Nem a ascensão da Ásia, nem as reviravoltas tarifárias americanas, nem as iniciativas russas para contornar sanções. Nada disso seria capaz de remover o dólar de sua posição hegemônica como moeda de reserva internacional, usada na grande maioria das transações comerciais e financeiras mundo afora.
Essa é a tese defendida por Paul Blustein em “King Dollar: The Past and Future of the World’s Dominant Currency” (Rei Dólar: o passado e o futuro da moeda dominante no mundo), livro que o jornalista Martin Wolf, do “Financial Times”, escolheu como um dos melhores de economia deste ano até agora.
Com 40 anos de carreira, Blustein foi repórter econômico dos jornais “The Wall Street Journal” e “The New York Times”. Em 1985, cobriu o “acordo do Plaza” entre os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha Ocidental, que inspira esforços do atual governo americano para reequilibrar a seu favor o comércio mundial. Desde então, publicou livros sobre a crise argentina de 2001, a grande crise financeira de 2008 e a Organização Mundial do Comércio.
Trump está destruindo os pilares do domínio do dólar, mas as alternativas são ruins
No trabalho mais recente, Blustein prevê uma grave crise se os EUA insistirem em reverter a ordem mundial baseada em regras, a ponto de os investidores exigirem prêmios de riscos muito mais altos dos títulos americanos. Mesmo se isso acontecer, no entanto, o dólar seguirá impávido: removê-lo de seu posto monárquico seria custoso, difícil e demorado.
Além disso, não há alternativas que animem os agentes do mercado. Nem o euro, com seu sistema financeiro fragmentado. Nem o iene, com a pouca liquidez de seu mercado de títulos. Nem os pequenos libra e franco suíço. E nem o renminbi, moeda da potência chinesa em ascensão: devido ao controle de capitais, os investidores evitam deter essa divisa.
A única coisa que poderia levar à substituição do dólar seriam “tropeços catastróficos”, segundo o autor do livro.
Valor: O sr. menciona as paralisações do governo, sempre que o teto da dívida é atingido, como prévias do caos que arruinaria a posição do dólar em caso de “tropeços catastróficos”. Como as medidas atuais se comparam aos tropeços?
Paul Blustein: Ainda temos um longo caminho a percorrer. Os tropeços… Meu Deus, na verdade são atos de sabotagem contra o sistema baseado em regras e o Estado de Direito! As tarifas são tão mal concebidas! Bem piores do que eu esperava. Mesmo assim, no futuro previsível, o dólar seguirá forte no aspecto mais importante: seu uso no comércio internacional, muito acima das outras moedas. Tirá-lo desse status será custoso, difícil e levará muito tempo, em parte porque faltam alternativas e, em parte, porque o dólar é muito arraigado na economia global.
Valor: O que resulta do ataque ao sistema baseado em regras?
Blustein: Pode levar a uma grave crise financeira, com a liquidação de títulos do Tesouro e a reprecificação do risco, com juros altos. O motivo mais provável seria a irresponsabilidade fiscal nos EUA. [O presidente Donald] Trump faz muita coisa errada, mas ele é poderoso. Seus caprichos podem ter consequências catastróficas. Se os investidores exigirem rendimentos maiores dos títulos do Tesouro, haverá uma crise financeira. Mas ela tiraria do dólar o papel de principal moeda no comércio, finanças e tudo mais? Não. A supremacia do dólar sobreviveu a Trump 1 e sobreviverá a Trump 2. Gostaria que isso não fosse verdade e Trump não tivesse o poder que o dólar lhe dá para intimidar outros países. Mas não adianta fingir que não é assim.
Valor: Os juros dos títulos do Tesouro têm subido. É o começo dessa crise?
Blustein: É provável que esses movimentos sejam consequência das ações de Trump. Se os investidores acham que a economia dos EUA será prejudicada pelas tarifas, pela piora das perspectivas fiscais e pela devastação das ciências e do ensino superior, por que não exigiriam um prêmio maior? Juros maiores na dívida do governo levam a taxas mais altas em todos os outros empréstimos da economia, não só nos EUA, mas também no resto do mundo, com consequências terríveis para a prosperidade. Os preços dos ativos despencariam. Mas isso significa que o dólar perderá o status de principal moeda no comércio internacional? Ou que os EUA perderiam a capacidade de usá-lo como arma? Acho que não. Mas quem sabe o que é “futuro previsível”?
Valor: É como a citação de Hemingway: a falência acontece aos poucos e então… de repente.
Blustein: A crise financeira poderia ocorrer aos poucos e depois de repente, mas não acho que o dólar perderá seu papel dominante. Tantas coisas teriam que acontecer para que outra moeda o substituísse!
Valor: O poder militar também desempenha um papel?
