Por Lucianne Carneiro e Alessandra Saraiva — Do Rio
13/06/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
A combinação de uma retomada do mercado de trabalho via postos de trabalho informais, a alta da inflação e a mudança no formato do auxílio emergencial fez a renda dos brasileiros cair pela segunda vez em 2021. Com isso, o valor chegou ao menor nível desde 2012, o início da série histórica da pesquisa Rendimento de Todas as Fontes, produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Todas as faixas de renda tiveram redução no ano passado, mas as quedas foram mais intensas entre as famílias mais vulneráveis.
Depois de uma queda de 4,3% em 2020 puxada pela pandemia de covid-19, o indicador acentuou a intensidade da perda para 6,9% em 2021. Com isso, atingiu R$ 1.353, o menor da série da pesquisa. O valor é também 4,5% inferior ao que era registrado nove anos antes, em 2012, de R$ 1.417 (a preços de 2021).
No grupo dos 5% mais pobres, o ano passado foi de queda de 33,9% da renda domiciliar mensal real per capita ante 2020, para R$ 39 por mês. O grupo seguinte, que se encontra entre os 5% e 10% mais pobres, essa retração também foi acima dos 30% (31,8%), para R$ 148. Todos aqueles que se encontravam entre os 50% mais pobres tiveram queda de rendimento de dois dígitos, como aqueles no grupo de 10% a 20% com menos renda (-19,7%) e de 20% a 30% com menos renda (-16%).
À medida que se avança para os grupos de maior renda, essa perda anual foi menor. Entre as pessoas que estão entre 50% e 60% com maior rendimento, a retração foi de 9%, para R$ 926 por mês. Na outra ponta, no grupo do 1% mais ricos, esse ritmo de queda foi menor, de 6,4%, para R$ 15.940.
“O mercado de trabalho foi muito afetado no primeiro ano da pandemia. Quando se começou a flexibilizar a questão sanitária, o mercado voltou, mas com mais informais e rendimento menor. Além disso, existe o fator inflação, que afeta todos os domicílios, e também as mudanças do auxílio emergencial, que fizeram a renda do domicílio diminuir mesmo”, explica a analista do IBGE Alessandra Saraiva Brito.
Ela lembra que, em 2020, os valores das parcelas do auxílio emergencial eram maiores e elas foram pagas em mais meses e para um número maior de pessoas. “No ano passado, diminui-se o valor da parcela, houve menos parcelas e para menos gente. Esses domicílios que dependiam desse benefício tiveram em 2021 uma perda de renda que em 2020 o auxílio segurou”, diz.
Com esta dinâmica – com perdas maiores para os mais pobres -, a desigualdade da renda na população brasileira aumentou entre 2020 e 2021. No levantamento, para mensurar a trajetória da desigualdade por renda no país, o IBGE usa um indicador chamado índice de Gini, que vai de 0 a 1, sendo que, quanto mais próximo de zero, mais igualitária a distribuição de renda e, quanto mais distante de zero, maior a desigualdade. No ano passado, o índice de Gini para renda domiciliar per capita no país subiu para 0,544, ante 0,524 em 2020 e igual ao de 2019, ou seja, a evidenciar aumento da desigualdade, no período.
Todas as grandes regiões mostraram aumento de desigualdade de renda, na passagem de 2020 para 2021. No Norte, o indicador subiu de 0,495 para 0,528; no Nordeste, aumentou de 0,526 para 0,556. No Centro-Oeste, por sua vez, avançou de 0,496 para 0,514 e, no Sudeste, passou de 0,517 para 0,533. Já na região Sul teve alta de 0,457 para 0,462.
Outra forma de ver o aumento da concentração de renda no país é o fato é de que o rendimento médio do grupo do 1% mais ricos do país era 38,4 vezes maior que o rendimento médio dos 50% que ganham menos em 2021. Essa diferença piorou em relação a 2020. Naquele ano, o primeiro da pandemia, o rendimento médio mensal das pessoas do grupo de 1% com melhor rendimento correspondia a 34,8 vezes o rendimento dos 50% com os menores rendimentos.
Fonte: Valor Econômico
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