Por Júlia Lewgoy, Valor Investe — São Paulo
17/07/2023 06h41 Atualizado há 59 minutos
O primeiro semestre não foi um bom momento para a classe de fundos multimercados em geral. Boa parte dos gestores não alocou muito em ações e câmbio, além do próprio CDI, os ativos que acabaram tendo melhor desempenho no período. A maioria dos investidores profissionais apostou numa alta maior de juros nos EUA e do petróleo, e na baixa das bolsas no exterior, o que acabou frustrando a performance.
Após um 2022 de bons retornos, boa parte desses produtos rendeu de janeiro a junho abaixo do CDI, indicador de referência para os investimentos em geral no país. Foi o caso até mesmo de fundos multimercados de gestoras renomadas, como Verde e SPX.
O Índice de Hedge Funds Anbima (IHFA), indicador de referência dessa classe, avançou somente 2,46% nos primeiros seis meses deste ano, bem menos do que o CDI, que subiu 6,50% nesse intervalo.
Não à toa, a classe registrou resgate líquido, descontando as aplicações, de R$ 53,6 bilhões no primeiro semestre. Os cotistas fugiram porque, com a alta de juros básicos, acharam um porto seguro na renda fixa, especialmente em títulos isentos de Imposto de Renda, como debêntures incentivadas e letras de crédito do agronegócio e imobiliário (LCA e LCI).
Contudo, como sempre, alguns fundos multimercados chamaram a atenção. Os rendimentos alcançaram ao redor de 16% ao ano, bem maior que o CDI, em produtos de casas como Mapfre e Vinci Partners, conforme um estudo elaborado por Marcelo d’Agosto, consultor financeiro responsável pelo Guia de Fundos do Valor e blogueiro do Valor Investe, com base em dados da plataforma Morningstar.
Fundos multimercados mais rentáveis no 1º semestre

*Os fundos da lista estão efetivamente disponíveis para os investidores em bancos e corretoras de investimentos e possuem histórico de pelo menos 12 meses, patrimônio líquido acima de R$ 50 milhões e pelo menos 100 cotistas. Fundos espelhos, que espelham outros fundos de investimentos, foram excluídos dos rankings.
Esses multimercados, é bom lembrar, são produtos que podem apostar em altas e baixas de ações, câmbio, commodities e juros, no Brasil e no exterior. E até os melhores podem ter altas e baixas acentuadas, o que é importante para o investidor mais conservador ponderar na hora de escolher entrar.
E embora este ranking de hoje seja sobre o retorno do semestre, para explicar aos leitores o que aconteceu no período, a recomendação é que os desempenhos dos produtos sejam avaliados em janelas mais longas.
“Um semestre ruim não inviabiliza a tese de investir na classe. Nenhum investimento funciona sempre e nenhum gestor acerta sempre. Para quem faz o dever de casa na escolha de gestoras, não há nada a temer”, afirma Luiz Felippo, analista de fundos e sócio da casa de análise de investimentos Nord Research. “Seguimos gostando da classe e aconselhamos focar em janelas de três anos para analisar fundos multimercados”, diz.
Para ele, ainda que o semestre tenha sido ruim, os fundos multimercados continuam sendo uma boa alternativa para começar a investir em renda variável e diversificar os investimentos, especialmente diante da expectativa de começo de cortes de juros em agosto.
O diferencial dos melhores
Os poucos gestores que acertaram a mão no primeiro semestre de 2023, em geral, carregavam mais risco no Brasil e se beneficiaram da alta das ações brasileiras. O Ibovespa andou 8% no primeiro semestre e 9% em junho, o melhor mês desde novembro de 2020. As expectativas melhoraram com a desaceleração da inflação, a redução do risco fiscal e do ruído político e a manutenção da meta de inflação em 3% até 2026.
Além disso, os raros investidores profissionais que caminharam bem não apostaram na alta de juros e na baixa das bolsas nos Estados Unidos, ao contrário de boa parte dos gestores. A maioria esperava uma recessão e uma performance negativa das ações americanas, mas a economia dos EUA se mostrou robusta. O indicador S&P 500 ganhou 16% no primeiro semestre, enquanto o índice Nasdaq subiu 39% nesse período.
O que fizeram os líderes
A gestora Mapfre, dona do fundo multimercado mais rentável do primeiro semestre, acertou alocando em ativos brasileiros e não se expondo ao exterior. A casa comprou ações, títulos atrelados à inflação e títulos prefixados. As ações eram metade “small caps”, de companhias com menor valor de mercado, mais expostas à economia local e sensíveis aos juros. Com a expectativa de crescimento da economia e juros em queda nos próximos meses, esses papéis se valorizaram.
