Em 2026, o movimento de fusões e aquisições (M&As na sigla em inglês) no Brasil tende a ser moderado, não só em tecnologia, segmento que lidera o número de negociações, mas em outros setores da economia.
O cenário é traçado pela consultoria KPMG. “Teremos um crescimento de M&As em empresas de tecnologia, mas com a geopolítica mais complicada na região [da América Latina], as coisas vão ficar meio mornas”, diz o sócio de fusões e aquisições da KPMG, Rodrigo Guedes, ao Valor.
Um movimento global de enxugamento de operações entre multinacionais corrobora a projeção do sócio especializado na área de fusões e aquisições da KPMG. “Juros altos, inflação, questões tributárias são desafios globais”, afirma. “Estamos vendo multinacionais saindo de negócios que não são chave para elas e focando em capital financeiro e humano que geram retorno”, observa Guedes.
No Brasil, o ano de 2026 ainda traz um grau de incerteza um pouco mais elevado a investidores interessados em M&As, considerando o ciclo de “queda de juros e contas do governo, além de ser um ano de Copa do Mundo e eleições”, nota o executivo.
Com a geopolítica mais complicada na região, as coisas vão ficar meio mornas”
De janeiro a novembro de 2025, o volume de negociações anunciadas no setor de tecnologia no país recuou 7,6% em relação aos 11 meses de 2024. Do total de 598 negociações até novembro, 497 envolveram empresas de tecnologia, que atuam em setores como desenvolvimento de software e serviços, um aumento de 13%. Na categoria de internet, incluindo empresas nativas digitais de varejo, finanças, logística e outros setores, houve 101 negociações, uma queda de 51% em base anual.
Empresas de tecnologia mantêm a liderança do ranking de setores da economia que mais realizam fusões e aquisições no país. Na sequência está o setor financeiro, seguido pelas empresas de internet.
A queda acentuada em fusões e aquisições na categoria de internet vem ocorrendo nos últimos três anos, após um período de digitalização acelerada, no auge da pandemia da Covid-19, explica o sócio de fusões e aquisições da KPMG. Neste segmento, a tendência de queda de M&As persiste por um movimento de internalização de aplicações de inteligência artificial (IA). “Faz mais sentido fechar parcerias com provedores de tecnologia do que fazer uma aquisição”, avalia Guedes.
Negociações no mercado interno são historicamente mais representativas no país. Nos 11 meses de 2025, 80,4% das 453 fusões e aquisições de tecnologia anunciadas no Brasil envolveram empresas locais (364), enquanto as multinacionais entraram em 19,6% das negociações, aponta um levantamento da PwC Brasil.
Na avaliação do diretor-executivo de operações em Consultoria e líder de Negociações na PwC Brasil, Christian Gamboa, o Brasil se mantém no radar global de multinacionais que olham potenciais aquisições de empresas, e talentos de IA em 2026. “Se nossas empresas conseguirem se posicionar de maneira relevante nesse mercado, trazendo inovação que complemente o portfólio das grandes, não teria por que não vermos esse movimento atingindo o mercado local também”.
O fechamento da janela de aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês), limitando as alternativas de liquidez para investidores, e a corrida da IA entre empresas tradicionais favoreceram aquisições de startups. Em 2025, foram registradas 172 aquisições de startups, com destaque para empresas de serviços financeiros (fintechs). O volume total de M&As envolvendo startups cresceu 16% ante 2024, informa a empresa de dados e consultoria Distrito.
“Os M&As se consolidaram como o principal mecanismo de ‘exit’ [retorno sobre o investimento em startups] desde 2023”, diz o executivo-chefe de tecnologia (CIO) do Distrito, Gustavo Araújo. “Além disso, a ascensão da inteligência artificial tem pressionado empresas tradicionais a adotarem estratégias ‘AI first’ ”, acrescenta. A combinação desses fatores mantém startups atrativas para aquisições em 2026, nota Araújo.
Fonte: Valor Econômico
