A maioria dos economistas acredita que a inflação, as taxas de juros e os déficits seriam maiores sob as políticas que o ex-presidente Donald Trump adotaria em um segundo mandato, do que sob as propostas da vice-presidente Kamala Harris. É o que mostra uma pesquisa trimestral conduzida pelo “Wall Street Journal”.
Os resultados da pesquisa feita entre 4 e 8 de outubro refletem os números de outra realizada em julho, quando Trump enfrentava o presidente Joe Biden. Kamala tornou-se a candidata do Partido Democrata logo depois.
Desde então, Kamala e Trump anunciaram novas propostas políticas. Kamala, por exemplo, propôs novos créditos para crianças recém-nascidas e compra de moradias, enquanto Trump propôs cortes de impostos sobre pagamentos de horas extras e benefícios da previdência social, além de deduções para juros de financiamentos para compra de automóveis e impostos estaduais e locais.
O resultado é que economistas ainda afirmam que as políticas de Trump têm uma probabilidade maior de aumentar a inflação, os déficits e as taxas de juros. Na verdade, essa diferença ficou ainda mais evidente desde julho.
Dos 50 economistas que responderam à pergunta da pesquisa sobre a inflação, 68% disseram que os preços subiriam mais sob Trump do que sob Kamala. Em julho esse número foi de 56%. Apenas 12% dos economistas disseram acreditar que a inflação seria maior sob um governo de Kamala Harris, enquanto o restante não viu nenhuma diferença material entre os dois candidatos.
“Ambos têm políticas que são inflacionárias”, disse Dan Hamilton, diretor do centro de pesquisas econômicas e previsões da Universidade Luterana da Califórnia. Mas em uma mudança em relação às suas previsões de julho, Hamilton e seu colega Matthew Fienup, agora, veem um segundo mandato de Trump produzindo uma inflação maior por causa de seus planos tarifários. “Desde julho, ficou claro para nós que Trump é ainda mais contra o livre comércio do que Kamala”, disse Hamilton.
Desde julho Trump prometeu tarifas gerais de 10% a 20% sobre produtos importados, sendo que seu plano anterior era de impor tarifas de 10%. Ele também propõe uma tarifa de 60% ou mais sobre as importações da China.
Estudos sobre as tarifas impostas em seu primeiro mandato constataram que elas, frequentemente, eram repassadas aos importadores ou consumidores, prejudicando os setores que dependem de insumos importados.
“Se as tarifas funcionarem da maneira como os economistas acreditam que elas funcionam, acho que as pessoas terão uma surpresa muito desagradável”, disse Philip Marey, estrategista sênior do Rabobank para os EUA.
Trump alardeou as tarifas como uma forma de levar empregos de volta para os EUA, arrecadar dinheiro para o governo federal e punir países que “vêm nos roubando há anos”. Ele contesta os pontos negativos dessas medidas, observando que a inflação foi mais baixa durante seu mandato — apesar da guerra comercial com a China e os atritos com outros grandes parceiros comerciais — do que sob o governo de Joe Biden.
“As políticas de Trump, naquela época e agora, alimentarão o crescimento, reduzirão a inflação, inspirarão a indústria, tudo isso enquanto protegem os trabalhadores e trabalhadoras da nossa nação de políticas desequilibradas que favorecem outros países”, disse Brian Hughes, um assessor da campanha de Trump. “As elites de Wall Street seriam sábias em rever o histórico e reconhecer as deficiências de seu trabalho anterior se quiserem que suas novas previsões sejam vistas como confiáveis.”
O “WSJ” pediu aos economistas que avaliassem as propostas dos candidatos. A implementação dessas políticas dependerá de vários fatores, sendo o mais importante a composição do Congresso.
