3 Oct 2022 JENNE ANDRADE
O Ibovespa conseguiu terminar setembro em leve alta de 0,47%, aos 110.036,79 pontos. A discreta valorização no nono mês de 2022 é bem diferente do cenário visto em julho e agosto, quando o índice deslanchou e registrou saltos de 4,69% e 6,16%, respectivamente.
Por trás do arrefecimento no desempenho estão os temores de recessão nos EUA e Europa, regiões que sofrem com inflação e perspectiva de juros mais altos. Agora, fora as questões externas, os investidores brasileiros encaram também o temido outubro eleitoral.
“Historicamente, o período das eleições gera mais volatilidade. Isso serve para bolsa, câmbio, curva de juros e impacta os preços no curto prazo”, afirma Ricardo França, analista da Ágora Investimentos.
Caio Tonet, sócio-fundador e head de renda variável da W1 Capital, também alerta para as oscilações nos preços provocadas por Brasília. “Os três meses pós-pleito são voláteis, dado que o mercado ainda tentará entender o que esperar dos próximos quatro anos.”
Para fugir dessas oscilações, o principal conselho para o investidor é evitar mudanças drásticas no portfólio ao longo do mês. Além disso, é necessário respeitar o perfil de risco. Isto é, não alterar a estratégia do portfólio só por conta de um momento atípico para a bolsa brasileira.
França recomenda o investimento em empresas que consigam bons resultados mesmo em diferentes ciclos econômicos, que sejam bem geridas e pouco endividadas. A bolsa brasileira está descontada, segundo ele, então existem boas oportunidades em quase todos os setores, como varejo, telecomunicações e energia.
Os ativos mais sensíveis ao período eleitoral são as estatais. Mesmo assim, França não descarta o investimento em empresas públicas. “Se vale a pena ou não, vai muito do investidor. Hoje temos estatais que estão em um momento operacional muito bom, pagando bons dividendos, mas são papéis voláteis em época eleitoral”, diz o analista da Ágora.
Pedro Tiezzi, analista de investimentos da SVN, afirma que o investidor não deve tentar realizar nenhum tipo de “trade eleitoral”. Ou seja, investir em determinados papéis que possam ganhar ou perder de acordo com a definição do próximo governo. “Cenários eleitorais tendem a ser binários. Ou seja, estatisticamente, são imprevisíveis e com resultados super distintos. Logo, deixa de ser uma estratégia de investimento e passa a ter mais uma cara de aposta”, diz Tiezzi. De acordo com o analista, a volatilidade que o mercado adquire nesses momentos pode deixar o investidor com prejuízos.
DESCOLAMENTO. Apesar da performance menos destacada em setembro, o Ibovespa se descolou de vez do exterior no acumulado do 3.° trimestre de 2022. O índice de ações brasileiro terminou o período em alta de 11,66%, enquanto os mercados globais ruíram.
A maior inflação desde 1981, de 8,3% em 12 meses, segue forçando o Federal Reserve (Fed, banco central americano) a elevar os juros dos EUA. A situação incomum jogou um balde de água fria nas bolsas americanas. Os principais índices, S&P 500, Nasdaq e Dow Jones, acumularam baixas de 5,28%, 4,11% e 6,6% no trimestre, respectivamente, segundo o levantamento feito por Einar Rivero, head comercial do Trademap. Somente em setembro, os três indicadores caíram 9,34%, 10,5% e 8,84%.
Já na Europa, a guerra entre a Rússia e Ucrânia tem consequências desastrosas não só para as duas nações em conflito. Em resposta às sanções econômicas feitas aos russos pela invasão ao país vizinho, o Kremlin interrompeu o fornecimento de gás natural para a União Europeia – agora, em uma grave crise de energia às vésperas do inverno e precisando lidar com os impactos inflacionários desta situação.
Assim como o Fed, o Banco Central Europeu (BCE) começa o processo de subida de juros para frear o avanço dos preços. Na China, a política de covid zero, que paralisa as atividades no país, também lança dúvidas a respeito do crescimento econômico da região.
Dada a conjuntura, o risco de recessão nos EUA, Europa e China se aprofunda e dissipa uma nuvem de aversão a risco nos mercados. Apesar dos vários fatores externos negativos, a bolsa brasileira demonstrou resiliência nos últimos três meses.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central brasileiro, entre 21 e 22 de setembro, a autoridade monetária manteve a taxa Selic em 13,75%, mesmo patamar do mês anterior, após 12 aumentos consecutivos. A perspectiva é de que a inflação no Brasil já chegou ao ápice, mesmo que continue elevada.
O Brasil tem a vantagem de ter iniciado a alta de juros ainda no início de 2021, antes do resto do mundo, e agora começa a fechar o aperto monetário de forma antecipada também – o que é positivo para os ativos de risco, como ações. •
Vantagem do Brasil em relação ao resto do mundo é ter iniciado antes o ciclo de alta dos juros
Fonte: O Estado de S. Paulo