A inflação começou a cair de forma consistente e pode permitir, em um par de meses ou pouco mais, que os juros, os mais altos desde 2006, possam ser reduzidos. A ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) teve um tom muito diferente da anterior, e nela se vislumbra uma trajetória de arrefecimento dos aumentos de preços que pode conduzir o IPCA para perto da meta de 3%. Mesmo com uma taxa Selic muito elevada, de juros reais perto de 10%, isso não é algo garantido. Desde o Plano Real a inflação só ficou próxima de 3% duas vezes: em 2017 (2,95%) e em 2006 (3,14%).
O sinal mais promissor, ainda que com ressalvas, veio do IPCA de outubro, de 0,09%, que ficou abaixo das previsões dos analistas. Em 12 meses, ele variou 4,68% e aproxima-se do teto de 4,5%, sob o qual poderá voltar a abrigar-se neste ano. A exceção tem sido o setor de serviços, com variação acima de 6% no ano, impulsionado por um mercado de trabalho em pleno emprego e por salários com ganhos reais de 3% a 4%. No ano, a alimentação permitiu a melhoria mais relevante do índice. Havia previsões de que seus preços subiriam mais de 7% no ano, mas até outubro eles evoluíram 2,68% e devem fechar 2025 um pouco acima de 3%.
A ata do Copom não menciona, como na da reunião de setembro, que “os núcleos de inflação têm se mantido acima do valor compatível com o atingimento da meta há meses”. Eles agora, de fato, estão muito mais comportados. Com o número de outubro, o IPCA é de 3,3%, pela média móvel trimestral anualizada e dessazonalizada. A média dos cinco núcleos acompanhados pelo Banco Central, segundo cálculos da 4intelligence, é de 3,9%, pela primeira vez abaixo de 4% no ano. Há uma série de indicadores promissores por essa métrica.
Os preços livres caíram pela metade desde maio, de 5,4% para 2,7% em outubro. Os bens duráveis apresentam deflação há quatro meses. A alimentação, que em maio tinha índice de 6,1%, reduziu-se a 0,8% agora. Os bens comercializáveis, favorecidos pela valorização do real, variam 0,3%, ante 4,8% em maio. Os produtos industriais, por essa média móvel, avançam 1,8%.
O outro lado da moeda é o setor de serviços, que ainda corre a uma velocidade de 5,6%, embora já tenha encostado em 7% em alguns meses anteriores. É nesse setor que os efeitos do aquecimento do mercado de trabalho e dos salários podem ser melhor observados. Serviços subjacentes, os que mais respondem ao ciclo econômico, sobem 4,4% na média móvel anualizada. Se em seu cálculo se excluem os empregados domésticos, a variação é de 9,3%, ante 7,6% no mês anterior. Os serviços intensivos em trabalho aumentaram de 6% em setembro para 7,2%, a maior taxa em seis meses, e os serviços diversos, de 5,2% para 5,5%, pelas contas da 4intelligence.
A variação do IPCA no trimestre, de apenas 0,46%, foi uma das menores desde 2021 (perde apenas para a sequência deflacionária de três meses no segundo semestre de 2023), segundo a série do IBGE. Em um semestre, o IPCA acumula alta de apenas 1,23%. A desinflação permitiu ao BC afirmar na ata que já havia uma “trajetória de moderação” na inflação cheia e em suas medidas subjacentes, e não apenas “algum arrefecimento”, como no documento de setembro. Apesar de as expectativas de inflação permanecerem acima da meta de inflação “em todos os horizontes”, elas agora “seguiram trajetória de declínio”, o que não ocorrera até a reunião anterior, quando compunham tão somente um “cenário adverso”.
O BC fez uma estimativa dos impactos sobre a inflação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, embora não tenha revelado seus cálculos. Mesmo com cerca de R$ 30 bilhões que serão injetados na economia em 2026 com a medida, a inflação cai a 3,3% no segundo trimestre de 2027, para o qual o BC está calibrando a dose de aperto monetário. Na ata anterior, o índice era de 3,4% para o primeiro trimestre daquele ano. A ata registra, pela primeira vez em muito tempo, que “a queda das expectativas segue mais concentrada nos horizontes mais curtos, mas observou-se movimento agora mais nítido em horizontes além do relevante”.
Com toda essa evolução do cenário, o BC está confiante de que a taxa de juros corrente será suficiente para garantir a convergência da inflação à meta, desde que se tenha “perseverança, firmeza e serenidade”. O diagnóstico de manutenção de uma política monetária contracionista por um período bastante prolongado segue em vigor, mas o BC com suas observações indica que já se encaminha para a mudança no ciclo de aperto, em janeiro ou março, meses que dividem as principais previsões dos economistas e analistas de mercado.
Há, porém, perigos à vista, e o ativismo do Planalto em estimular a economia sem necessidade é o maior deles. O câmbio dificilmente jogará papel tão favorável em 2026 como agora e a próxima safra pode não ser tão generosa quanto a atual, que fez os preços dos alimentos desabarem. Mas a perspectiva de queda inflacionária é real e permite um cenário otimista, já vivido, por exemplo, na sequência de 15 altas sucessivas na bolsa de valores.
Fonte: Valor Econômico
