A prolongada fuga de multimercados e ações, turbinada pelos juros altos e pela recente sangria dos fundos de previdência, forma um retrato desanimador das gestoras de recursos. Levantamento com base no último ranking de gestão da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que trouxe dados até setembro, mostra que 45% tiveram captação negativa em 12 meses.
“Estamos perto de fechar os piores seis anos da história da indústria”, diz Walter Maciel, CEO da AZ Quest. “Excluindo a renda fixa, que está na contramão, de 2021 para cá foram cerca de R$ 500 bilhões em resgates.” Ele lembra que, com a Selic em 15% ao ano, contra uma inflação de 4,5%, superar 10,5% de juro real é tarefa difícil. “Os multimercados enfrentaram esse cenário e a grande disponibilidade de produtos isentos. Nunca mais terão o tamanho que tiveram”, avalia.
O ranking da Anbima abrange 1.084 gestoras, mas somente 996 têm dados disponíveis na edição de setembro, o que significa, portanto, que em 451 gestoras os resgates superaram os aportes em 12 meses. Em 65% delas, os fundos de ações registram saldo negativo; e em 58%, os multimercados. No total geral, em valores absolutos, a renda variável amarga captação negativa de R$ 53,9 bilhões; multimercados, R$ 189 bilhões; e previdência; R$ 16,1 bilhões.
“Temos visto movimento de gestores antes focados em multimercados criando vertentes de crédito privado e infraestrutura com sucesso”, diz Pedro Rudge, diretor da Anbima. “É uma maneira de suavizar dificuldades e manter o negócio a longo prazo, para participar de uma estrutura maior, mais diversificada”, comenta ele, que pondera, porém, que essa é uma decisão difícil, porque “muda o DNA do negócio”.
O maior saldo positivo é dos novos queridinhos do mercado, os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), com captação líquida de R$ 115,6 bilhões em 12 meses, seguidos da classe de renda fixa – que abriga o crédito privado, outra categoria que viveu um “boom” nos últimos dois anos -, com R$ 43,2 bilhões. “O crédito privado virou alternativa ao CDB”, avalia Maciel.
Excluindo renda fixa, de 2021 para cá foram R$ 500 bi em resgates, perto de fechar os piores seis anos da indústria”
Os Exchange Traded Funds, ETFs, fundos que replicam carteiras de índices, também em franco crescimento no país, aparecem cada vez melhor na foto, com captação positiva de R$ 8,7 bilhões.
Roberto Cortese, diretor regional e responsável pela América Latina da Apex, empresa independente de serviços financeiros, lembra que o desempenho dos multimercados começou a piorar há cerca de três anos, mas houve uma espécie de inércia dos investidores, à espera de uma recuperação que não veio. “As perdas viraram uma cicatriz. O choque de realidade veio e os recursos foram redirecionados para produtos com liquidez”, comenta.
No geral, com a farra de carteiras administradas de isentos, o que inclui debêntures incentivadas, certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio (CRIs e CRAs) e investimentos em Letras de Crédito Imobiliário e Agrícola (LCIs e LCAs, que também não pagam Imposto de Renda), o saldo da indústria é negativo em R$ 47,6 bilhões em 12 meses. “Até mesmo os produtos de renda fixa estão numa competição inglória com isentos, principalmente LCAs e LCIs”, diz Cortese.
Para Rudge, havia uma visão ilusória de investidores de que os multimercados sempre ganhariam do CDI. Plataformas e redes sociais, prossegue ele, levaram à bonança, com nomes icônicos à frente de fundos da categoria. “Mas não existe mágica, para ganhar acima da taxa livre de risco tem que correr risco”, diz. “Não vejo com preocupação nem com surpresa, é muito do cenário e do apetite do investidor.”
Segundo o diretor da Anbima, também sócio fundador da Leblon Equities, é plausível vislumbrar que o encolhimento dos multimercados é estrutural e que, a longo prazo, a indústria terá novas “explosões”, como se vê agora com FIDCs, “mas em algum momento vai ter arrefecimento”. A força da renda fixa e do crédito privado recolocou no páreo os bancos, que haviam perdido espaço para as assets independentes. “Eles foram criativos e conseguiram virar o jogo”, avalia Cortese, da Apex. “As gestoras precisam se colocar nessas áreas de crescimento.”
Phylipe Corsini, responsável pela área de distribuição da CV Invest, DTVM do grupo CVPAR, com a previsão de Selic a 12% no fim de 2026, o cenário deve se prolongar por um longo período, mas a indústria vai emergir mais homogênea, com mais equilíbrio entre as alocações. “Na volta, o portfólio deve ser harmonizado, sem disparidade para multimercados.”
A Resolução CVM 175, que redesenhou a indústria de fundos, elevou a robustez e a flexibilidade das estruturas de crédito, ao introduzir responsabilidade limitada aos cotistas, reforçar a segregação patrimonial e permitir múltiplas classes de cotas, ressalta Roberto Vianna, sócio da área bancária e financeira do Vieira Rezende. Esses avanços tornaram os FIDCs o principal veículo de crescimento e consolidaram o crédito privado como pilar do mercado de capitais brasileiro. “Assim, em princípio, apenas gestoras com capacidade de operar em crédito estruturado poderão sustentar desempenho e competitividade no cenário atual.”
A tendência, acrescenta, é de fusões e aquisições de ativos em grandes plataformas e gestoras independentes com domínio sobre crédito estruturado, como FIDCs, CRIs e CRAs. O movimento, diz ele, deve promover uma concentração de ativos sob gestão em poucas empresas, capazes de gerar sinergias e diluir custos de compliance. “Nesse cenário, é possível que tenhamos dois perfis de gestores, o ‘full service’, com portfólio amplo e foco em crédito privado, e o gestor butique especializado, voltado a nichos de alta complexidade técnica.”
Maciel acredita que faz diferença a gestora ter a figura de um CEO que não é o gestor dos fundos, como é a estrutura da AZ Quest, que saiu de R$ 16 bilhões sob gestão em 2021 para R$ 40 bilhões agora. “O momento é favorável à consolidação entre gestoras e à migração de pessoal qualificado.”
No caso dos fundos de previdência, o baque foi a tributação de aportes neste ano acima de R$ 300 mil com IOF de 5% e acima de R$ 600 mil em 2026. A captação da classe ficou negativa em R$ 31,6 bilhões entre janeiro e setembro deste ano, a pior para o período da série histórica da Anbima, iniciada em 2002. “Quando uma alternativa fica mais custosa, o investidor acaba direcionando recursos para uma solução mais eficiente e esquece que a diversificação é poderosa”, analisa Rudge.
Para o diretor da Anbima, em multimercados e ações as saídas estão acontecendo em menor ritmo e tamanho, o que indica uma recuperação à frente. “O mercado gosta de se antecipar, portanto, se agentes econômicos tiverem percepção de que o juro pode começar a cair, pode fazer sentido estar nessas classes.”
Guilherme Cooke, sócio do Lobo de Rizzo Advogados, lembra que as distorções na tributação de fundos e a “proliferação de ativos isentos” acabam incentivando os saques. Ele dá como exemplo os FIDCs, que desde janeiro de 2024 passaram a ser praticamente o único tipo de fundo de renda fixa que não sofre a incidência do “come-cotas”.
“A migração para LCIs, LCAs e outros instrumentos isentos tampouco reflete um suposto mau desempenho dos gestores, mas sim o excesso de benefícios fiscais concedidos a determinados ativos e setores, que inviabilizam uma comparação racional entre produtos tributados e isentos – especialmente quando o primeiro sofre come-cotas.”
Fonte: Valor Econômico