Blustein: Muitas pessoas usam esse argumento. Nunca entendi isso. Houve um tempo em que esse poder foi importante, nos anos 60. Os EUA pressionaram os alemães e os japoneses para não romperem o sistema de Bretton Woods. “Não troquem seus dólares por ouro. Nós os protegemos, sabiam?”
Valor: Os franceses fizeram isso.
Blustein: Sim, a França de De Gaulle enviou um navio a Nova York para buscar seu ouro. Isso preocupou o governo dos EUA, que gritou para os alemães: “Não!”. Mas era a Guerra Fria. Hoje, imagine a China obtendo vantagem militar. Suponha que haja uma guerra por Taiwan, curta e feroz, e eles vençam. Isso mudaria o status do dólar? Acho que não. Sim, países com tratados militares com os EUA, como os da Otan, tendem a ter a maior proporção de dólares nas reservas. Mas não acho que as reservas sejam um bom indicador da dominância do dólar.
Valor: Qual é um bom indicador?
Blustein: O maior deles está nos swaps cambiais, com os investidores privados, os maiores detentores de dinheiro: gestoras de ativos, fundos de hedge e pensão, seguradoras, bancos globais. O dólar domina esse mercado totalmente. Os maiores players do sistema financeiro global estão totalmente investidos no dólar: emprestando, investindo, negociando e se protegendo no mercado de swaps cambiais. Desfazer isso é bem difícil. Trump está destruindo os pilares do domínio do dólar. Parece que a cada dia ele pensa em mais um jeito de fazer isso. Mesmo assim, como as alternativas são ruins e o dólar está muito arraigado entre os maiores players, substituí-lo é quase inconcebível. Gostaria que não fosse, porque me preocupa Trump usar isso contra o Canadá, cortando o acesso dos cinco grandes bancos canadenses ao dólar.
Valor: Se acontecer com o Canadá, pode acontecer a qualquer um. Abandonar o dólar seria caro e lento, mas se o benefício for maior…
Blustein: Sim. Estamos dando incentivos para que outros países busquem alternativas. O problema não é que os governos não queiram fazê-lo. Muitos querem. Certamente os chineses, os russos, os iranianos e agora, de repente, os canadenses. Isso não significa que terão sucesso, porque são os mercados que decidem. Eles podem tentar facilitar a emergência de alternativas. Sou muito cético de que isso seja possível em um prazo realista. Acho péssimo, porque os EUA estão se tornando um perigo para o mundo.
Valor: Um perigo?
Blustein: Sim. E desejo que o resto do mundo tenha sucesso em se proteger. Mas não acho que faça sentido contornar o dólar. É melhor buscar maneiras de atacar os EUA de forma assimétrica. Para os chineses, isso seria cortar as exportações de terras raras. Os chineses têm vários meios de pressionar, devido à dependência de suas cadeias de suprimentos. Qualquer coisa que ameace derrubar os mercados americanos vai assustar Trump. Isso funciona. E deve ser feito.
Valor: O livro discute os benefícios e custos para os EUA de ter a moeda dominante. E há os extremos dessas visões. Um é a expressão de Giscard d’Estaing: “privilégio exorbitante”. E tem a ideia de “dominância como fardo”. Quanta verdade há nesses dois lados?
Blustein: Hoje, não considero nenhum deles convincente. Quando o termo “privilégio exorbitante” foi cunhado, em 1965, havia esse privilégio. O sistema de Bretton Woods estava vivo e todos tinham que ter dólares e emprestar dinheiro aos EUA. Uma vantagem que incomodava os franceses era que as empresas americanas pegavam os dólares e compravam empresas francesas. Na crise de 2008, o privilégio voltou a aparecer. Agora, não acho a vantagem tão clara. Os EUA não são o único país que pode ter grandes déficits comerciais e em conta corrente. Quanto ao fardo, não duvido que haja algum ônus. A taxa de câmbio é mais alta do que deveria. Mas será que é muito mais alta? O dólar tem estado forte nos últimos anos, mas também esteve fraco em vários momentos. [O vice-presidente] JD Vance e Stephen Moran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, acham que o dólar forte prejudica a indústria. Certamente ele afeta a capacidade de exportação, mas será que isso se deve à dominância do dólar? Acho que não.
Valor: O sr. comenta o poder de usar sanções e bloqueios, fazendo do dólar uma arma. Muitos pensam que o exagero pode levar outros países a contorná-lo. É uma possibilidade concreta?
Blustein: As sanções e a militarização do dólar são uma vantagem muito importante. Há alguma justiça poética na ideia de que os EUA estão militarizando o dólar em excesso e merecem perder a hegemonia. Mas não acho provável. Sim, estamos dando incentivos para que países ou governos busquem contornar o dólar. Até certo ponto, estão conseguindo. Mas isso não significa que conseguirão desbancá-lo. Enquanto o dólar for dominante, os bancos não podem se dar ao luxo de perder acesso a ele. Não estou dizendo que os EUA devam se sentir complacentes e usar a militarização sempre que quiserem. Isso pode ser ruim por vários motivos, mas não porque os países vão encontrar outras moedas.
