3 Oct 2022 DANIEL ROCHA
Com o despertar do interesse dos investidores institucionais, as criptomoedas ganham ainda mais relevância no mercado financeiro. O bitcoin (BTC), por ter sido a pioneira e possuir o maior valor de mercado entre os ativos digitais, se torna uma vitrine para essa classe de ativos. Mas por trás do BTC há uma infinidade de moedas com novas tecnologias, como as finanças descentralizadas, que prometem mudar por completo a forma como enxergamos o sistema financeiro. Para Campbell Harvey, professor de finanças da Duke University, o amadurecimento da nova tecnologia deve permitir que as pessoas tenham mais de uma opção de “moeda” de pagamento, além das tradicionais emitidas pelos Bancos Centrais. Segundo ele, a competitividade nas próximas décadas pode gerar um efeito de queda na inflação das moedas tradicionais. “Entre 15 e 20 anos, vamos olhar para a inflação das moedas fiduciárias como curiosidade histórica”, diz.
Se as criptomoedas têm caráter descentralizado e nasceram com a intenção de se tornar uma alternativa ao mercado financeiro tradicional, por que os preços são pautados pelo mercado tradicional?
No início de 2020, houve uma mudança dramática na correlação entre bitcoin e ethers e nos retornos do mercado de ações em geral. Historicamente, a correlação estava perto de zero. Agora, é uma correlação muito alta e isso é uma indicação de que há um perfil diferente de investidor especulando em criptomoedas, do investidor de varejo. A mudança ficou muito evidente em março de 2020, quando o mercado de ações dos EUA caiu 35%. Quando as vacinas se tornaram uma realidade, o mercado acionário subiu e as criptos atingiram o seu pico máximo. O mesmo movimento se repetiu. Isso significa que, quando as incertezas (macroeconômicas) aumentam, as pessoas descartam seus ativos de risco, como ações e as criptomoedas. Ou seja, o benefício da diversificação diminuiu.
Os recentes casos de solvência envolvendo plataformas de criptomoedas são um alerta para os investidores?
Como estamos no início dessa inovação, haverá altos e baixos severos, e não acabou, vai continuar. Isso é muito típico de qualquer nova tecnologia.
O mercado de criptomoedas traz para a sociedade muitas inovações, como as NFTS. Em que direção as criptomoedas estão indo com essas inovações?
Há muitas aplicações diferentes de NFTS que são positivas, como o uso para a indústria da moda. A privacidade é uma característica do NFT. Então, não teremos cartões de crédito e débito, passaportes ou carteiras de motorista. Você terá apenas uma identidade, como um NFT, que será exclusivo e individual. Vejo muitas aplicações interessantes.
Como serão as inovações da sociedade daqui a cinco anos?
Hoje pagamos por produtos em uma loja com a moeda fiduciária. No futuro, na sua carteira que é o smartphone, você poderá ter tokens diferentes que representam ativos, como tokens lastreados em dólares, ou ouro, um título e talvez em ações. Isso oferece uma competição para as moedas nacionais fiduciárias. Faço uma declaração meio provocativa para as pessoas em seu país (Brasil): entre 15 e 20 anos, vamos olhar para a inflação das moedas fiduciárias como curiosidade histórica.
Por que a inflação pode se tornar curiosidade histórica?
A inflação é medida em moeda fiduciária. Vamos imaginar que uma bicicleta custe R$ 8,5 mil ou aproximadamente o preço de uma onça de ouro. Agora, imagine que o governo dobre a circulação de dinheiro ao enviar mais dinheiro para a população. As pessoas irão gastar mais e os preços praticamente dobram. Essa bela bicicleta passa a custar R$ 17 mil reais, ou seja, uma inflação de 100%. No entanto, você ainda pode comprar a bicicleta por uma onça de ouro sem nenhuma inflação em seu token lastreado em ouro.
Estamos experimentando um pouco sobre o que queremos que todo o sistema financeiro se torne?
Estamos vivendo uma popularização e amadurecimento das finanças descentralizadas. Nesse universo, você precisa de um telefone celular e ele será o seu banco e todo mundo estará bancarizado. Em termos de democracia, seremos pares em finanças descentralizadas. Não haverá banqueiro e cliente. Não haverá investidor institucional ou de varejo. Todos serão tratados igualmente. Isso é muito importante para o avanço do sistema financeiro atual. Estamos passando por uma transformação e tenho muita esperança de que as finanças descentralizadas possam nos colocar no caminho de um crescimento maior.
Fonte: O Estado de S. Paulo