A percepção de risco dos investidores quanto aos desdobramentos da guerra no Oriente Médio voltou a piorar na segunda-feira em meio ao impasse entre Estados Unidos e Irã nos esforços em direção a um acordo diplomático que encerre o conflito. Ativos de mercados mais ligados a risco sofreram com o mau humor dos agentes, que passaram a colocar nos preços a possibilidade de que a guerra – e seu impacto sobre a economia global – se estenda por um longo período.
Desta forma, o petróleo voltou a saltar e o contrato mais líquido do tipo Brent fechou em alta de 5,79%, a US$ 114,44 por barril. Já o petróleo do tipo WTI, referência nos EUA, subiu 4,39%, cotado a US$ 106,42 por barril.
Bastante sensível ao efeito da alta da commodity sobre a inflação, os mercados de juros tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos estiveram entre os de pior desempenho nesta segunda. Por aqui, a taxa do contrato de DI com vencimento de janeiro de 2028 avançou de 13,79% a 13,95%, e a do DI de janeiro de 2031 saltou de 13,73% a 13,86%. Nos Estados Unidos, a taxa da T-note de dez anos anotou forte alta de 4,379% a 4,442%.
Os mercados de ações também sofreram com a piora da percepção de risco, e o Ibovespa terminou o pregão com baixa de 0,92%, a 185.600 pontos. Em Nova York, o S&P 500 cedeu 0,41%, a 7.200,75 pontos.
O pregão foi negativo para os mercados desde o início da sessão, quando os investidores reagiam a relatos desencontrados de Irã e Estados Unidos acerca da passagem de cargueiros pelo Estreito de Ormuz e a presença de navios de guerra americanos no canal. O mau humor se intensificou com a notícia de que Teerã teria ordenado um ataque de mísseis contra os Emirados Árabes Unidos, algo inédito até então no atual conflito.
“As perspectivas de uma reabertura no curto prazo do Estreito de Ormuz diminuíram, e isso naturalmente tem levado os investidores a se preocuparem mais com a possibilidade de preços de petróleo elevados por um período prolongado”, comentam Ian Lyngen e Vail Hartman, estrategistas de mercados do BMO Capital Markets.
De fato, ao olhar os preços do petróleo para prazos mais distantes, nota-se uma mudança de comportamento. O barril do tipo Brent para dezembro, por exemplo, já é negociado na casa de US$ 91, quando o mais comum desde o início da guerra era o contrato oscilar entre US$ 80 e US$ 85, conforme nota um operador de renda fixa.
Com o mercado precificando um petróleo mais caro além do curtíssimo prazo, o ajuste nas expectativas para a política monetária tornam-se ainda mais justificado. Atualmente, a curva de juros futuros embute uma Selic ao redor de 14% no fim de 2026, o que configuraria um ciclo de apenas 1 ponto percentual de flexibilização monetária – já contando os dois cortes de 0,25 ponto nas reuniões de março e abril do Comitê de Política Monetária (Copom).
Para a próxima decisão do Copom, em 17 de junho, os investidores já preveem uma chance relevante de que a Selic siga parada em 14,50%, cenário cuja probabilidade subiu de 31% a 40% ontem, conforme mostra o mercado de opções digitais.
Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos, mantém o seu cenário-base e prevê uma Selic de 12,50% ao fim do ciclo de flexibilização monetária. Ele, no entanto, revela que há uma propensão em aumentar essa estimativa a 13% e pondera que o tamanho do orçamento de cortes dependerá da evolução da guerra e da própria reação do Banco Central à desancoragem das expectativas de inflação.
“Podemos ter uma guerra muito intensa, mas de curta duração, e aí o efeito na inflação é marginal. Mas se [o conflito] tiver intensidade menor e duração longa, o repasse à inflação é maior”, diz o economista. Por ora, ele ainda diz enxergar incentivos para que os EUA e o Irã encerrem o quanto antes a guerra, em especial do lado americano, já que a popularidade do presidente Donald Trump tem caído bastante e pode resultar em perda da maioria republicana na Câmara e no Senado nas eleições legislativas deste ano.
“Quando olhamos o cenário político [nos EUA], tudo aponta para um término ou duração menos longa da guerra. Se houver uma resolução e o petróleo voltar, do jeito que está o câmbio, o BC entrega um ciclo de cortes maior que está precificado na curva”, avalia Leal de Barros.
Embora o recrudescimento das tensões no Oriente Médio tenha afetado o real no pregão de ontem, a moeda brasileira repetiu seu comportamento recente e desempenhou bem melhor do que outras classes de ativos domésticos. No mercado à vista, o dólar subiu 0,32% e fechou cotado a R$ 4,9677.
O gerente de câmbio da Tullet Prebon Brasil, Italo Abucater, diz que a combinação dos juros elevados no Brasil e das exportações estão protegendo o real. “Está chato falar de câmbio. Nem a guerra está fazendo o dólar subir muito aqui. Há uma forte venda de dólares no mercado”, afirma, fazendo referência à internalização de capital pelo setor agropecuário. Para o profissional, a sazonalidade das exportações de grãos neste primeiro semestre, ao lado dos juros elevados, pode continuar ancorando o real nesta primeira parte do ano, o que também abre espaço para o BC continuar reduzindo seu estoque de swap cambial.
“Eles devem reduzir tudo o que der enquanto tiver esse ambiente”, diz, apontando que no segundo semestre, sem a sazonalidade do fluxo ao país, o câmbio tende a não continuar apreciando. “Esse é o momento porque o dólar está parado. Em qualquer outra circunstância o BC não conseguiria reduzir [estoque de swap] sem gerar pressão”, acrescenta.
Fonte: Valor Econômico

