O projeto de orçamento 2025 apresentado pelo presidente da Argentina, Javier Milei, foi recebido ontem de maneira positiva pelos mercados e analistas, apesar do plano não contemplar duas questões-chave: o fim dos controles cambiais e a recomposição das reservas internacionais.
A proposta tem como eixo principal zerar o déficit fiscal do país como forma de organizar as contas públicas, medida vista por economistas como positiva, apesar de não abordar alguns pontos fracos da economia do país.
“Milei volta a mostrar forte compromisso para evitar o déficit fiscal. Um orçamento sem déficit na Argentina é uma grande conquista que não deve ser subestimada, e acredito que essa é a principal mensagem”, disse Roberto Geretto, economista do Banco CMF.
O governo de Milei estima que em 2025 a economia argentina crescerá 5%, com a inflação desacelerando para 18,3%. O projeto não menciona o fim dos controles cambiais no país — uma demanda do setor produtivo e promessa de campanha de Milei — e projeta que no fim de 2025 a cotação do dólar oficial estará em 1.207 pesos.
“O fim do controle cambial é uma demanda do setor agroexportador, principal gerador das divisas que entram no país via exportações”, diz Dante Moreno, analista da consultoria EPyCA. “Esse tema determinará certamente o nível de apoio futuro a Milei por parte de um setor de reconhecido poder real na economia argentina.”
O projeto também prevê superávit primário de 1,3% do PIB para zerar o déficit fiscal em 2025.
“Particularmente, gostei da proposta apresentada do governo, que mantém a disposição de seguir com o rigor fiscal, ainda que alguns números pareçam mais otimistas e generosos do que a realidade diz”, explicou Andrés Borenstein, professor de Economia da Universidade Torcuato Di Tella.
Luis Secco, diretor da consultoria Perspectiv@s Económicas, ponderou no entanto que “um ajuste fiscal bem-sucedido deve ser acompanhado de reformas estruturais que garantam a solvência fiscal e aumentam o potencial de crescimento da economia”. “O governo está fazendo progressos em muitas frentes, como a reforma dos mercados de capitais, bens e serviços, para promover a concorrência, reduzir barreiras regulatórias e promover o investimento privado. Mas há outras reformas que são essenciais”.
Secco citou as reformas previdenciária, tributária e trabalhista como essenciais para que o governo atinja os números previstos no projeto de orçamento.
No plano orçamentário, o governo indicou que não espera novos fundos do Fundo Monetário Internacional nem do Clube de Paris para os próximos dois anos, e afirmou que os pagamentos continuarão sendo feitos conforme o calendário previsto e que será buscado o desenvolvimento de “novas linhas de financiamento” com outras instituições multilaterais.
Em relação ao desempenho da economia, o Ministério da Economia da Argentina prevê uma queda do PIB de 3,8% para 2024 e uma alta de 5% para o próximo ano. Os resultados estão acima das projeções publicadas no Relatório de Expectativas de Mercado (REM), elaborado pelo Banco Central do país, que estimam um crescimento médio de 3,5% da economia argentina para o próximo ano.
Segundo o governo, a economia deve manter “crescimento sustentado do PIB nos anos seguintes”, de 5% em 2026 e 5,5% em 2027.
O relatório estima uma desaceleração forte da inflação, que ficaria em 18,3% em 2025, bem abaixo dos mais 100% de inflação estimados para este ano. O projeto do orçamento estima uma inflação mensal média no próximo ano de cerca de 1,4%.
A previsão oficial está abaixo dos cálculos do REM, que prevê um aumento do índice de preços de 38,4% para 2025.
“As projeções do orçamento diferem do consenso de mercado. Projetam que o dólar oficial continuará subindo 2% ao mês, o que estaria abaixo da inflação projetada pelo REM, e que em 2025 e 2026 a inflação e o dólar oficial se moveriam de forma semelhante. O orçamento trabalha com uma taxa de câmbio que muitos consideram defasada e que se mantém ao longo do tempo”, disse Geretto.
“Esse crescimento baseia-se fundamentalmente no comportamento das receitas tributárias do governo e é neste ponto que estão as maiores surpresas”, afirma Secco. “A proposta de orçamento levanta a mesma questão de sempre: se a projeção de recursos não se confirmar e os gastos precisarem ser reduzidos, esse ajuste será socialmente tolerável ou politicamente viável?”, diz.
O texto do orçamento defende o controle do déficit como maneira de fomentar um ambiente favorável para o aumento do investimento privado, a melhora da produtividade, do emprego e da renda. “O cenário impõe mais incertezas do que certezas, portanto, os valores incorporados no orçamento provavelmente serão incompatíveis com a realidade”, diz Moreno.
Ontem, em reação ao projeto de orçamento, os títulos da dívida argentina tiveram alta de 1,5% enquanto o risco-país, indicador do JP Morgan que mede o custo da dívida argentina, caiu para 1.360 pontos, menor nível desde junho.
Apesar da boa receptividade do mercado, analistas avaliam ser pouco provável que o Congresso aprove o orçamento sem nenhuma mudança. Isso sugere um novo embate entre o governo e o Congresso, cuja maior bancada é do bloco kirchnerista, da oposição.
O governo disse ontem estar disposto a negociar o projeto desde que não alterem a meta de déficit zero e disse já ter um plano B caso a proposta seja recusada no Congresso. A Casa Rosada não descarta a hipótese de avançar com algumas propostas por decreto, como fez nos primeiros meses de governo, quando propostas de Milei foram barradas pelo executivo.
Fonte: Valor Econômico


