O alívio relevante no preço do petróleo no mercado internacional, que ronda os níveis vistos antes do início da guerra no Irã, podem não se traduzir em um espaço muito maior para flexibilizar a política monetária. Tanto no mercado de juros quanto nas opções digitais e nas expectativas de economistas de importantes instituições financeiras, a avaliação majoritária aponta para chances remotas de a Selic cair muito abaixo de 14% neste ano.
Desde meados de maio, a correlação entre o petróleo e o comportamento dos juros de curto prazo perdeu força e, no processo de precificação dos rumos da Selic, outros fatores começaram a emergir como possíveis contrapontos a uma queda mais intensa dos juros, como as expectativas de inflação desancoradas; a inflação de serviços elevada; e uma política mais expansionista no lado fiscal e de crédito, que tem provocado uma piora na percepção de risco.
É com base nesse ambiente que, apesar de o barril do petróleo ter caído de mais de US$ 100 para US$ 75, os juros de curto prazo seguiram em níveis elevados. E isso se dá mesmo com o petróleo abaixo das expectativas do próprio Banco Central (BC), que revelou, no Relatório de Política Monetária (RPM), que projetava o preço do óleo em US$ 85 no primeiro trimestre de 2027.
“A relação entre a curva de juros e o petróleo era muito forte e, de repente, ela começou a se perder. A curva se deslocou para cima e acho que isso mostra uma preocupação, de modo geral, com o impulso fiscal. O mercado, muito provavelmente, está precificando um impulso importante, que não deve permitir muito mais cortes”, observa o superintendente de pesquisa econômica do Itaú Unibanco, Fernando Gonçalves, ao notar que a autoridade monetária incluiu estímulos ao consumo no balanço de riscos, que, agora tem uma assimetria de alta para a inflação.
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O banco, em revisão de cenário publicada no fim de junho, fez uma revisão marginal em suas projeções para a taxa de juros e, agora, projeta somente mais uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, que, assim, terminaria o ano em 14%. “Vimos uma queda substancial do petróleo, mas o próprio Copom migrou para um discurso mais duro em relação à inflação, o que sugere um espaço para cortes bastante exíguo”, nota.
Gonçalves levanta um ponto adicional ao notar que o tombo sofrido pelo petróleo ajuda a reverter parte da valorização do câmbio, que compensa uma parcela do efeito desinflacionário. “Quando o petróleo subiu de preço, houve uma melhora na perspectiva comercial, com mais moeda estrangeira entrando no Brasil e, assim, o câmbio apreciou. Agora, com esse movimento se revertendo, a perspectiva é de que a balança não será tão boa quanto se esperava e, por isso, o preço do dólar fica mais alto. Existe um pouco de compensação, ainda que não seja completa.”
Na prática, na avaliação de Gonçalves, “fica um espaço menor para cortes nos juros”.
No mercado de opções digitais de Copom, a visão é semelhante. No encerramento da sessão de sexta-feira, a chance de uma redução de 0,25 ponto na Selic em agosto estava em 72%. Contudo, a continuidade do ciclo para além de agosto está longe de ser majoritária, mesmo com o alívio do petróleo. A probabilidade de manutenção dos juros em setembro, inclusive, ficou em 57% no fim da semana.
A queda do petróleo pode levar alguns participantes do mercado a uma revisão nas projeções para o IPCA, observa o economista Marco Antonio Caruso, do Santander. “É uma discussão que ganha corpo e que pode colocar um viés de baixa no curto prazo. Nós, por exemplo, reduzimos nosso IPCA projetado para o ano de 5,2% para 5%, em parte, por conta do petróleo”, diz o profissional. O banco espera mais dois cortes na Selic, em agosto e em setembro, o que levaria o juro básico a 13,75% no fim deste ano.
Para além dos preços do petróleo, segundo o economista, a sinalização emitida pelo Copom em suas últimas comunicações indica que o colegiado enxerga um cenário em que a política monetária já é muito restritiva.
