aceleração do ritmo de alta da Selic na reunião de dezembro do Comitê de Política Monetária (Copom). O mercado de opções digitais de Copom mostrava chance maior de alta mais agressiva, de 0,75 ponto da Selic, de 53% na máxima da sessão, contra 40% para a manutenção do ritmo de 0,5 ponto. Essa é a maior diferença a favor do ritmo de aperto mais forte desde o último encontro do colegiado há pouco menos de duas semanas.
Ao fim da sessão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2026 anotou forte alta de 13,18%, do ajuste anterior, para 13,305%; e a do DI de janeiro de 2029 avançou de 13,03% a 13,07%.
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Já o Ibovespa encerrou a sessão estável, com leve recuo de 0,02%, aos 127.768 pontos. O impulso positivo de PetrobrasCotação de Petrobras e Vale ajudou a limitar as perdas, mas não foi suficiente para fazer o índice terminar o dia no campo positivo.
As ações PN da petroleira encerraram o pregão com alta de 2,50% a R$ 38,20, enquanto as ONs avançaram 2,57% a R$ 41,55. A forte subida ocorreu depois de a petroleira divulgar um esclarecimento sobre o seu plano de investimentos de 2025 a 2029. No documento, a companhia adiantou que os investimentos totais do plano serão de US$ 111 bilhões e que há a flexibilidade para pagamentos extraordinários de até US$ 10 bilhões no período, o que agradou analistas.
A grande dúvida agora reside no momento em que os proventos serão pagos. O cogestor do fundo de ação da RPS Capital, Thalles Franco, espera que a PetrobrasCotação de Petrobras pague US$ 3,5 bilhões agora e uma parte relevante no começo do ano que vem. “Quanto antes vier, melhor para a equipe econômica, porque ajuda bastante o fiscal. Não vejo por que ficar retendo o capital.”
Sem novas sinalizações do pacote de corte de gastos, investidores permanecem atentos a eventuais notícias sobre o desenho e a magnitude das medidas. Um dos pontos que chamam a atenção de agentes financeiros é o aumento do volume de compra de opções de Ibovespa para dezembro nos últimos dias.
“Compramos um pouco desse ‘call’. Se o Fernando Haddad vier com um plano de corte de gastos que agrade, vemos ‘upside’ [valorização] para a bolsa. Pode ser que seja esse o ‘trigger’ [gatilho]”, diz o gestor da RPS Capital. Ao adotar esse tipo de estratégia, o investidor ganha exposição se o índice subir e perde apenas o prêmio se o Ibovespa cair.
Questões domésticas também podem ter ajudado o real a se recuperar na sessão de ontem. “Provavelmente tem relação com a expectativa em torno do pacote fiscal que está para ser anunciado ao longo desta semana”, diz. “O mercado pode estar se antecipando a esse pacote”, disse a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.
Na esteira da deterioração das expectativas do mercado, o Itaú realizou uma ampla revisão das suas projeções macroeconômicas, conforme relatório assinado pelo economista-chefe, Mario Mesquita. Agora, o banco antevê a Selic em 13,5% ao fim de 2025, ante 11% na projeção anterior. Tal cenário, aliás, já inclui uma nova aceleração do ritmo de aperto monetário para 0,75 ponto percentual na próxima reunião do Copom.
Mesquita ressalta, contudo, que o anúncio das medidas de corte de gastos, se forem mais “ambiciosas”, pode resultar em uma “redução significativa do prêmio de risco” e, assim, levar a um ciclo menor de aumento da Selic e a cortes de juros entre o segundo semestre de 2025 e o começo de 2026.
Da mesma forma, o Daycoval alterou a sua projeção e avalia que o BC terá de subir a Selic em 0,75 ponto no mês que vem. Ao fim do ciclo, os juros básicos chegarão a 13,25%, patamar que será mantido até o fim de 2025, projeta o economista-chefe do banco, Rafael Cardoso.
Já na cena externa, em meio às incertezas relacionadas à escolha dos nomes para cargos do governo de Donald Trump, as ações em Nova York encerraram o dia sem direção única. Com o ligeiro recuo nos rendimentos dos Treasuries, papéis ligados à tecnologia exibiram força na sessão, bem como o setor de energia do S&P 500, que recebeu impulso dos ganhos do petróleo e do aumento dos receios de uma intensificação da guerra entre a Rússia e a Ucrânia.
Em Wall Street, o Nasdaq e o S&P 500 subiram 0,60% e 0,39%, nessa ordem, enquanto o Dow Jones recuou 0,13%. Já o índice DXY, que mede a força do dólar frente a uma cesta de seis moedas principais, recuava 0,45% perto do horário de fechamento do mercado local.
Fonte: Valor Econômico
