O salto de 3,70% para 3,78% da mediana das projeções dos economistas de mercado para o IPCA de 2028 no Boletim Focus chamou atenção dos investidores na sessão desta segunda-feira. Não costuma ser comum uma alta dessa magnitude em um horizonte tão distante, sobretudo no intervalo de apenas uma semana. E, justamente por isso, não é algo que possa ser desprezado.
Esse movimento já se insinuava nas médias das estimativas havia um mês, observa o economista-chefe da Tullett Prebon Brasil, Fernando Montero. Em relatório enviado a clientes, Montero coloca os gráficos de média e mediana das projeções no Focus para o IPCA de 2029 e para o IPCA de 2030. E, mais recentemente, a média desses dois horizontes ainda mais distantes também tem se deslocado para cima.
Há, assim, um sinal de alerta ainda maior para a condução da política monetária pelo Banco Central (BC), avaliam alguns profissionais de mercado.
“Foi ruim”, diz o economista-chefe da Oriz Partners, Marcos De Marchi, ao avaliar a dinâmica das expectativas inflacionárias no Focus. “É difícil pontuar exatamente o que levou a essa revisão de quase 10 pontos-base, mas deve ser um misto de piora do conflito [no Oriente Médio], exacerbação das preocupações fiscais em um cenário cada vez mais provável de reeleição de um governo com pouca credibilidade nessa área e percepção de que o Copom deve seguir cortando os juros mesmo com sinais claros de que uma cautela adicional é o mais recomendado.”
Há no mercado quem aponte, ainda, que é possível que horizontes ainda mais longos, como o IPCA de 2029 e de 2030, comecem a sofrer desancoragem adicional. No Focus desta segunda, a mediana para a inflação de 2029 seguiu em 3,50%. No entanto, a média passou de 3,62% para 3,66%, mesmo sendo um horizonte bastante distante.
Na avaliação do economista Marco Antonio Caruso, do Santander, o Focus tem sido uma “ponta solta persistente”, especialmente ao se avaliar que a última rodada de indicadores de atividade econômica apresentou diversas surpresas de baixa em relação às projeções. “O que continua faltando é a parte mais lenta dessa história: uma melhora efetiva das expectativas inflacionárias de longo prazo, em vez de apenas uma sequência de leituras benignas da inflação corrente.”
Caruso observa, em nota, que a dinâmica do Focus importa para os mercados, já que o cenário de referência do BC projeta um IPCA de 3,2% no primeiro e no segundo trimestres de 2028 — um nível que seria suficientemente baixo para abrir espaço para a continuidade do ciclo de cortes de juros até o fim do ano. “O espaço técnico existe, segundo os próprios números do comitê. Se ele será utilizado é outra questão, e os dados das expectativas sugerem que não deveria.”
O Santander projeta duas reduções adicionais na Selic e, depois, acredita que a postura do BC será semelhante à de São Tomé, o apóstolo bíblico que se recusou a acreditar na ressurreição de Jesus até ver e tocar pessoalmente as feridas. “Depois de utilizar todo o espaço que os dados atuais justificam, acreditamos que esse comitê se transformará em um BC São Tomé: deixará de agir com base no que vê naquele momento e passará a esperar para ver antes de tomar qualquer nova decisão”, diz Caruso.
Para o economista, os dois novos cortes esperados pelo banco seriam entregues “com base na confiança conquistada pelos dados já observados”. “A partir daí, o Copom vai querer ‘colocar os dedos na ferida’ antes de se comprometer com qualquer flexibilização adicional. E essa é a postura que esperamos que o comitê adote depois de concluir esse movimento.”
Na sexta-feira, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, deve participar de um painel na ExpertXP, que tende a ser destaque para os mercados domésticos, sobretudo em uma semana bastante esvaziada de indicadores econômicos tanto aqui quanto no exterior. E, nesse sentido, declarações do dirigente devem ser acompanhadas de perto e podem ter influência na dinâmica dos mercados de juros e de inflação, diante dessa deterioração em prazos mais longos.
No mercado de opções digitais, apesar da piora observada no Focus, o mercado praticamente dá como certa uma nova redução de 0,25 ponto na Selic em agosto. Nesta segunda, a probabilidade de um corte se concretizar ficou em 77%, contra 20% de chance de manutenção do juro básico nos atuais 14,25%. Já em relação à decisão de setembro, há uma divisão maior: 43% de possibilidade de manutenção dos juros contra 44% de probabilidade de um novo corte de 0,25 ponto.
Fonte: Valor Econômico