“Toda essa engenharia de trazer discussões sobre cenários alternativos para a Selic me sugere que é um BC que, de fato, vê o tamanho do grau de aperto monetário como muito maior do que a média dos analistas. Se isso é verdade, há uma gordura. Ainda, usando algumas premissas conservadoras, como piora das expectativas do Focus e do câmbio, é possível chegar à projeção de 3,2% do primeiro trimestre de 2028 do BC [revelada no Relatório de Política Monetária] com esses 13,75%”, afirma Caruso.
A comunicação da autoridade monetária desde a última decisão do Copom continua a ser alvo de críticas por agentes de mercado, que veem, de forma implícita, uma preocupação maior com a atividade, e não com a inflação.
“Olhando o que está escrito no comunicado, toda a primeira parte é condizente com uma alta nos juros, e não com a queda. Ainda assim, o BC corta a Selic… No fim do dia, a justificativa do corte ficou muito ruim. Olhar para o primeiro trimestre de 2028 porque o modelo indicaria volatilidade muito abrupta nas variáveis macroeconômicas Não estamos falando em subir juros, mas em manter. Ficou uma sensação muito ruim de que, tecnicamente, o BC trouxe elementos para não cortar os juros e, ainda assim, cortou”, observa o economista-chefe da Oriz Partners, Marcos De Marchi.
Para ele, inclusive, caso o petróleo continue em queda, é possível que parte do mercado veja um espaço aberto para a continuidade do ciclo de flexibilização monetária em agosto. “Mas, desde o início do conflito, o governo tentou amenizar o máximo possível o repasse do petróleo para o consumidor. Até por isso, não parece que o nosso ganho no lado da inflação será tão significativo, ainda mais quando se compara o que acontece nos EUA, onde o repasse é praticamente automático”, diz o economista.
A Oriz ainda projeta a manutenção dos juros em 14,25%. De Marchi também dá ênfase à abertura da “boca de jacaré” entre o petróleo e os juros de curto prazo. “Isso é por causa das questões fiscais. Não tem como escapar.”
O economista, inclusive, observa alguns desenvolvimentos recentes e os classifica como negativos, em um sinal de que há pouco espaço para um alívio nos prêmios na ponta curta da curva de juros. Além de projetos que tramitam no Congresso Nacional e que apontam para mais gastos, o economista menciona a validação de operações de políticas públicas fora do Orçamento pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o que fragiliza adicionalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), e a renegociação da dívida do Rio de Janeiro com a União.
“O volume de notícias é muito ruim no lado das contas públicas. Meu cenário ainda é de Selic a 14,25%, ainda que a chance de mais um ajuste tenha aumentado por causa do petróleo”, diz. “Estamos em um dilema: vou projetar o meu ciclo baseado no que eu acho que tem de ser feito ou no que o BC indica que gostaria de fazer? Prefiro ficar com uma posição cautelosa.”
No Itaú, Gonçalves até acredita em algum alívio nas expectativas de curto prazo devido ao petróleo, mas ela não deve se espalhar para horizontes mais longos. “O impacto do petróleo na inflação de 2028 tende a ser menor. Quando olho para a desancoragem das expectativas de 2028, vejo o Focus tentando avaliar quão crível é o BC atingindo a meta. O fato de ter havido uma subida recentemente é sinal de que o mercado vê que é menos crível chegar perto da meta.”
Para Gonçalves, há uma questão de credibilidade que surge “e que tem a ver com a percepção de uma política fiscal muito expansionista neste momento, que sinaliza que é difícil fazer o ajuste necessário”. O economista, nesse sentido, acredita que o mercado tem enxergado uma situação de ajuste fiscal mais difícil e que isso levanta a ideia de uma inflação pressionada e de um BC com dificuldade de cumprir o mandato. “Essas expectativas não vão cair sem uma melhora fiscal, o que não vai acontecer tão cedo.”
Fonte: Valor Econômico

