Por Kariny Leal — Do Rio
02/01/2024 05h01 Atualizado há 7 horas
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Em um ano com duas guerras e sanções contra a Rússia, surpreendeu o fato de o petróleo do tipo Brent não ter tido alta expressiva. A commodity começou 2023 aos US$ 82,12 e encerrou aos US$ 76,91, mas o meio do caminho foi mais tortuoso do que parece. A expectativa para 2024 é que os preços se mantenham em patamar parecido, e os principais fatores que mexeram com os preços em 2023 ganhem novos desdobramentos. As atenções estão voltadas para os países de fora do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados (Opep+), caso dos Estados Unidos.
O preço mais baixo que o Brent alcançou no ano foi US$ 71,82 em 12 de junho, e o mais alto foi US$ 94,36 em 27 de setembro.
Felipe Perez, chefe-estrategista de combustíveis para América Latina da S&P Global, diz que os grandes agentes que equilibraram as cotações do petróleo em 2023 foram países “não-Opep”, produtores que não fazem parte do cartel. As produções de Estados Unidos, Canadá, Brasil e Guiana garantiram ofertas maiores que o aumento da demanda global. “Esses países contrabalançaram pesos de oferta e demanda em 2023 para garantir o equilíbrio dos preços. Como eles têm mais flexibilidade de mudar os níveis de produção, isso é possível. Os cortes dos países que fazem parte da Opep+ não foram suficientes para influenciar os preços de forma relevante. O cartel não apostava tanto na produção dos outros países.”
A S&P Global estima que o Brent vai ficar entre US$ 75 e US$ 100 por barril em 2024. “Vimos os fatores que causaram volatilidade em 2023, como o conflito entre Rússia e Ucrânia e a guerra de Israel com o Hamas. Esses eventos ainda podem ter novos desenvolvimentos em 2024”, diz Perez. Ele espera um corte de produção no primeiro trimestre pela Opep+ maior do que o já anunciado. Os EUA devem continuar como principal fonte de exportação de petróleo fora da Opep, segundo a S&P, mas o país pode ser prejudicado caso o preço do barril caia abaixo de US$ 70.
Segundo Perez, entre as dúvidas que ficam para 2024 está a recuperação da economia chinesa, que mostrou uma demanda robusta por petróleo no segundo semestre de 2023, assim como a Índia.
Bruno Cordeiro, analista da StoneX, resume o primeiro semestre de 2023 como marcado pelo receio sobre a demanda global: “A política monetária contracionista dos bancos centrais dos EUA e da zona do euro afetou negativamente a atividade econômica dessas regiões e o consumo do petróleo. A economia asiática desaquecida também agravou o quadro.” Já no segundo semestre, lembrou, as cotações foram impulsionadas por fundamentos diferentes, equilibrando tanto os receios geopolíticos quanto o aumento do consumo na China e na Índia.
A guerra entre Israel e Hamas, iniciada em outubro, e o risco de envolvimento de países produtores de petróleo foram um dos destaques do segundo semestre. O medo arrefeceu com a percepção de que grandes nações petroleiras, como Irã e Arábia Saudita, se manteriam nos bastidores do conflito.
Segundo Cordeiro, as apostas do mercado para 2024 apontam para início do ciclo de cortes de juros nos EUA no fim do primeiro trimestre do ano. Para o analista, esse é um fator que deve ter efeitos positivos nas cotações do petróleo.
Outro destaque apontado por especialistas é a aproximação do Brasil com a Opep+. No fim de novembro, o cartel fez o convite, que foi aceito pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. O Brasil não fará parte dos acordos de cotas de produção. Para o analista da S&P, é necessário aguardar os primeiros movimentos para ver como será a relação do Brasil com os demais membros: “O Brasil é uma das estrelas dos países de fora da Opep+. A aproximação pode ser um posicionamento para o futuro da indústria do petróleo.”
Fonte: Valor Econômico
