O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) cortou no domingo (7), último dia do feriado de Corpus Christi, 30% da geração de usinas eólicas e solares que estão sob controle do órgão. A medida se somou ao plano emergencial inédito acionado no próprio domingo pelo operador. A iniciativa, conhecida no jargão do setor elétrico como “curtailment”, buscou restringir a produção de eletricidade de usinas conectadas às redes de distribuição. O ONS pode cortar carga de geradoras ligadas diretamente a redes de transmissão, mas não tem controle sobre usinas conectadas à malha das empresas distribuidoras.
Quando a geração fica acima do consumo e vice-versa, há sobrecarga na rede elétrica. Sistemas de proteção são acionados e desligam o fornecimento de energia até que o equilíbrio seja restabelecido.
Dados da página do ONS indicavam nesta segunda-feira, 8, que a geração renovável verificada no domingo era de 18.993 megawatts (MW) médios, sendo restringidos 5.626 MW médios, ou 29,6%. O percentual supera a geração média de 18% cortada entre janeiro e 7 de junho. O Estado com maior volume de energia restrita foi o Rio Grande do Norte, com 1.582 MW médios, seguido por Minas Gerais (1.460 MW médios), Bahia e Piauí, ambos com 714 MW médios.
O ONS também pediu às distribuidoras no sábado que realizassem “gerenciamento” (corte) de 1.000 MW entre 10 horas e 14 horas. As usinas conectadas na distribuição são chamadas no setor elétrico de geração distribuída ou “tipo III”. Incluem solares, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e pequenas térmicas a gás natural. Até a conclusão desta edição, o ONS não havia detalhado os cortes.
As restrições foram feitas conforme normas do próprio operador e aprovadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). As regras preveem que o órgão deve alertar as distribuidoras quando forem esgotados todos os recursos para evitar desequilíbrio na rede elétrica. Segundo o documento, o ONS deve alertar as empresas de dois a sete dias antes do corte. O aviso poderá ter três graus de probabilidade: verde (baixa), amarelo (atenção) ou vermelho (alta). Na sequência, as distribuidoras têm que repassar os alertas do ONS às usinas que serão cortadas.
O ONS tem que confirmar, na véspera, a execução do plano: caso ocorra, o operador informa à distribuidora a geração máxima a ser cortada e o período de restrição. Cabe às distribuidoras definir as respectivas estratégias e coordenar com as usinas como vão atender ao pedido de corte do ONS.
ONS cortou 5.626 MW médios, de uma produção de 18.993 MW médios de eólicas e solares
A solicitação do ONS não inclui centrais de micro e minigeração distribuída (MMGD), modalidade que envolve usinas com até 5 megawatts (MW) de potência e que têm regras específicas de operação. A expansão da MMGD, que soma quase 50 mil MW de painéis solares em telhados e condomínios solares contratados por assinatura, é vista como uma das razões para os cortes de geração pelo ONS.
O ONS tem cortado a geração das renováveis porque há mais energia gerada do que consumida, sobretudo solar. Devido ao feriado, o ONS previu demanda menor no domingo, dia com consumo mais baixo. A previsão do ONS era de demanda de 62.943 MW médios, mas o domingo fechou com 65.371 MW médios consumidos.
O ex-diretor da Aneel e consultor Edvaldo Santana diz que, se a geração solar registrada na segunda-feira, da ordem de 31 mil MW, tivesse ocorrido no domingo, a operação seria ainda mais complicada, com menos margens para cortes pelo ONS. Há vários dias, afirmou, a solar vem gerando acima de 40 mil MW. “A tendência é o plano emergencial se repetir. A carga cai muito aos domingos e já tivemos sábados com carga baixa.”
O plano do ONS com as distribuidoras se deu às vésperas da Copa do Mundo, período em que há variação brusca no consumo de energia e que exige atenção especial para evitar blecautes. Também ocorreu dias após a Aneel aprovar regras para implantação de sistemas de armazenamento, vistas pelo setor elétrico como uma das soluções para os cortes de geração. O Ministério de Minas e Energia (MME) editou ainda uma portaria, na semana passada, com diretrizes para o primeiro leilão de baterias.
Fonte: Valor Econômico