A pandemia de covid-19 e suas consequências dificultam uma comparação direta dos registros econômicos dos presidentes Trump e Biden. O emprego cresceu mais sob Biden do que sob Trump, principalmente porque a pandemia vaporizou 20 milhões de empregos no começo de 2020, preparando o cenário para uma recuperação dramática. A inflação atingiu o maior nível em 40 anos sob Trump, muito disso por causa das perturbações nas cadeias de abastecimento relacionadas à pandemia e dos estímulos federais, alguns dos quais foram transformados em leis por Trump.
A pesquisa perguntou aos economistas como as tarifas amplas propostas por Trump afetariam o emprego na indústria de três a cinco anos, em relação a um cenário sem tal política. Dos 44 economistas que responderam, 59% disseram que a taxa de emprego seria menor, enquanto apenas 16% disseram que ela seria maior. O restante disse que ela seria a mesma.
Embora nem Trump nem Kamala tenham demonstrado muito interesse pela austeridade fiscal, 65% dos economistas disseram que as políticas propostas por Trump exerceriam uma maior pressão para o aumento do déficit federal, um aumento em relação aos 51% registrados em julho.
Na campanha eleitoral nas últimas semanas, Trump propôs eliminar os impostos sobre a renda da previdência social e o pagamento de horas extras, além de reduzi-los para os cidadãos americanos que vivem no exterior. Ele também prometeu intensificar as deportações e a fiscalização da imigração, o que poderia reduzir o número de pessoas que trabalham e pagam impostos nos EUA.
Como resultado, o Comitê para um Orçamento Federal Responsável estima que os planos de Trump aumentariam o déficit do orçamento federal em US$ 7,5 trilhões na próxima década, mais que o dobro do esperado sob Kamala Harris.
Uma consequência provável de déficits e inflação maiores seria taxas de juros mais altas. A pesquisa do “Wall Street Journal” mostrou que 61% dos economistas veem as taxas de juros mais altas sob uma hipotética presidência Trump do que sob Kamala.
Os economistas veem menos diferenças entre os dois candidatos em relação ao crescimento econômico: 45% disseram que o PIB cresceria mais sob Kamala, 37% disseram que a economia cresceria mais sob Trump e 18% não veem nenhuma diferença material.
Hamilton, da Universidade Luterana da Califórnia, disse acreditar que os planos de Trump para reduzir os impostos corporativos e reduzir regulamentações levariam a economia a crescer mais rapidamente do que sob Kamala, mesmo com as tarifas.
A pesquisa constatou que a perspectiva dos economistas melhorou desde julho. Eles, agora, acreditam que o PIB dos EUA crescerá 2,2% no quarto trimestre de 2024 em relação ao mesmo período do ano passado, comparado a uma previsão média de 1,7% em julho. A inflação medida pelo índice de preços ao consumidor é vista em 2,5% no final deste ano, uma redução em relação à previsão de julho, de 2,8%.
Enquanto isso, o desemprego para este ano é previsto em 4,2%, pouco alterado em relação às previsões de julho. Ele foi de 4,1% em setembro.
A probabilidade média atribuída pelos economistas a uma recessão nos próximos 12 meses caiu de 28% em julho para 26%. O porcentual de economistas que deram nota “A” para o desempenho do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, aumentou de 20% em outubro de 2023 (a última vez que o “WSJ” fez esta pergunta), para 45% agora.
Particularmente reconfortante para vários economistas, foi uma grande revisão para cima por estatísticos do governo nas parcelas estimadas das rendas pessoais que estão sendo poupadas. A revisão mostrou que as famílias americanas economizaram US$ 454 milhões a mais em julho do que se acreditava anteriormente. Como os gastos do consumidor impulsionam cerca de dois terços da produção econômica, uma taxa de poupança maior sugere que a expansão tem força para continuar.
“A economia dos EUA está mostrando uma resiliência surpreendente”, diz Dana Peterson, economista-chefe do Conference Board.
A pesquisa de outubro do “The Wall Street Journal” recebeu respostas de 66 analistas profissionais de negócios, profissionais de Wall Street e acadêmicos. Alguns analistas não responderam todas as perguntas.
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Fonte: Valor Econômico