“Muitos gestores preferiram não tomar risco no Brasil, mas nós tomamos. As ações estavam absurdamente baratas, apesar da grande incerteza, e ainda esperamos que elas trarão o retorno maior daqui em diante”, afirma Carlos Eduardo Eichhorn, diretor de gestão de recursos da Mapfre Investimentos. “Entramos e saímos de muitos papéis”, diz.
A aposta em ações continua forte, mas a feita em títulos atrelados à inflação e prefixados diminuiu um pouco. “Achamos que o ambiente econômico vai melhorar e que os investidores retornarão para a renda variável”, acrescenta.
A gestora AZ Quest, dona de alguns dos melhores fundos multimercado do primeiro semestre, se deu bem com ativos brasileiros também. “Muitos gestores afirmavam que o Brasil estava difícil e operaram no mercado externo neste ano, mas achávamos que o Brasil tinha negócios para colocar em prática”, afirma Marco Mecchi, sócio e responsável pela área de macro e renda fixa da AZ Quest.
Ele acha que os ativos estavam baratos porque estava embutido nos preços um risco fiscal exageradamente alto. “O Lula não foi um desastre no lado fiscal e o mercado colocou nos preços um risco muito maior do que achávamos que o governo dele seria”, diz. “Não estávamos tão pessimistas”, acrescenta.
A casa apostou inicialmente na alta do Ibovespa, do índice Small Cap e do real ante o dólar e, depois, apostou no corte de juros por meio de contratos futuros e opções (contratos que dão direito de comprar ou de vender ativos por um determinado valor em uma data específica do futuro). A aposta em bolsa continua, mas agora a casa comprou também títulos atrelados à inflação.
No exterior, como boa parte das gestoras, a AZ Quest perdeu com bolsa americana, apostando que cairia. Depois, começou a apostar na baixa de juros nos Estados Unidos, esperando que eles cairão em algum momento.
Fundos long & short
Alguns fundos multimercados com estratégias long & short chamaram a atenção também, com rendimentos de até 19% no primeiro semestre. Os gestores desses produtos escolhem pares de ações, que podem depender do mesmo cenário ou ser do mesmo setor, por exemplo.
Fundos long & short mais rentáveis do 1º semestre

Os gestores esperam que as ações compradas tenham desempenho relativo melhor do que as vendidas, para ganhar com essa diferença. De um jeito simplificado, em um cenário de alta, a aposta é que os papéis “comprados” subam mais que os “vendidos”, ou, em um mercado de baixa, que eles caiam menos.
Uma das gestoras que se destacou com um fundo long & short foi a Real Investor. Cesar Paiva, sócio-fundador e gestor da Real Investor, afirma que algumas ações estavam baratas demais e a casa acreditava no seu potencial, especialmente Neoenergia, de energia, Aliansce Sonae, de shopping, e Porto Seguro, de seguros. Algumas companhias de autopeças, como Mahle Metal Leve e Tupy, também estavam na carteira.
“Ajudou estarmos mais posicionados em empresas que dependem do mercado interno brasileiro e vemos espaço para mais alta”, afirma Paiva. Em contrapartida, a gestora apostou na baixa do Ibovespa. “A ideia é que a nossa carteira comprada ande melhor que o Ibovespa, composto por companhias maiores e mais líquidas, mas que não necessariamente são as melhores oportunidades. O índice não é um bom termômetro para estar investido”, diz o gestor.
Como escolher bons gestores
Um bom jeito de escolher gestores que conseguem entregar retornos altos e consistentes ao longo dos anos é analisar como o fundo de investimento se comportou durante diferentes momentos do mercado no passado e onde os profissionais trabalharam.
Casas com mais idade e volume de recursos sob gestão, acima de alguns bilhões, contam com mais confiança do mercado. Além disso, é um bom indicativo se a gestora possui um grande número de pessoas, que trabalham lá desde o começo.
Muitos fundos multimercados estão fechados para receber investimentos, porque os gestores acreditam que não têm condições de gerir mais recursos. Contudo, alguns abrem eventualmente e são oferecidos pelas plataformas de investimentos.
Além disso, muitos fundos multimercados correm mais riscos e, por isso, tendem a ser mais voláteis, mas às vezes as gestoras têm produtos parecidos que correm menos riscos e tendem a ser menos voláteis. É recomendado escolher o que mais combina com o seu perfil e objetivos.
Fonte: Valor Investe