Por Roberto Lameirinhas — De São Paulo
12/01/2024 05h00 · Atualizado há 4 hora
Exceto por alguma surpresa judicial que os analistas consideram uma possibilidade ainda remota, as eleições primárias americanas – que começam com as prévias republicanas de Iowa, nesta segunda-feira – devem ser definidas em menos tempo do que costuma ocorrer.
O presidente Joe Biden está sem desafiantes para tentar a reeleição pelo Partido Democrata e seu antecessor, Donald Trump, está tão à frente nas pesquisas que deve definir sua indicação na chapa republicana já nas primeiras prévias. O processo republicano também chega à primeira prévia com um número esvaziado de pré-candidatos com alguma chance de vitória: depois de Trump, que aparece nas pesquisas com quase 62% das preferências, somente o governador da Flórida, Ron DeSantis, com 11,7%, e a ex-embaixadora na ONU Nick Haley, com 11,2%, são considerados competitivos.
Com isso, Trump e Biden reúnem a maior probabilidade de votarem a se enfrentar na eleição de 5 de novembro.
“Só o que vejo de diferente nas primárias deste ano em relação a todas as outras é que ela deve ter uma das definições mais rápidas da história”, disse Alexander Keyssar, professor de ciências sociais da Universidade Harvard e especialista em eleições dos EUA da Kennedy School. “Parece-me extremamente improvável que alguém, além de Trump, possa conquistar a indicação do Partido Republicano. Para ser mais exato, acredito que se Trump ganhar com folga as duas primeiras prévias – e ele deve ganhar -, a disputa já estará liquidada.”
Depois de Iowa, os republicanos votarão nas primárias de New Hampshire no dia 23 de janeiro. Se a previsão de Keyssar estiver correta, a disputa do partido estará resolvida em apenas oito dias.
A disputa pelo lado democrata será apenas uma formalidade. Pela praxe dos dois partidos, presidentes candidatos à reeleição não são desafiados na disputa pela indicação. Biden, de 81 anos, e Trump, que terá 78 em novembro, estarão entre os políticos mais idosos a disputar a presidência, sugerindo pouca renovação na política dos EUA.
E, visto da ótica das eleições legislativas de 2022 – que dividiu a Câmara em 222 republicanos e 213 democratas; e o Senado, em 51 democratas e 49 republicanos – alguns analistas políticos veem sinais de polarização entre conservadores e progresssistas.
Mas Keyssar tem uma visão menos definitiva destas teses. “Embora eu não tenha muitos elementos para assegurar que uma renovação esteja ocorrendo, há muita coisa acontecendo nos Estados”, afirma o professor. “Democratas progressistas estão onde sempre estiveram e continuam emergindo em vários Estados a partir de uma geração mais jovem e com uma mentalidade mais distante da Guerra Fria”, disse o analista. “Enquanto isso, entre os republicanos há uma tomada do partido por facções pró-Trump – mas que agora estão encontrando alguma resistência.”
“Eu diria que não temos exatamente uma polarização da política, mas um afastamento entre os polos já tradicionais. Ou seja, o Partido Democrata não mudou em termos ideológicos. Os republicanos é que se moveram muito para a direita”, afirmou Keyssar.
Trump se tornou praticamente imbatível no Partido Republicano, dizem os analistas, justamente pelo mérito de ter se infiltrado na estrutura partidária, confrontar as antigas elites partidárias e apropriar-se das agendas do movimento, tornando-as mais radicais.
Para o brasileiro Carlos Gustavo Poggio, especialista em estudos internacionais e professor associado do Berea College, de Kentucky, o sistema eleitoral americano, que na prática é formado por 50 regras diferentes em cada um dos 50 Estados foi desenhado para favorecer as cúpulas partidárias – sobretudo a dos dois partidos dominantes. “É um sistema que exige que as candidaturas tenham muitos recursos e muita estrutura para que sejam competitivas, algo que em geral favorece que as decisões sejam tomadas pelas elites e seguidas pela base”, afirmou Poggio. “Trump conseguiu quebrar essa regra, usando um discurso mais fácil para se apropriar do partido de baixo para cima”, disse.
“Trump capturou a preferência dos filiados do partido, a despeito da vontade e da resistência da cúpula. E essa resistência ainda existe hoje, mas ele se tornou muito popular na base”, disse Poggio.
O analista lembra ainda que Trump tem avançado até mesmo entre o eleitorado mais cativo do Partido Democrata. “O que as pesquisas têm mostrado é que Biden tem perdido apoio entre setores importantes do eleitorado especificamente entre os afro-americanos e latinos”, afirma. “Na verdade, se as sondagens estiverem corretas, Trump pode ser o candidato republicano com maior parcela de votos entre negros e latinos das últimas décadas”, disse.
“Embaladas por um discurso muitas vezes marcado pelo simplismo de ideias e por muita desinformação, as pessoas não querem tomar vacinas, não querem aborto, não querem mais imigrantes”, diz Peter Hakim, presidente emérito do centro de estudos de Washington Inter-American Dialogue. “Essas crenças se arraigaram nos últimos anos nos EUA, alavancando políticos como o ex-presidente Trump e seus aliados”, afirma.
A partir de seu movimento de combate à cultura “woke” – uma gíria que significa “acordado” em inglês e descreve alguém com consciência sobre questões raciais e sociais -, partidários de Trump lançaram-se às críticas às políticas identitárias, ao “globalismo” que se opõe aos esforços nacionalistas e às políticas sociais custeadas pelo Estado. “Na visão dos entusiastas desse movimento trumpista, qualquer indivíduo que não se enquadre nestas convicções é um entusiasta do socialismo”, disse Hakim.
