Por Victor Rezende — De São Paulo
02/05/2022 05h04 Atualizado há uma hora
É unânime a expectativa de que, nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevará a Selic em 1 ponto percentual, para 12,75%. No entanto, se a decisão em si dá sinais de previsibilidade, a comunicação a ser adotada pela autoridade monetária tem sido amplamente discutida entre os agentes do mercado, assim como os próximos passos do Copom, ao se ter em vista que os juros já estão em níveis elevados, mas também que a inflação corrente não tem dado trégua e que as expectativas inflacionárias de médio prazo continuam a se afastar das metas.
Levantamento conduzido pelo Valor entre os dias 27 e 29 de abril mostra que, das 99 instituições ouvidas, todas projetam que a Selic será elevada para 12,75% na próxima quarta-feira. A unanimidade vista nas expectativas para maio, porém, abre espaço para divisão no mercado quanto ao fim do ciclo. Do total, 25 casas acreditam que o ciclo já chegará ao fim nesta semana, enquanto 74 veem ações adicionais à frente, com o juro básico a entrar na casa dos 13%. Quanto ao fim do ano, a mediana das projeções indica a Selic em 13,25%, mas 23 casas projetam uma taxa mais alta.
Na avaliação da maioria do mercado, um ajuste residual de 0,50 ponto na Selic em junho se faz necessário, na medida em que a desancoragem das expectativas de inflação de médio prazo tem se acentuado. Se, antes da reunião de março, a pesquisa conduzida pelo Valor indicava a inflação em 6,5% neste ano e em 3,8% em 2023, agora o cenário se mostra ainda mais desafiador. O ponto-médio das expectativas coletadas na semana passada, após o IPCA-15 de abril, mostra a inflação em 7,72% no fim do ano e em 4% no fim de 2023.
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Assim, a comunicação da autoridade monetária sobre o caminho a se seguir à frente é chave para os participantes do mercado neste momento. Desde o início do ciclo de elevação da Selic, em março de 2021, o Copom tem optado por dar orientações aos participantes do mercado sobre o que antevê para a reunião seguinte. Na reunião passada, em março, e em eventos posteriores, o colegiado reforçou que via como adequada a Selic a 12,75% no fim do ciclo. No entanto, o mercado migrou para números mais altos, na medida em que as pressões inflacionárias continuaram a escalar.
Assim, nesta reunião, boa parte do mercado acredita que o Copom deveria mudar sua estratégia de comunicação e deixar seus próximos passos em aberto, sem se comprometer com a decisão de junho. “Este é um BC que, tradicionalmente, opta por maior assertividade em sua comunicação, mas, considerando o estágio do ciclo, achamos que este comunicado pode ser menos enfático em relação aos passos futuros, deixando aberta a possibilidade de uma alta adicional em junho, mesmo que de menor magnitude”, afirma o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski.
Ele lembra que, em 2020, quando o Copom estava na direção oposta, “nenhum comunicado fechou a porta a novos cortes de maneira objetiva”. Assim, dado o nível de incertezas inusual e o viés altista para a inflação corrente e esperada, “faz sentido proceder de forma análoga neste momento, deixando decisões futuras, de fato, para o futuro”, diz Secemski. O Barclays trabalha com uma alta de 0,50 ponto na Selic em junho, diante da piora da dinâmica inflacionária.
Cenário semelhante é defendido pela economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado, ao lembrar que o processo inflacionário mostra contaminação de toda a parte dinâmica da inflação, em especial dos núcleos ligados a serviços, que continuam crescentes. Vale apontar que o IPCA-15 de abril mostrou aceleração da difusão para 78,7%, o que assustou participantes do mercado, mesmo com o indicador abaixo das expectativas consensuais dos agentes.
“Temos uma guerra acontecendo, que ainda pode ter impacto nos preços das commodities; um processo inflacionário que ainda mostra contaminação; além de toda a questão dos gargalos e a política de ‘covid zero’ na China, que não contribui para que essa situação diminua”, enfatiza Machado, cujo cenário básico aponta para o IPCA em 4,5% em 2023. Assim, embora enfatize que a subida de juros foi “significativa”, já que a Selic passou de 2% para 11,75%, a economista ressalta que a autoridade monetária precisa ganhar graus de liberdade em sua comunicação.
“Dado todo esse grau de incerteza, a opção deveria ser pela flexibilidade. Não é o momento de perder graus de liberdade, mas sim de ganhar. Seria o mais adequado”, argumenta. Machado nota, inclusive, que o cenário externo exige preocupação, já que, mesmo com os ciclos de aperto monetário anunciados em mercados desenvolvidos, os juros reais projetados pelo mercado ainda estão negativos ou próximos a zero, o que exigiria atenção para possíveis ajustes à frente. Na sexta-feira, o juro real americano de dez anos fechou o pregão negociado a apenas 0,01%.
