A recente enxurrada de promessas de Donald Trump sobre cortes tributários empurrou seu plano fiscal ainda mais para o vermelho e elevaria os déficits orçamentários dos EUA em mais do que o dobro do que a proposta da rival democrata Kamala Harris, segundo um novo estudo sobre os programas dos candidatos, que está entre os mais abrangentes feitos até agora.
A combinação defendida por Trump de cortes de impostos, aumento das tarifas de importação, expansão militar e deportações em massa elevaria os déficits orçamentários em um total estimado em US$ 7,5 trilhões nos próximos dez anos, segundo o Comitê por um Orçamento Federal Responsável (CRFB, na sigla em inglês), um grupo apartidário de defesa da redução dos déficits. Por sua vez, os planos da vice-presidente Kamala — gastos em políticas sociais, cortes de impostos para a classe média e aumentos de impostos para empresas e pessoas físicas de alta renda — elevariam os déficits em US$ 3,5 trilhões.
Esses aumentos se somariam aos déficits de US$ 22 trilhões que, no ritmo atual, os EUA deverão acumular ao longo desse período de dez anos se o Congresso não mudar nada. Após várias rodadas de cortes tributários e gastos emergenciais, a dívida pública dos EUA agora supera os US$ 28,3 trilhões.
Essa dívida agora tem quase o mesmo tamanho da produção econômica. Mesmo sem novas políticas, a carga da dívida do país como percentual do Produto Interno Bruto (PIB) já ruma a ultrapassar os recordes pós-Segunda Guerra Mundial, em razão do envelhecimento da população dos EUA e do desequilíbrio estrutural entre a arrecadação e os gastos públicos.
Economistas alertam para os riscos criados pelo aumento da dívida, mas, por enquanto, o crescimento dos EUA tem se mantido sólido e o país não vive uma crise fiscal.
O foco dos candidatos esteve mais em suas promessas aos eleitores do que nos cortes de gastos ou aumentos de impostos que cobririam o pagamento dessas políticas. Ambos propuseram políticas que poderiam impulsionar o crescimento econômico — incentivos fiscais para empresas e cortes de impostos que dariam aos consumidores mais dinheiro para gastar —, embora ambos também defendam políticas que teriam impacto no sentido oposto, como os aumentos de impostos de Kamala e as tarifas de Trump. Sob os planos dos dois candidatos, a dívida nacional continuaria a crescer mais do que a economia, de acordo com o estudo.
“Obviamente, nenhum deles está indo na direção de estabilizar a dívida”, disse Marc Goldwein, vice-presidente sênior do CRFB.
Trump, em particular, tem apresentado propostas de cortes de impostos que se somariam a outros cortes tributários. Além de defender a extensão dos cortes de impostos de 2017, que expiram no fim de 2025, ele prometeu eliminar impostos sobre gorjetas, benefícios da Seguridade Social e pagamento de horas extras. E prometeu reinstituir a dedução para impostos estaduais e locais, que a lei tributária de 2017 limitou a US$ 10 mil.
Suas tarifas e políticas energéticas não chegam nem perto de compensar a diferença, segundo o estudo.
“O presidente Trump começou a prometer um novo corte de impostos em cada comício, e isso realmente foi se somando”, disse Goldwein. “Há seis semanas, eles eram meio parecidos. Esse não é mais o caso.”
Os planos de campanha costumam ser bem mais vagos do que a lei em seu formato final, e fazer estimativas não é uma ciência exata, mesmo quando as políticas estão claras. Por exemplo, a diferença entre a estimativa dos avaliadores do Congresso e a do Departamento do Tesouro dos EUA sobre o impacto de aumentar a alíquota do imposto sobre pessoas jurídicas para 28% está em US$ 469 bilhões. Os déficits de Trump poderiam ser de, no mínimo, US$ 1,45 trilhão e de, no máximo, US$ 15,15 trilhões, enquanto os de Kamala poderiam ficar zerados ou chegar a até US$ 8,1 trilhões, de acordo com a análise.
Kamala prometeu não elevar os impostos para famílias que ganham menos de US$ 400 mil por ano, o que exigiria estender a maioria dos cortes de impostos de Trump de 2017 que estão por expirar. Ela também defendeu a ampliação dos créditos fiscais para famílias com filhos, pessoas que comprem sua primeira casa e algumas empresas, além de novos investimentos federais em licença remunerada e assistência infantil.
Kamala tem apoiado muitos dos aumentos de impostos propostos pelo presidente Biden, como as taxas mais altas sobre os ganhos de capital e os lucros das empresas. Um representante da campanha de Kamala discordou da análise e disse que, como presidente, os orçamentos da candidata reduziriam os déficits.
De acordo com Goldwein, embora a agenda de propostas econômicas de Kamala informe que ela pretende cobrir o pagamento dessas políticas e reduzir os déficits orçamentários, isso se mostrará difícil na prática, dada a oposição a aumentos de impostos.
“Eu, de fato, acredito que eles tentarão governar dessa maneira”, disse. “O menu de compensações é uma lista de coisas muito, muito difíceis.”
A campanha de Trump não respondeu ao pedido para comentar o assunto.
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Fonte: Valor Econômico