Valor: O livro se abre com o sistema Chips [câmara de compensação americana para pagamentos internacionais]. Rússia e China estão contornando o Chips com o Cips, sistema desenvolvido na China. É um risco para o dólar?
Blustein: O Cips, como o Chips, realiza a transmissão de fundos. A diferença é que o que passa pelo Chips são dólares e o que passa pelo Cips são renminbi. Isto só vai ameaçar o dólar se o renminbi se tornar uma moeda internacional, o que poderia acontecer se a China abrisse sua conta de capital para permitir a livre circulação de dinheiro pelas fronteiras. Seria ótimo para o mundo, até para os EUA. Significaria que a China se tornou um país menos temível. Sem dúvida, os chineses estão conseguindo se tornar menos vulneráveis às sanções. Mas isso significa que o Cips será um sistema que todos os países podem usar para evitar o dólar? Não, porque as pessoas não querem usar o renminbi. Suas deficiências são muito evidentes.
Valor: Entre os Brics, parece ser um desejo bem concreto.
Blustein: Sim, consigo entender por que muitos países querem isso. Certamente entendo por que o governo brasileiro está interessado em pagamentos diretos. Mas as empresas e os bancos brasileiros estão? Ou bancos em todo o mundo? Há alguma evidência de que estejam se afastando do sistema do dólar? Acho que não, e quase infelizmente. Eu quase gostaria que simplesmente o fizessem.
Valor: O sr. cobriu o Acordo do Plaza em 1985. Há uma ideia no governo Trump de repeti-lo com um acordo de Mar-a-Lago. Já os chineses o estudam por seus efeitos na indústria japonesa. Quão semelhantes são esses dois momentos?
Blustein: É uma perspectiva altamente irrealista. Na época do Acordo do Plaza, os dois grandes países problemáticos eram a Alemanha Ocidental e o Japão, Estados clientes dos EUA em termos de aliança militar. Os japoneses temiam e ainda temem prejudicar a disposição dos EUA de fornecer o guarda-chuva nuclear. A China está em uma posição bem diferente. Sou cético em relação ao Acordo de Mar-a-Lago. Em primeiro lugar, não acho que os benefícios seriam tão grandes. Seria bom para a indústria americana se o dólar estivesse mais baixo? Sim. Faria uma grande diferença? Não. Vamos de repente fabricar iPhones nos EUA? Não.
Valor: E em segundo lugar?
Blustein: É muito arriscado. Estão falando, por exemplo, em forçar os países a comprar títulos americanos de longo prazo para financiar a proteção militar. Isso poderia causar uma enorme venda de ativos do Tesouro. Poderia ser a receita para a grande liquidação. Seria um calote efetivo, algo completamente antitético a como os mercados de valores mobiliários dos EUA funcionam e por que eles promovem o domínio do dólar. Os benefícios imaginados, como o renascimento da indústria, são grosseiramente exagerados.
Valor: Para onde apontam as negociações com o Reino Unido e a China?
Blustein: A da China foi basicamente um cessar-fogo. É um acordo? Meu Deus, é só um acerto para pararmos de nos dar marretadas. A do Reino Unido deixou tantos detalhes indefinidos! Essas coisas estão longe de serem acordos comerciais completos. Elas sugerem que a intimidação pode persuadir os parceiros a oferecer concessões atraentes para Trump, com benefícios marginais para a economia americana, como comprar equipamentos de defesa. Mas essas negociações prejudicam a previsibilidade, o maior benefício do sistema baseado em regras. Há investimento em fábricas, armazéns, distribuição, tudo que emprega pessoas, se as regras forem previsíveis. Alguns acordos podem parecer mutuamente benéficos, mas nunca saberemos quão destrutiva é a incerteza, porque não dá para medi-la. Não significa que o mundo entrará em depressão, mas seremos muito menos prósperos do que poderíamos.
Valor: A hegemonia do dólar, em tese, poderia nunca ter acontecido se Keynes tivesse conseguido emplacar o bancor na conferência de Bretton Woods, em 1944. O mundo seria melhor com o bancor como moeda de reserva internacional?
Blustein: Sem dúvida, melhor em certo sentido. Mas não acho que o bancor fosse realista. Talvez com o fim da Guerra Fria houvesse uma oportunidade de mudar para um sistema como esse. Esperemos que, algum dia, os países tenham relações tão amigáveis que sejam capazes de cooperar assim. Talvez, se houver um ataque alienígena… Aí os países veriam que temos mais em comum do que pensamos.
Fonte: Valor Econômico