“Neste momento, diante de tanta incerteza em relação ao processo inflacionário lá fora e no Brasil, dúvidas com o impacto geopolítico, Fed elevando juros e surto de covid na China, faz sentido o BC manter ao menos uma fresta aberta [para ajustes adicionais na Selic]”, argumenta o superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, Maurício Oreng. “A porta está fechando, mas acredito que vão manter uma frestinha aberta para alguma eventualidade.”
Oreng acredita que o Copom deve aproveitar o comunicado para reforçar a ideia de que o ciclo está próximo do fim. Assim, para ele, é possível que o colegiado indique o que antevê para a reunião de junho. “Historicamente, o padrão do BC tem sido o de dar mais sinalizações sobre a decisão seguinte. Tendo a achar que eles vão sinalizar uma alta de 0,50 ponto e falar que [o ciclo] está perto do fim, talvez colocando mais ênfase, mas não devem cravar na pedra que a última alta será em junho”, diz.
Com o aumento das expectativas de inflação desde a reunião de março, de 3,7% para 4%, Oreng afirma que, ao incorporar esse movimento nos cálculos preliminares feitos pelo Santander, mesmo com o câmbio um pouco mais apreciado, a tendência é haver um aumento na projeção do BC para o IPCA de 2023, diante do peso importante das expectativas no modelo da autarquia.
“Com isso, a tendência não é a de seguir o plano de voo de parar de subir juros agora. Estamos esperando que o BC ajuste esse plano de voo para a reunião de junho”, afirma Oreng. “E, se estivermos corretos na nossa estimativa, é capaz de o BC sinalizar algo como uma alta de 0,50 ponto em junho.”
O economista-chefe da Vinland Capital, Aurélio Bicalho, vai na mesma linha, ao também esperar que o Copom sinalize uma elevação de juros em junho. “Sendo coerente com as condições que o próprio BC colocou, o meu entendimento é que ele deve vir com uma comunicação de que haverá um ajuste adicional gradual ou de menor magnitude”, aponta.
Ao tentar resumir a evolução do cenário macroeconômico desde março, Bicalho nota que as expectativas subiram; a inflação corrente evoluiu de forma pior; o cenário internacional tem exigido cautela diante do aperto do Fed; e o lado fiscal, embora sem grandes novidades, continua a apresentar riscos.
Ele acredita, ainda, que as projeções de inflação do Copom devem subir, em um cenário de balanço de riscos ainda assimétrico. “E, no parágrafo 18 da ata [da reunião de março], o Copom diz que, se o cenário se mostrasse mais próximo da inflação de 3,4% em 2023, a avaliação era de que o ciclo deveria ser ainda mais contracionista”, diz.
O economista, inclusive, enfatiza que a evolução das expectativas de inflação é um fator ainda mais importante do que se houvesse uma piora na projeção do BC devido aos preços do petróleo. “É um sinal de alerta de que essa inflação pode ficar mais persistente e mais descolada da meta”, argumenta. E é com base nesse cenário que Bicalho avalia que o Copom irá sinalizar uma alta de juros em junho.
“O BC pode dizer que [a alta da Selic desta semana] seria o último ajuste, mas o que seria condizente com a própria comunicação do Copom é a de que vários vetores se juntam na direção da necessidade de um ajuste maior do que esse nível de 12,75%. E ele virá com essa indicação”, defende o economista da Vinland. Para ele, o BC pode preferir deixar para o mercado, de forma subliminar, o entendimento sobre qual o passo mais provável a ser adotado em junho, sem indicar diretamente a magnitude do ajuste.
Na GAP Asset, o fato de o BC ter tido uma postura de dar orientações sobre os próximos passos dá aval à possibilidade de manutenção dessa estratégia na reunião desta semana. “Acho que o BC deveria sinalizar alguma coisa e o mais provável é, realmente, parar o ciclo ou dar mais uma alta de 0,50 ponto. Acho que entregar mais um aumento de 0,50 ponto é o cenário mais provável”, afirma Anna Reis, sócia e economista da casa.
Nas contas da profissional, o dólar não deve ter um papel muito influente nos modelos do BC, já que a apreciação do câmbio entre a reunião de março e a de agora foi pequena. Além disso, ela nota que a projeção para a Selic no Boletim Focus subiu e que as expectativas inflacionárias também tiveram alta relevante. “Isso terá impacto no modelo dele. A projeção do BC de IPCA para 2023 deve subir para perto de 3,4%”, estima Reis.
A economista acredita que faz sentido para o BC sinalizar um aumento final em junho. Ela, porém, aponta que um cenário alternativo seria o de o BC não indicar nada à frente. “Eles estão querendo parar o ciclo e acham que é um nível de aperto monetário bem forte. Pode ser que a aposta [do BC] de defasagem do impacto da política monetária seja mais forte e o BC opte por deixar totalmente em aberto”, diz. (Colaborou Gabriel Roca)
Fonte: Valor Econômico