Neste contexto, estão enquadrados Biden e todo o restante dos democratas, indica o analista. “Mesmo que isso não corresponda à realidade, a construção dessa visão de mundo se espalha nas redes sociais da internet e se consolida entre a sociedade”, afirma.
“Pelo menos 25% da população americana hoje acreditam que houve fraude nas eleições de 2022, vencidas por Biden”, exemplifica Hakim. “E é difícil entender por que a aprovação do presidente tem caído tanto, mesmo quando os indicadores econômicos são de razoáveis para bom”, afirma.
Hakim crê que essa percepção negativa de sua gestão econômica pode ser uma grande dificuldade para Biden na eleição. “Mas há razões para crer que, nestes meses que faltam até novembro, o alívio sentido nos caixas de supermercado e postos de gasolina se torne um pouco mais perceptível e que isso favoreça o democrata.
Ameaça nos tribunais. Por outro lado, enquanto se sente seguro na disputa das eleições primárias, Trump enfrenta seu grande desafio nos tribunais dos EUA. “A lei americana é bastante condescendente em relação a direitos políticos e, a menos que a Suprema Corte indique isso explicitamente, não há impedimento para que o ex-presidente concorra a um novo mandato ainda que esteja preso por alguma das acusações que pesam sobre ele”, afirmou John Steel, diretor de um escritório de advogados especialista em questões eleitorais da cidade de Nova York.
Steel relata uma curiosidade em relação ao republicano. Como o domicílio eleitoral dele está estabelecido na Flórida e o Estado tem uma lei que cassa o direito de voto de condenados em processos criminais, Trump pode ser impedido de votar, apesar de poder receber votos em uma eleição federal.
O ex-presidente enfrenta 91 acusações criminais. E atribui todas elas a uma “perseguição” do governo democrata para impedir que ele retorne à Casa Branca.
As primeiras denúncias contra Trump chegaram aos tribunais em março do ano passado. O promotor federal de Nova York Alvin L. Bragg apresentou 34 acusações criminais contra Trump relacionadas ao que os promotores descreveram como um esquema de suborno pago com dinheiro de campanha para acobertar um escândalo sexual e abrir seu caminho para a presidência em 2016.
Já o primeiro caso federal surgiu em junho, como parte da investigação sobre a subtração de documentos oficiais que ele levou para sua mansão na Flórida depois de deixar o cargo em 2021. Somente neste caso, segundo levantamento do jornal “The New York Times”, Trump enfrenta 40 acusações criminais: 32 relacionadas à retenção de informações de defesa nacional, cinco relacionadas à ocultação da posse de documentos confidenciais, uma relacionada a declarações falsas e duas relacionadas a um esforço para excluir imagens de câmeras de segurança da mansão em Mar-a-Lago, onde ele guardou os documentos.
Em 1º de agosto, uma investigação especial concluiu que ele deveria ser indiciado pelos esforços para reverter sua derrota nas eleições de 2020. Em 6 de janeiro de 2021, numa tentativa de impedir que a vitória de Biden fosse proclamada oficialmente, seus seguidores invadiram o Congresso, na mais grave tentativa de insurreição contra um resultado eleitoral nos EUA em décadas.
Trump foi acusado de incitar a invasão do Congresso, que resultou em seis mortos.
No fim de 2023, a Suprema Corte do Colorado determinou que a “conspiração” de Trump para reverter o resultado da eleição o impedia de figurar nas cédulas para as primárias no Estado. O caso está agora na Suprema Corte dos EUA – que tem maioria conservadora. Mas em nenhum momento ao longo do período em que todas essas acusações foram apresentadas, a popularidade de Trump foi abalada.
Ontem, na audiência de um julgamento por irregularidades em suas empresas, em Nova York, Trump voltou a dizer que é vítima de perseguição por motivos políticos e que “deveria receber uma indenização pelo seu sofrimento”.
“Eles querem ter certeza de que eu não vencerei novamente. Isto é interferência eleitoral”, disse Trump num breve discurso no tribunal. “Não fiz nada de errado. Eles deveriam me pagar pelo que me fizeram passar.”
Trump foi repreendido pelo juiz do caso, que se dirigiu aos advogados dele com a recomendação: “Controlem seu cliente”.
Até mesmo seus adversários mais diretos pela indicação republicana evitam explorar os problemas judiciais de Trump. Um deputado do partido, sob condição de anonimato, explicou que DeSantis e Haley ainda alimentam a expectativa de substituir o ex-presidente na indicação do partido e não querem correr o risco de atacá-lo publicamente.
No último debate antes do caucus de Iowa, Haley fez menção de atacar Trump no início do programa, afirmando que o próximo presidente precisava de ter “clareza moral sobre os gastos com a Ucrânia e outros países para entender quando se está a lidar com ditadores no mundo” – o ex-presidente é contrário a ampliar o envio de ajuda ao país, invadido pela Rússia. Mas a ofensiva da ex-embaixadora ficou por aí.
Trump esnobou totalmente o debate. No mesmo horário, ele preferiu ir à Câmara Municipal de Des Moines, capital de Iowa, onde respondeu a perguntas dos eleitores presentes sobre tudo, desde a economia dos EUA até aos preços da energia e à segurança na fronteira entre os EUA e o México.
Em meio à pressão judicial contra Trump, republicanos ligados ao ex-presidente tentam ligar Biden a supostas irregularidades cometidas pelo filho dele, Hunter Biden, que tem um histórico de dependência de drogas e responde a acusações de porte ilegal de armas e tráfico de influência. Uma comissão da Câmara presidida pelos opositores abriram um inquérito na Casa contra o filho do presidente – o que, em tese, poderia abrir o caminho para um processo de impeachment.
Fonte: Valor Econômico
