O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou uma proposta de mediadores apoiados pelos Estados Unidos para o desarmamento do Hamas, adotando uma postura mais dura após manifestar reservas à sugestão para retirada gradual de tropas de Israel da Faixa de Gaza.
“Israel não aceita o documento de 15 itens”, disse Netanyahu em reunião semanal de gabinete no domingo, segundo uma tradução oficial. Em sua declaração original, ele usou um verbo em hebraico que pode ser entendido como “Israel rejeita” ou “descarta”.
“As Forças de Defesa de Israel não realizarão nenhuma retirada até que o Hamas seja efetivamente desarmado e continuarão a impedir ameaças contra nossas forças e nossos cidadãos”, acrescentou Netanyahu.
Ele respondeu assim a um “roteiro” divulgado em 30 de julho pelo Conselho da Paz, uma coalizão internacional criada para implementar a visão do presidente dos EUA, Donald Trump, para o pós-guerra no devastado território palestino. Trump classificou o roteiro como um “acordo histórico” e um “grande marco”.
O Hamas deu apenas um apoio com restrições ao roteiro, afirmando que entregaria armas pesadas ao novo governo proposto para Gaza, mas condicionando isso à retirada das forças israelenses e à criação de um Estado palestino. O roteiro prevê que o novo governo autorize palestinos comuns a manter armas leves.
O plano original de Trump previa a retirada completa de soldados e tanques israelenses da Faixa de Gaza e discussões sobre a eventual criação de um Estado palestino, mas considerava essas medidas os resultados finais de um processo de desmilitarização completa e estabilização do território pós-Hamas.
O Conselho da Paz adotou uma postura cautelosa diante das declarações de Netanyahu, descrevendo o roteiro como um acordo com o Hamas, e não com Israel, e destacando que sua implementação seria lenta. “Ninguém é obrigado a fazer nada, muito menos Israel, antes de termos efetivamente confirmado medidas concretas no terreno” por parte do lado palestino, disse Nickolay Mladenov, principal enviado do conselho, à emissora de televisão israelense Channel 12.
Ao prever que o desmantelamento dos túneis do Hamas – outra exigência do plano de Trump – poderá levar anos, Mladenov afirmou que, a cada avanço na retirada do grupo de determinado setor do território, “Israel será obrigado a recuar, progressivamente, passo a passo, em etapas, até chegar à cerca de Gaza”.
A fase inicial de cessar-fogo do plano de Trump foi concluída em outubro do ano passado. Houve pouco progresso diplomático desde então, e o Exército israelense avançou além das linhas do armistício em direção a um território cada vez menor dominado pelo Hamas, que apesar de pequeno abriga cerca de 2 milhões de palestinos.
Israel iniciou a guerra em resposta à invasão promovida pelo Hamas em outubro de 2023, que pegou de surpresa o governo religioso e de direita de Netanyahu. Passados três anos, Netanyahu tem a expectativa de ser reeleito em outubro. Como o Hamas ainda não foi derrotado, o primeiro-ministro tem apontado a manutenção do controle israelense sobre Gaza como uma vitória parcial.
Ministros de extrema direita da coalizão de Netanyahu ficaram descontentes com o roteiro. Orit Strock, por exemplo, classificou o documento como um “mapa para o derramamento de sangue” em entrevista a uma rádio antes da reunião do gabinete no domingo. Após as declarações de Netanyahu, o líder de seu partido, Bezalel Smotrich, elogiou o primeiro-ministro pelo “esclarecimento”.
O Hamas, que é considerado uma organização terrorista e está em listas de sanções de países ocidentais, afirmou estar comprometido com o roteiro e acusou Netanyahu de “obstruir o processo por razões domésticas, políticas e eleitorais”.
“Esperamos que os mediadores e os Estados Unidos, na condição de garantidores, exerçam pressão sobre Netanyahu e seu governo para obrigá-lo a cumprir o roteiro”, disse Bassem Naim, negociador do Hamas, em comunicado.
A onda de ataques aéreos israelenses de julho contra comandantes do Hamas, que também matou dezenas de civis, cessou desde 3 de agosto, um sinal tácito de que Netanyahu atendeu aos apelos de Mladenov para não colocar a diplomacia em risco.
Em mais um sinal de possível avanço, o Conselho da Paz informou no sábado que reuniu especialistas para planejar moradias temporárias para palestinos deslocados, uma medida provisória antes da reconstrução permanente, que, segundo Mladenov, exigiria primeiro o desarmamento do Hamas.
Além disso, o gabinete de Netanyahu informou que estão em andamento os trabalhos para construção de uma nova cidade de tendas financiada pelos Emirados Árabes Unidos em uma área desocupada pelas Forças de Defesa de Israel. Na região, os militares israelenses eliminaram forças do Hamas e apreenderam armas.
Fonte: Valor Econômico


