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No Goldman Sachs há um filtro ESG (sigla para práticas ambientais, sociais e de governança) que diz aos investidores para comprar ações da gigante do carvão Glencore e evitar as “big techs” Microsoft e Alphabet.
O filtro foi elaborado para selecionar ações com base na atenção que as empresas dão à reciclagem, gestão de resíduos e reutilização de materiais e produtos. Quanto melhor elas se saem, maior é a pontuação que elas obtêm uma medida chamada circularidade. A abordagem, exemplo mais recente das enormes variações de portfólio que os investidores enfrentam, dependendo da tela ESG que usam, vem mostrando que pode superar o mercado como um todo ao longo do tempo, segundo o Goldman Sachs.
A Glencore foi selecionada – apesar de ser a maior difusora de carvão do mundo, o combustível fóssil mais poluente – porque também é uma das maiores reclicadoras globais, segundo Evan Tylenda, chefe para Europa, Oriente Médio e África da Goldman Sustain, que é a estratégia de análises de investimentos do banco de Wall Street voltada a integrar o ESG para superar os referenciais do mercado. Tylenda diz que desde 2021 e até o fim de julho, os líderes do portfólio de circularidade do Goldman Sachs tiveram desempenho superior ao do índice MSCI ACWI em até 16 pontos percentuais.
Muitas empresas “estão assumindo novas iniciativas que talvez não tenham sido tão apreciadas pelo universo geral dos investimentos sustentáveis”, disse ele. Os investidores deveriam ver a lista do Goldman Sachs como um ponto de partida para a escolha de investimentos, afirmou.
A circularidade, ou a economia circular, é uma área que começa a fazer incursões na teoria dos investimentos. O princípio básico é que há um suprimento limitado de recursos naturais no planeta e uma capacidade limitada de absorver resíduos. As empresas que não reciclam ou reusam os materiais de que necessitam para operar – ou ajudar clientes a fazer isso – ficarão com um modelo de negócios insustentável, o que as tornará um mau investimento.
Há evidências de que o setor financeiro já está pedindo que as empresas documentem suas credenciais em gestão de resíduos. “Embora de forma ainda incipiente, bancos como Wells Fargo e Deutsche Bank começam a pressionar as empresas sobre o gerenciamento eficaz de resíduos e biodiversidade”, escreveram Eric Kane e Melanie Rua, analistas da Bloomberg Intelligence, em nota recente.
Por enquanto, apenas algumas dezenas de fundos oferecem aos investidores uma estratégia de circularidade, comparado a mais de 1.000 voltados para o tratamento do clima, segundo dados compilados pela Morningstar Direct. O maior até o momento é o BlackRock Circular Economy Fund, com mais de US$ 1 bilhão em ativos.
Como tema de investimento, a economia circular “não atraiu os mesmos níveis de atenção” que as questões relacionadas ao clima, diz Kenneth Lamont, pesquisador sênior da Morningstar. “Isso significa que os fundos de economia circular não tiveram o mesmo crescimento e queda dramáticos que alguns fundos de energias alternativas nos últimos anos.”
Vista por meio das lentes da gestão de resíduos, a Glencore – embora esteja na lista negra de investidores como o fundo soberano da Noruega por seus negócios com carvão – subitamente começa a ser uma aposta ESG melhor, diz Tylenda.
Um porta-voz da Glencore não quis comentar, referindo-se em vez disso às divulgações anteriores da companhia. Ela recicla eletrônicos, baterias e outros produtos que contêm cobre, lítio, cobalto e metais preciosos em instalações dedicadas na Europa, América do Norte e América do Sul. Dito isso, a companhia ainda não forneceu resultados separados para os negócios, que são ofuscados por suas vastas operações de mineração e carvão.
Há muito, ambientalistas criticam o que eles caracterizam como lentidão da Glencore em políticas climáticas. Um relatório de abril do Australian Centre for Corporate Responsibility concluiu que o Plano de Transição de Ação Climática 2024-2026 da Glencore na verdade “afasta a empresa do alinhamento a um caminho de emissões líquidas zero”. A Legal & General Investment Management disse em junho que seus fundos ESG vão se desfazer de seus investimentos em ações da Glencore, citando a produção de carvão da companhia.
Suas grandes operações também significam que fundos que pretendem ser sustentáveis e vendidos na Europa não podem investir na Glencore sob as novas regras de nomenclatura de fundos ESG da União Europeia (UE). Uma análise de agosto do Anthropocene Fixed Income Institute declarou que “se alguns desses fundos já não excluem a Glencore, eles agora serão obrigados a fazer isso, a menos que mudem seus nomes”.
Tylenda diz que o foco da Glencore na reciclagem aborda “a iminente crise de materiais críticos” que está por vir, pois a transição verde exige mais energia de baterias. “A implantação de tecnologias de baixo carbono exige muito mais materiais críticos que infelizmente não estão tendo um fornecimento suficiente, então uma ênfase na redução da demanda por materiais virgens e na reciclagem será fundamental”, afirma ele.
“Está havendo uma ênfase muito grande nos resultados de emissões líquidas zero e na perda da biodiversidade”, continua Tylenda. “Argumentamos que a economia circular é fundamental para resolver ambos.”
Pelo segundo ano, analistas do Goldman Sachs vasculharam os dados de aproximadamente 7 mil empresas para identificar ativos promissores para estratégias ligadas à circularidade. No momento, o universo de investimentos inclui 875 companhias. E a Glencore não é a única surpresa. Outras ações que se saem bem na lista do Goldman Sachs incluem a mineradora brasileira Vale, que concordou em pagar uma multa de US$ 7 bilhões ao Estado de Minas Gerais pelo rompimento de uma barragem de resíduos em sua mina de minério de ferro na cidade de Brumadinho em 2019, que matou 270 pessoas.
Enquanto isso, as big techs estão para trás, porque há muitos questionamentos sobre como elas lidam com a eficiência dos recursos, diz Tylenda.
Não está claro hoje qual é a contribuição direta e o resultado para a eficiência de recursos que podem surgir de softwares e da Inteligência Artificial (IA) que estão sendo desenvolvidos pelas chamadas Sete Magníficas, diz ele.
Se a IA eventualmente provar ser útil na desmaterialização da economia, as big techs poderão se juntar à lista de ações preferenciais ao se levar em conta a economia circular, continua Tylenda.
A UE adotou um plano amplo de circularidade há quatro anos, com o objetivo de dobrar o uso de materiais reciclados entre 2020 e 2030. Até agora, porém, a chamada taxa de uso de material circular está em 11,5%, pouco acima dos 10,7% de 2010. Dado esse cenário, as autoridades reguladoras deverão pressionar as empresas a fazer mais, segundo o Goldman Sachs. A economia circular “é bastante subestimada como um tema atual”, diz Tylenda.
Fonte: Valor Econômico